Maria Schneider, humilhada e incompreendida

Nos cinemas a 3 de abril

Dois anos após a morte de Maria Schneider (1951-2011) e 41 anos depois da estreia nos cinemas de “O Último Tango em Paris, o aclamado cineasta italiano Bernardo Bertolucci (1941-2018) reconheceu numa conferência na Cinemateca Francesa que o seu comportamento durante as filmagens desse projeto foi pouco correta, especialmente no que diz respeito à cena da sodomia, ‘a cena da manteiga’, onde conscientemente não explicou à jovem Maria Schneider, na altura com apenas 19 anos, o que iria acontecer. “São coisas graves, mas os filmes fazem-se assim. As provocações são às vezes mais importantes que as explicações”, disse Bertolucci em 2013, acrescentando que ao não explicar como a cena iria decorrer, tentou com o elemento surpresa captar uma reação mais real da cena protagonizada por Marlon Brando e Schneider.

Depois desse filme, Maria Schneider nunca mais se despiu em nenhuma película e, em 2007, numa entrevista ao Daily Mail, confessou que a cena em questão fez com que ficasse muito zangada, mas que na época não podia contrariar os desejos do autor. “Devia ter chamado o meu advogado ou agente, porque não se pode obrigar um ator a fazer algo que não está especificado no guião. Porém, na altura eu era jovem e não sabia”.

Essa cena e o impacto das filmagens de “O Último Tango em Paris” no resto da carreira e vida da atriz são o foco de “Maria Schneider”, filme que chega esta semana aos cinemas nacionais após a sua estreia no Festival de Cannes. “Mais que um biopic, quis fazer o retrato de uma jovem afetada por uma situação numas filmagens”, explicou a realizadora Jessica Palud ao C7nema, acrescentando que começou o seu percurso no cinema, aos 19 anos, como estagiária nas filmagens de uma obra de Bernardo Bertolucci.  “Foram as minhas primeiras filmagens. Estava muito feliz”, diz-nos, acrescentando que logo aí tentou “perceber o que tinha acontecido nas filmagens do “Último Tango em Paris”, pois existiam muitas versões da história”. 

Maria Schneider

Continuando o seu percurso numa indústria do cinema maioritariamente povoada por homens, Palud confessa que assistiu “a muitas formas de trabalhar que não pode definir como normais” e que, quando descobriu o livro “Tu T’Appelais Maria Schneider“, escrito por Vanessa Schneider, a perturbação com a narração dos eventos levou-a a querer desenvolver um filme em torno da questão. “ O livro da Vanessa Schneider perturbou-me, principalmente porque as palavras da Maria na época em que ocorreram os factos não foram de todo levadas em consideração. Estávamos em 1972 e tínhamos uma jovem que dizia as coisas frontalmente. Ninguém a ouvia. Tantos anos depois, no nosso tempo, as coisas não evoluíram muito. A minha preocupação principal com este filme era que as as pessoas a ouvissem e que tivéssemos uma atuação potente que nos trouxesse a Maria de volta.”

Definindo “Maria Schneider como uma obra sobre como somos “atropelados” pela vida “quando não somos ouvidos”, Palud refere que a atriz ficou muito afetada pelas filmagens e por uma agressão que ficou registada na película. “Ela sentiu-se humilhada e incompreendida. Carregou nela uma imagem de mágoa”. 

De um Casting Selvagem a Anamaria Vartolomei

Maria Schneider

Para o papel de Maria Schneider, inicialmente, Palud pensou numa desconhecida e não profissional, porém, ao longo dos tempos foi vendo que essa não seria a melhor opção. “Ia abordar uma mulher dos 16 aos 30 anos. Uma jovem e uma atriz que carregava mágoa.  Havia vários elementos a ter em conta na sua personagem. Comecei por fazer um casting selvagem, mas não funcionou. Quando escolhemos um não-ator, escolhemos um temperamento. Um não-ator prefere também uma personagem mais perfeita, sem o peso que a Maria Schneider carregava. Parti então para a Anamaria Vartolomei, que era alguém muito diferente da Maria.” 

