Jan Ole Gerster marcou presença em Portugal a convite da Kino- Monstra de Cinema de Expressão Alemã
2012, prémios do cinema germânico: o cenário está montado e todos esperam que a mega produção das Wachowski e de Tom Tykwer, Cloud Atlas, fosse o grande vencedor dos Lola. Pela calada, um filme de baixo orçamento, assinado por um realizador em estreia, é o grande vencedor da noite, arrecadando 6 distinções: Melhor Filme, Realizador, Ator, Argumento, Ator Secundário e Banda Sonora.
O filme chamava-se Oh Boy, contava com Tom Schilling no protagonismo, e foi o vencedor sensação. Sete longos anos depois, o seu realizador, Jan Ole Gerster, finalmente regressa com um novo projeto: Lara. Nele, que abriu a 17ª edição da Kino-Monstra de Cinema de Expressão Alemã, seguimos o difícil relacionamento entre uma mãe (Corinna Harfouch) e um filho (Tom Schilling), ambos ligados ao mundo do música. Pese embora a matriarca tenha abdicado do sonho de ser pianista profissional, o filho prosseguiu, sempre “gentilmente disciplinado” pela mãe e em visível atrito.
Estivemos à conversa com o realizador, que nos explicou porque demorou tanto tempo a estrear a sua segunda longa-metragem, aquilo que o filme tem em comum com a sua vida, e os seus pensamentos para o futuro. Certo é apenas uma coisa: não queremos esperar mais 7 anos para um novo projeto de Jan Ole Gerster.
O Oh Boy foi um sucesso na Alemanha, arrecadando inúmeros prémios. Sentiu alguma pressão na preparação de um segundo filme depois desse sucesso? É que existem 7 anos entre os dois filmes…
Sim e não, quer dizer: não é que tenha ficado paralisado com o sucesso do Oh Boy, bem pelo contrário. Na verdade quis filmar algo imediatamente, mas como o John Lennon disse: a vida é o que acontece enquanto fazemos outros planos. Os anos foram passando… Eu estive ocupado com o Oh Boy durante dois anos e depois comecei a desenvolver um projeto – Imperium – que ainda estou a trabalhar. Na verdade, depois do Lara voltamos a pegar nesse projeto.
Foi em 2016 que conheci o argumentista Blaz Kutin. Ele é eslovaco, mas está em Berlim. Eu disse-lhe que o Imperium estava a demorar muito e não me via a filmá-lo no prazo de dois anos. Fizemos clique e começamos a trabalhar juntos em projetos que seriam fáceis de produzir, embora saibamos que este tipo de produções não existem (risos).
Discutimos ideias e ele estava sempre a falar de um guião que escreveu anos atrás.Num festival francês ele chegou mesmo a falar com a Jeanne Moreau sobre o guião e ela adorou. Claro que fiquei curioso e pedi-lhe para ler. Li-o, gostei do tom e senti nele algo muito familiar na protagonista, nas suas contradições, na forma como vive a vida. Todos os aspetos da história falaram comigo de uma certa maneira. Para além disso, gostava bastante da forma como o guião narrava os eventos em apenas um dia.
E sempre pensou na Corinna Harfouch para o papel?
Desde o início. Nessa altura ainda não a conhecia, mas ao ler o Lara pensei no seu trabalho no teatro. Ela é também uma grande atriz de teatro e desempenhou a mãe manipuladora na peça de Tchekhov, A Gaivota. Uma mãe que – tal como aqui – tortura o filho. Tinha um forte desejo de trabalhar com ela, pois fiquei encantado com a sua performance em palco. Por isso, quando li o guião do Lara, a Corinna veio-me à cabeça. Foi como se duas coisas ótimas se juntassem. Para além disso, este parecia ser um bom segundo filme para a minha carreira.
É muito importante o segundo projeto de um cineasta?
Bem, existe 50% de hipóteses de falhares (risos) . Há novas circunstâncias, novas expetativas, equipas e orçamentos maiores, etc. Mas senti que este filme era algo que conseguia fazer e queria a Corinna para isso.
E foi fácil convencê-la a participar no filme?
