“Franz”: Kafka é processo

(Fotos: Divulgação)

Vulcão em erupção no seu jorro de imagens (e boas ideias) sobre a prosa e a alma de um dos maiores escritores da História, Franz deixou a 73.ª edição do Festival de San Sebastián embasbacada diante do fluxo narrativo que a polaca Agnieszka Holland encontrou ao fazer o que definiu como “uma busca” por um Franz Kafka (1883-1924) que existisse para lá do oceano de signos construído em torno do seu nome e do seu legado. “O aspeto de que menos gosto nos biopics é o facto de se preocuparem em excesso com a reconstituição de factos. Fui por um caminho oposto e filtrei toda a informação que não fosse essencial, pois não queria um Kafka arbitrário e sim registar a minha procura desse autor, que descobri aos 14 anos, quando o estalinismo tratava a sua obra como degeneração burguesa”, disse Agnieszka, em resposta ao C7nema, na conferência de imprensa de San Sebastián. “Não é possível usar uma só chave para decifrar Kafka a cada vez que nos reencontramos com a sua escrita, pois o que ele escreveu atualiza-se”.

Estreado no início do mês no TIFF – Toronto International Film Festival, Franz foi uma das sensações do evento canadiano, o que ampliou o seu peso na competição pela Concha de Ouro, à luz da mestria da sua realizadora. Aos 76 anos, a cineasta responsável por Total Eclipse (1995), com o jovem Leonardo DiCaprio no papel do poeta Rimbaud, renova o seu prestígio com esta imersão na mente de Kafka e nos seus personagens.

© SSIFF – Photo: Jorge Fuembuena

Concebida como um mosaico caleidoscópico, a longa-metragem — que tem tudo para levá-la ao Oscar, já que é o representante oficial da Polónia para a Academia de Hollywood — acompanha a marca que o autor de A Metamorfose deixou no mundo, desde o seu nascimento na Praga do século XIX até à morte em Viena, após a Primeira Guerra Mundial. No filme exibido (e muito aplaudido) em San Sebastián, Agnieszka mistura tempos históricos e quebra a quarta parede, combinando recriações do passado com imagens da Praga atual, onde turistas fotografam locais por onde Franz K. passou.

Kafka foi revolucionário no que escreveu e, ao rever o seu trabalho agora, descubro um lado sensual e mais afetivo”, disse Agnieszka, que vive uma fase profissional mais prolífica e mais festejada pela crítica do que nunca, depois de ganhar um Urso de Prata (Inovação Narrativa) com Spoor (2017).

A proporção entre as palavras escritas por Kafka e as narrativas publicadas sobre ele é (hoje) estimada em um para 10 milhões. Nascido em Praga, no fim do século XIX, em uma família judia tcheca de classe média (que falava alemão e iídiche), Kafka escreveu romances e contos ao longo de seus 40 anos. O Castelo (1926) e O Processo (que completa 100 anos em 2025) estão entre seus exercícios criativos de maior relevância. O que a cineasta tenta realizar, ao revisitar a escrita dele, é reproduzir a Europa que gerou um escritor daquela envergadura literária, contando com o talento do ator Idan Weiss no papel central.

Quando li os livros de Kafka entendi que língua devia falar”, respondeu Ida ao C7nema.É da natureza de Agnieszka promover a autopsia em corpo vivo do continente em que nasceu. Franz está mais sintonizado com o Presente do que com os anos 1910 e 1920.“Kafka entra e sai das sombras, a sua literatura entra e sai do radar, mas diante dos tempos sombrios que se anunciam, ele está mais atual do que nunca”, disse Agnieszka.

San Sebastián termina no dia 27 de setembro.

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