Primeiro realizador brasileiro de longas-metragens a entrar em campo na luta pelo prémio Horizontes Latinos do Festival de San Sebastián de 2023, Guto Parente trouxe à sala Kursal e outros espaços de projeção da cidade espanhola uma produção agraciada com quatro prémios em Tribeca, Nova York, em junho: “Estranho Caminho”. O Motelx de Lisboa também acolheu a trama ambientada na cidade de Fortaleza, no Ceará, terra natal do cineasta e polo responsável por uma das filmografias mais ousadas das Américas hoje. É uma história espectral ligada ao tema da paternidade.
Além de láureas de Melhor Filme e Melhor Realização, Tribeca coroou a fotografia dionisíaca de Linga Acácio, que se deleita na luz natural das paisagens cearenses a fim de trazer a natureza como um vetor de arejamento para uma conjugação afetiva que começa a ser esboçada entre um cineasta, David (Lucas Limeira, sempre numa composição doce, sabiamente contida), e o pai que há tempo não via, Geraldo, papel do sempre surpreendente Carlos Francisco (visto em “Marte Um” e “Bacurau”). Foi dele o quarto troféu nova-iorquino para a longa-metragem, a mais madura da carreira prolífica de um cineasta que arrebatou a Mostra de Tiradentes, há uma década, com “Doce Amianto” (realizado ao lado de Uirá dos Reis) e voltou a brilhar (a partir de Roterdão) com “Inferninho”, rodado em dupla com Pedro Diógenes, em 2018.
Um dos títulos mais esperados dos Horizontes Latinos de San Sebastián, “Estranho Caminho” é uma recriação cheia de estranheza dos sofridos dias de arranque da pandemia, em 2020. David volta para casa, em Fortaleza, após um período longa em Portugal, onde vive com Teresa (Rita Cabaço), para apresentar um filme num festival que é cancelado em decorrência da covid-19. O filme experimental de (quase) terror que veio exibir servirá de matéria para que Guto explore, não apenas a sensibilidade fraturada do rapaz, mas também a aura de indefinição (e também de uma espectral peste) no Brasil que reconstitui. A exasperação vai sendo graduada gota a gota numa narrativa que refaz um passado bem recente à foça da direção de arte minuciosa (mas discreta) de Taís Augusto. Ela se faz notar com mais brio na casa de Geraldo, onde David vai bater à cata de um pouso seguro.
Na entrevista a seguir, Guto explica ao C7nema como desafiou as fronteiras da realidade no seu filme.
O que veio da sua própria vida para a trama de David e o Sr. Geraldo?
O livro que aparece no filme foi escrito pelo meu pai nos anos 1990. A personagem de Carlos Francisco leva o nome e o sobrenome do meu pai. A nossa relação era de distância, mas nunca duvidei do seu amor por mim. Era um pai cinéfilo que viu muitos filmes comigo. Escrevi essa história quando estava confinado em casa na pandemia. Sozinho, percebi que deveria tentar me reconectar com ele. De certa forma, nesta longa-metragem, estou recriando esse pai.
Nesse aspecto, levando-se em consideração a dimensão de mistério que cerca a trama, com situações nas raias da fantasia, podemos dizer que é um filme de fantasmas?
De certa forma, sim, mas é necessário que se amplie a perceção do que é um fantasma, pois essa palavra está relacionada ao assombro, a sensações assustadoras. O filme não vai por essa linha, mas está amparado na metáfora da incompletude, de algo a ser resolvido, e traz uma perceção de presenças que nos cerca. É uma dimensão que vai além do real.
Seria o extra-ordinário?
Gosto desse termo. Tzvetan Todorov, em sua teoria sobre a fantasia, fala de extraordinário sem hífen, referindo-se a algo absurdo ou sobrenatural que pode ser explicado por alguma lei social ou natural, como se vê, no cinema, em “Psico”, ou, na literatura, em Edgar Allan Poe. O que se chama de “extra-ordinário”, com hífen, que indica o mistério, é um bom desafio ao cinema, pois sempre se exigem explicações de um filme. Gosto de outras perspectivas.
O que o cinema cearense revelou de mais potente para o Brasil?
Quando se é um cineasta nordestino, sofre-se uma cobrança histórica para fazer filmes sobre questões relacionadas ao sertão, a tradições culturais arraigadas a um cenário que não urbano. Mas conseguimos criar uma filmografia que não se preocupa em atender expectativas, plural. Eu aposto numa Fortaleza muito sentimental, mas outros colegas seguem outros trilhos.
De que maneira a sua associação com o coletivo Alumbramento, representado por uma produtora homónima, que durou até 2016, ainda se faz notar em sua estética, que ganhou notoriedade a partir da vitória de “Estrada Para Ythaca” na Mostra de Tiradentes, em 2010?
O Alumbrumento constituiu meu modo de entender a feitura coletiva de um filme. Ainda que “Estranho Caminho” tenha sido dirigido só por mim, ao contrário das longas-metragens que fizemos com quatro realizadores, o sentimento de instaurar uma liberdade criativa em todos os núcleos do processo me persegue. É uma formação experimental que significa correr riscos.
Nesta sexta, o também brasileiro “Pedágio”, de Carolina Markowicz, encerra a competição dos Horizontes Latinos.