Atriz que deu nas vistas no protagonismo de “O Acontecimento”, filme de Audrey Diwan que venceu o Festival de Veneza em 2021, Anamaria Vartolomei confessou ao C7nema que “ficou imediatamente agarrada ao testemunho de Maria Schneider e a sua audácia num tempo em que as vozes das mulheres não eram ouvidas”,, frisando que ainda hoje existe medo em expor agressões e comportamentos inapropriados na indústria do cinema devido ao medo de penalização. “Ainda hoje é um tema delicado e a Maria falou sobre a questão sozinha. Ela sentiu-se torturada pelos olhares alheios, de como as pessoas a viam quando apontou o que lhe aconteceu.  Gostei muito do guião e, como atriz, senti-me atraída a este papel. Diz-se que não são os atores que escolhem os papeis, mas os papeis que escolhem os atores. Aprendi muito com a Maria e a sua coragem inspira-me.

Para recriar a famosa sequência “da manteiga”, onde tudo muda, Jessica Palud teve acesso ao guião original de “O Último Tango em Paris” , a cópia usada no set e anotada pelo supervisor de roteiro, que fez anotações nas margens para registar tudo o que havia sido adicionado nas filmagens. 

Matt Dillon é Marlon Brando

Quando pensou no ator que iria representar Marlon Brando no cinema, Jessica Palud viu apenas duas vias: encontrar um ator que fosse um verdadeiro duplo e nos levasse imediatamente ao norte-americano, ou alguém que pudesse evocar aquilo que ele representava: o mito de Hollywood. Matt Dillon foi o eleito e, tal como Brando, às vezes repetia o monólogo de “O Último Tango em Paris” quando era jovem.

Cena Choque

Na busca do “acidental”  que nutria o cinema, Bertolucci tinha por hábito adicionar cenas e incentivar a improvisação. Tudo foi recriado com base nesses elementos, sendo o diálogo com a direção de fotografia, a direção artística e o guarda-roupa marcado por uma consciente mudança de cores em alguns momentos. “Trabalhei com o diretor de fotografia com filtros vintages, objetivas específicas. Tinha várias referências, a câmara fixa, e trabalhamos muito em termos de fotografia, decoração, cores e guarda roupa. Visitamos também muitos apartamentos, pois o real está completamente transformado. Trabalhamos a cor inspirados em várias pinturas e mudamos conscientemente a cor em algumas situações. Foi um trabalho meticuloso.

Coordenador de Intimidade

Ao contrário de “O Último Tango em Paris”, e conscientemente, “Maria Schneider” contou com a presença nos sets de um coordenador de intimidade, uma figura recente na indústria cinematográfica que tem gerado alguma discussão, com alguns atores e realizadores a oporem-se a essa presença extra nos sets, enquantos outras veem bem vinda a sua inclusão na indústria cinematográfica.  “Consigo compreender que existam pessoas que queiram ver as cenas de sexo de um filme como outra cena qualquer, e que, ao existir um cordenador de intimidade, a cena ganhe um cariz diferente de outra cena qualquer. Mas também existem muitas coisas que não podemos controlar sem a presença de um coordenador, por isso a sua presença em cena parece-me importante”, diz Vartolomei, sendo complementada pelas ideias de Jessica Palud sobre a questão. “Trabalhámos com um coordenador de intimidade e também recentemente numa série (adaptação de “Dangerous Liaisons”) que acabámos de filmar. Há que compreender que estes coordenadores nunca se intrometem em nada da mise-en-scène. Nenhum coordenador nunca me disse que não podia fazer isto ou aquilo no set. Eu explico o que quero e há uma ajuda na coreografia. Não se intrometem nas emoções mostradas. Imaginemos que temos um jovem com receio de dizer não e que decidem mudar o guião numa cena e transformar em algo sexual. Hoje em dia, essas pessoas podem dizer não, com a presença dessa figura. É uma grande diferença. Imagine que num guião diz que as personagens se abraçam, mas no set alguém decide que façam isso nuas. Tem de se ter atenção ao que está escrito e o que se quer filmar”.

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