Na verdade, foi. Eu tinha medo que ela recusasse, pois teria de reconsiderar todo o projeto. Já que não conseguia imaginar outra pessoa naquele papel. Dei-lhe o guião e escrevi-lhe uma carta, coisa que raramente – especialmente nestes tempos – costumo fazer.
Depois encontramo-nos, almoçamos e tivemos reunidos cerca de cinco horas. Acho que também ficamos um pouco alcoolizados (risos), mas a partir desse momento ficou claro que ela iria trabalhar comigo. A partir daí, tudo aconteceu muito rápido, como o financiamento. Também tinha o Tom Schilling para o papel do filho, não porque ele é meu amigo, mas porque achava que ele era ideal para a personagem.
Ia perguntar-lhe isso, pois o Tom Schilling já surgia no seu primeiro filme…
Sim, somos bons amigos, já antes do Oh Boy éramos muito próximos. Mas era como se o papel tivesse sido escrito para ele. Ele é muito terra a terra, alguém que gosta de desafios, que não tem medo de pisar novo território. E gosta de música e é muito ambicioso.
Ele agora está muito ativo no cinema, foi difícil encaixar o projeto na agenda dele?
Sim, tem muitos projetos, mas é muito eclético. Ele atua, mas é capaz de parar três meses só para estar com a família. E ele é também um músico. Está prestes a lançar o seu segundo álbum…
Algo muito curioso nos seus dois filmes é a diferença no visual (um a preto e branco, o outro colorido friamente) e a presença da música (num temos Jazz, neste música clássica). Começando pela música, ela é algo que tem de estar muito presente nos seus filmes?
Bem, primeiro tenho de dizer que quase todos os realizadores que conheço têm uma “relação” com a música. É quase como se quisessem nalgum ponto da sua vida ter sido músicos. Eu também sou assim um bocado. Adoro música, mas ão é como se andasse à procura de música nos projetos. Aliás, não me importava nada se tivesse um filme sem qualquer tipo de música. Neste caso, no Lara, usa-se a clássica e desde o início da produção pretendia um ambiente de suspense onde a música jogaria um papel psicológico.
E quanto ao preto e branco (no Oh Boy) e no Lara com cores frias?
No Oh Boy, que já foi há tanto tempo (2012), tudo veio de forma intuitiva. O Oh Boy foi uma resposta desesperada aos meus anos na escola de cinema, em que o processo de escrita é ensinado com todas aquelas regras e princípios. Isso deixou-me um pouco inseguro na forma de escrever.
O Oh Boy foi para mim uma forma de me livrar de tudo isso, de trabalhar por intuição. E todas as outras decisões artísticas foram tomadas da mesma maneira. Na minha cabeça, o filme sempre foi a preto e branco, creio que vem da expressão que vem desses tons, como era a minha vida. Precisava disso e também de alguma distância e abstracção, o que acho que era importante. Foram decisões que corresponderam bem no Oh Boy, mas que para este Lara não equacionei. Nunca pensei o Lara como um filme a preto e branco. Procurei uma concepção visual que encaixasse no perfil psicológico da protagonista, na sua disciplina, solidão, frustração, e desapego com o mundo. Por isso optamos por um visual frio e firme. Estabelecer fronteiras e limites pode restringir-te criativamente.
Houve algum tipo de tentação de mostrar, por exemplo, em flashbacks a relação problemática entre mãe e filho enquanto ele crescia, ou isso estava afastado desde o início?
Bem, os flashbacks não têm entre os realizadores uma boa reputação. Embora tenhamos aqui um outro tipo de flashbacks, quando ela ensina o jovem, podemos imaginar como ela ensinava o filho ao ver esta cena. Essa foi uma forma encontrada de imaginarmos o passado deles.
Há uma cena curiosa, quando ela reencontra o seu antigo professor. Ele não se lembra dela, mas aos poucos vai recordando. Ela então diz-lhe que ele a tinha criticado em jovem, que lhe tinha dado a ideia que ela não tinha futuro nem força para prosseguir na música. Porém, ele menoriza essas palavras, dizendo que dizia isso a todos. Acha que existem palavras que destroem o sonho de muitas pessoas, as quais, por sua vez, dão demasiado valor a essas críticas e desistem?
