Memory: Vingança em forma de recordação… e poesia

(Fotos: Divulgação)

Definido oficialmente, desde a sua passagem pelas Giornate degli Autori de Veneza, como um documentário, Memory, de Vladlena Sandu, navega por águas fabulares na forma como revisita o sonho soviético de um mundo socialista, o pesadelo a que as repúblicas daquele território foram submetidas em tempos de totalitarismo e a presença de Vladimir Putin. Um dos últimos títulos exibidos na competição pela Estrela de Ouro de Marraquexe, a longa-metragem sobre a sociedade chechena encara-se como um tratado poético sobre os resíduos de um passado de utopias que se converteu num presente a cheirar a pólvora.

A realizadora Vladelna Sandu – Crédito: Rodrigo Fonseca

“Grozny, a cidade sobre a qual falamos, é um lugar para o qual não posso voltar, mas que carrega, para mim, um sentimento de lar. O seu povo é um símbolo de resistência, mas o seu espaço é um sintagma de medo. Muita gente acredita na propaganda russa. Muita gente não vê a zona de guerra em que estamos”, disse Vladlena ao C7nema, em Marrocos.

No filme, a realizadora fala de si e das suas vivências. Aos seis anos, Vladlena muda-se da Crimeia para Grozny após o divórcio dos pais, sem imaginar que a guerra consumiria a sua infância. Com o colapso da União Soviética, a República Chechena fragmenta-se. Amigos russófonos fogem, enquanto chechenos deportados regressam para reivindicar a sua terra natal. As tensões crescem até que o conflito armado irrompe. “O imperialismo nunca deixou aquela região”, lamenta a realizadora.

A violência continua a dominar a cidade que via como casa: vizinhos são assassinados, a sua família é atacada e Grozny transforma-se num campo de batalha. Após quatro anos de guerra, a mãe é gravemente ferida e um ataque armado obriga Vladlena a fugir, tornando-se uma pessoa deslocada na Rússia. Neste filme híbrido, autobiográfico e poético, de montagem inventiva e avesso à régia dos arquivos, a cineasta revisita as suas memórias traumáticas de infância para enfrentar uma questão perturbadora: como romper o ciclo de violência que marca as crianças e se transmite de geração em geração?

“Fizemos uma longa com pouquíssimo dinheiro para funcionar como um gesto de vingança, ainda que uma vingança pobre. A ideia é que pessoas do mundo inteiro percebam os traumas que fundam os seus terrenos de berço. Os nossos traumas são silenciosos. Tento dar voz a eles”, diz Vladlena.

Marraquexe termina esta noite, com a entrega de prémios e a projeção de Palestina 36.

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