Odiado por parte substancial do fã-clube do livro “O Senhor dos Anéis” e da trilogia dele derivada (filmada por Peter Jackson) pela histérica série da Amazon “Os Anéis do Poder” (2022), Juan Antonio Bayona vai fazer novos inimigos (em especial na América Latina) com a escolha de filmar o desastre aéreo da seleção uruguaia de rugby, em 1972.
Naquele ano, uma aeronave com atletas e outros tripulantes (45 ao todo) caiu na Cordilheira dos Andes, no Chile, matando 29 pessoas. Depois de 72 dias na neve, acossados pela fome e pelo frio, 16 sobreviventes foram resgatados. O caso ficou conhecido como A Tragédia dos Andes e como O Milagre dos Andes. Há 30 anos, Frank Marshall fez um filme sobre o tema, cheio de humanismo, com Ethan Hawke no elenco: “Alive“. Nisso, emplacou um folhetim sensível e tenso. No empenho de seguir com projetos em língua espanhola, mesmo após a sua adoção por Hollywood, Bayona quis revisitar o incidente, sem dar muito crédito para o legado de Marshall. Com isso, deixou a perspectiva empática de fora e fez um espetáculo barulhento e vazio.
Badalado em Veneza e aplaudido com ardor em San Sebastián, “La Sociedad De La Nieve” é um produto Netflix que desfruta de virtuoismo inegável no diálogo com a cartilha do Cinema Catástrofe dos anos 1970, em especial o clássico “The Towering Inferno” (1974). Mas o Bayona afetuoso de “El Orfanato” (thriller de horror de 2007) parece ter se diluído na esteira do sucesso nos EUA. O que nos é “vendido” como um épico sobre a solidariedade se reduz a um exercício de necrofilia simbólica dos mais predatórios. Não há nenhum empenho de se criar uma conexão com as personagens, diante do absoluto descaso do guião com a sua construção. A fria forma de Bayona dirigir atores só amplia esse abismo. Chega a ser eticamente incómodo o tratamento dado pelo realizador ao protagonista, Numa (o uruguaio Enzo Vogrincic).
Parece haver mais interesse do realizador nas rochas andinas e no gelo do que nas pessoas que esboça. Não é um estudo sobre resiliências, é uma gincana pela vida, digna de reality shows dos mais sensacionalistas, com a agravante de que a vida em questão é tratada sem nenhum empenho no script. Existem pelo menos duas sequências de muita adrenalina que são notáveis: a colisão do Fairchild FH-227D e um par de avalanches. De resto, impera o sensacionalismo. Apesar disso, Espanha escolheu o filme como o seu representante para os Óscares, deixando evidente a sua simpatia pelos ditames das plataformas digitais.



















