Desde que protagonizou O Acontecimento (L’Événement), vencedor do Festival de Veneza, a carreira de Anamaria Vartolomei tem apostado em projetos arriscados, como Maria, onde evocou Maria Schneider, O Conde de Monte Cristo e até Mickey 17.
Sem perder a relação muito instintiva com os papéis que aceita, em Pelo Adam (L’Intérêt d’Adam), de Laura Wandel, a jovem atriz entra num jogo de tensão e claustrofobia que já marcava o primeiro filme da cineasta belga, Recreio (Un Monde).
No centro do filme está Rebecca (Anamaria Vartolomei), uma jovem mãe que se recusa a alimentar o filho de quatro anos com os alimentos indicados pelos médicos, colocando-o em risco. Sem nunca ser reduzida a uma figura monstruosa, Wandel filma Vartolomei com a câmara próxima dos corpos, numa corrida contra o tempo, onde Lucy, a enfermeira-chefe vivida por Léa Drucker, percebe estar perante dois doentes e não apenas um. Num sistema preso a protocolos médicos, judiciais e institucionais, Lucy vai tentar encontrar uma resposta humana.
À conversa com o C7nema, em Paris, Vartolomei falou-nos do que a levou até este filme de Wandel, da recusa em fechar psicologicamente as personagens e do seu trabalho entre o cinema de autor e as grandes produções.

Falámos no ano passado sobre Maria e, antes disso, sobre O Acontecimento. Olhando para esses filmes e para este novo projeto, como escolhe hoje os papéis que aceita? Há uma intuição imediata, qualquer coisa que lhe diga: “sim, é isto que quero fazer”, ou existe algum tipo de plano?
Acho que não penso demasiado, é mesmo instintivo. Não tenho um plano, de todo.
Quando conheceu Laura Wandel, como foi o diálogo para sentir que este era um filme que queria mesmo fazer?
Tive vontade de o fazer antes de conhecer a Laura. Recebi o argumento e o papel assustou-me um pouco, mas pensei que isso podia ser também um bom motor. Tinha a impressão de nunca ter navegado naquele terreno, e isso podia ser uma experiência nova para mim enquanto atriz.
Depois conheci a Laura e havia algo muito enigmático em torno da personagem. Não sabíamos realmente porque ela agia daquela maneira: se por preocupação ecológica, por problemas psíquicos ou por perturbações anteriores ligadas à alimentação. Ao mesmo tempo, o que achei bonito foi perguntar-me quem se agarra a quem: é a criança que se agarra à mãe, ou é a mãe que se agarra mais à criança?
Fez algum tipo de investigação para construir a personagem? Chegou a falar com psicólogos ou preferiu aproximar-se dela de forma mais instintiva?
Não. Isso não me interessava. Depende dos papéis. Às vezes, se o papel exige preparação física, canto ou outra coisa, sim, há treinadores ou outras pessoas envolvidas. Quando recentemente interpretei Juliette Gréco [no inédito Miles & Juliette], por exemplo, quis conhecer pessoas que a tinham conhecido.
Mas, neste caso, não via interesse nisso. A personagem está tão perdida que não fazia sentido traçar um retrato psicológico quando ela própria não sabe onde está nem quem é. Queria deixar muito espaço à indefinição e à surpresa.
Mas, de alguma forma, compreende a personagem?
Não. Às vezes não a compreendo, e é assim. Para mim, ser atriz não é só preparação. É estar no momento presente, ver o que acontece, confiar no instante, na vida, nas situações.
Podemos antecipar coisas, ter ideias, prepará-las, desenvolvê-las. Mas, quando chegamos ao plateau, basta um pequeno fator exterior para mudar tudo e a cena tomar outra direção. Para mim, trata-se muito do instante presente.
Qual foi o grande desafio deste papel?
Talvez encontrar o equilíbrio. Como ela é enigmática, não queria que fosse vista apenas como alguém antipática. Queria que fosse detestável nos seus atos, mas que o espectador ainda pudesse ligar-se a ela. Talvez essa balança tenha sido o mais difícil.

É diferente aproximar-se de uma personagem que existiu, como Maria Schneider ou Juliette Gréco?
Sim e não. Depende do que o realizador quer. Com Maria, era mais uma evocação. Com o realizador de Miles & Juliette, também havia essa ideia de evocação.
Claro que Juliette Gréco era um ícone, uma musa. Conhecemos a sua voz e há elementos de que me quero aproximar, até pelo desafio de interpretação. Mas o desafio do imaginário mantém-se. Há coisas que inventamos e temos de nos autorizar a inventá-las.
É diferente fazer um filme mais pequeno e uma grande produção, como Mickey 17 ou O Conde de Monte Cristo?
O dispositivo é diferente, mas, quando estamos a representar, é um pouco a mesma coisa. Aqui era um contexto mais íntimo, com menos pessoas e com planos-sequência. Nas grandes produções, tudo é muito mais fragmentado, com uma découpage mais rígida.
Existe uma pressão diferente, sim. Sentimo-nos mais observados. Os produtores também têm outro papel. Não é a mesma coisa. Mas também é bom.
Já fez também um filme na Roménia. Sendo franco-romena, gostava de fazer mais cinema romeno?
Sim, gostava. Gosto sobretudo do cinema romeno quando se aproxima do de Cristian Mungiu. Gosto de filmes sociais, inteligentes, mais brutos, mais simples, com uma ponta de humor negro. É uma marca que me agrada muito.
Gostava muito de fazer um filme na Roménia, principalmente com Cristian Mungiu. Confesso que não conheço tão bem os outros realizadores.
Pensa em Hollywood?
Sim, como toda a gente. Seria mentira dizer que não. Crescemos todos com uma cultura anglo-saxónica e temos vontade de entrar em universos diferentes. Mas Hollywood está tão longe que não penso muito nisso. Se houver oportunidade de fazer filmes em inglês, ótimo. Se não acontecer, também não é grave. Mas sim, faz-me sonhar.
E como olha para o trabalho em séries?
Fiz uma minissérie chamada Merteuil. Gostava de fazer mais, mas as séries são complicadas. Depende muito do papel e de perceber se corresponde ao que tenho vontade de fazer naquele momento.
Por exemplo, The White Lotus vai passar-se em França. Isso é genial, mas a questão é saber se o papel que poderia eventualmente servir-me corresponde às minhas expectativas atuais. Não diria que sim só por ser um projeto grande. Tem de estar ligado ao que defendo e a uma certa continuidade. Depois de uma série como Merteuil, talvez não tenha vontade de fazer uma personagem parecida. É mais uma questão de encontro entre a personagem e eu.
O Acontecimento, de Audrey Diwan, mudou tudo para si. Foi um filme difícil de fazer?
Não, de todo. Havia cenas difíceis, claro, mas tive muito prazer em fazer o filme. Com a Audrey entendia-me muito bem. Foi uma experiência muito alegre.
Sendo uma obra de Annie Ernaux, sentiu uma pressão extra?
Um pouco. Tinha algum receio de saber como Annie Ernaux iria reagir ao filme, se se reconheceria nele, se eu tinha captado coisas dela que lhe falassem. Mas acho que também inventámos a nossa própria Anne.
Pensa que interpretar Juliette Gréco pode ser uma porta de entrada para outros projetos internacionais?
Não penso assim. Penso apenas que quero prestar homenagem a Juliette Gréco, fazê-lo da forma mais justa e pura possível. Para além disso, trata-se de contar a emergência de duas pessoas que se tornaram ícones, mas que, naquela altura, ainda não o eram. Queria trazer frescura a isso.



Há atrizes em quem pensava quando era pequena, figuras que lhe davam vontade de seguir esta profissão?
Sim. Penso em Cate Blanchett. E adoro Emma Stone, por exemplo. Hoje talvez seja uma das atrizes que mais me fascinam.
Ela encontrou também o seu realizador-fetiche, Yorgos Lanthimos, que lhe propõe papéis que lhe assentam muito bem. E ser produtora permite-lhe também trazer ideias. Acho-a realmente inspiradora. Neste momento, diria Emma Stone.
Acha que precisa de encontrar também um realizador ou realizadora-fetiche?
Acho que ter alguém que nos conhece é sempre melhor, porque sabe levar-nos a lugares diferentes e a relação torna-se mais simples. Não digo que todos os atores tenham de ter isso, mas muitos grandes atores tiveram: Isabelle Huppert com Chabrol, De Niro com Scorsese. Muitos foram chamados e revisitados pelos mesmos realizadores.
Escreve ou pensa um dia realizar?
Produzir, sim. Realizar, não. Não me interessa. Gosto de representar. Gosto de estar diante da câmara. O meu grande amor é representar. É por isso que sou atriz. Gosto de jogar com a câmara, gosto de mostrar. Não tenho particularmente vontade de dirigir um plateau ou de escrever. Gosto das palavras dos outros.
Há algum cineasta com quem gostaria muito de trabalhar?
Sim, há muitos. Em França, por exemplo, gosto muito de Claire Denis e de Leos Carax. Adoraria trabalhar com eles.