Absolutamente. Eu conheço casos assim na escola de cinema. Jovens talentos que são tão inseguros e vulneráveis. Claro que também existem aqueles com um grande ego desde o início. Eu tendia mais para os alunos que têm sempre dúvidas, inseguranças, e que encaram cada frase negativa de um professor como algo pessoal.
Alguma vez teve um professor que lhe dissesse algo muito duro?
Sim, claro. Alguns motivaram-nos, mas tive um ou dois que teriam agradecido se eu tivesse optado por outro emprego. De certa maneira, eu mesmo identifiquei-me com o Lara. Foram tempos complicados, na escola de cinema. Não foi fácil. A certo ponto considerei mesmo não me tornar realizador. Aterrorizava-me a ideia de falhar, tinha medo da experiência no cinema vir a ser terrível.
Por isso, podemos dizer que há algo de si neste Lara?
Sem dúvida. Penso que se não fosse isso, eu não teria tido uma reacção tão impactante quando li o guião. Aproximei-me do projeto e tive uma reação muito emocional com ele, acreditei que de certa maneira ele ressoava em mim.
Na verdade, da primeira vez li-o como qualquer outro projeto, mas depois – como ser humano – liguei-me muito a ele. Estou perfeitamente convicto que há nele algo com o qual me identifico muito.
E o seu próximo filme é o Imperium? Sei que em 2015 esteve com ele no Torino Film Lab, mas ainda não o terminou…
Sim, estive lá. Fizemos o pitch do filme. Eu odeio o “pitching”, mas tivemos uma ótima reação. É um grande projeto, mas realmente muito difícil. Não apenas em termos de dramaturgia, mas logisticamente e financeiramente. [o filme inspira-se num livro de ficção que segue August Engelhardt, um alemão que no início do século XX fundou uma ordem religiosa na Papua Nova Guiné que se baseava no nudismo e numa dieta que consistia em alimentar-se de cocos].
Temos de o filmar no outro lado do mundo; o ator precisa de perder muito peso; há que fazer um casting longe daqui; e encontrar uma praia conveniente. Do ponto de vista de uma produção alemã, é realmente complicado.
Mas é uma história única (risos) e quero muito fazer este filme. Acho que no final deste ano saberemos se é ou não possível e se podemos passar para a fase do financiamento.
É difícil encontrar financiamento na Alemanha neste momento. Por exemplo, estas novas plataformas [Netflix, Amazon] tornaram isso mais fácil? E se lhe propusessem fazer esse filme numa delas, aceitaria?
O meu ramo é o cinema e quero para já continuar por aqui: a fazer filmes para o grande ecrã.
Na Alemanha, a Netflix começou a produzir filmes agora. Isso não acontecia há dois anos, pois apoiavam filmes americanos e, claro, séries. Agora as coisas estão a mudar, mas não existe realmente um verdadeiro lançamento nos cinemas. Enquanto eu puder trabalhar para cinema, vou fazê-lo, mas se propusessem alguma coisa, ia certamente ter isso em consideração, especialmente se fosse uma série.
Então admite, por exemplo, filmar uma série para essas plataformas? Algo com o Criminal: Alemanha, onde até participa a Nina Hoss?
Bem, como apontou no início, levei 7 anos do primeiro para o segundo filme (risos). Ás vezes certos projetos levam muito tempo. Pensando nisso, certamente consideraria fazer algo assim pelo meio. E até tenho um par de ideias que já discuti com produtores. Mas ao conceito de ser o criador, showrunner e realizador de algo, creio que é algo para ser trabalho para 3 anos. É como filmar três filmes… (suspiro).
Neste momento tenho o problema oposto ao que tinha quando acabei o Oh Boy: tenho vários projetos que quero filmar e tenho de estabelecer prioridades. Neste momento, acho que os dois projetos que tenho para cinema são essa prioridade.
Dois? Então, temos o Imperium e….?
Ainda é muito cedo para falar do outro…
Mas tem música (risos)?
(risos) Bem, isso posso dizer. Tem muita música má (risos)
Música má como? Eletrónica (risos)?
(risos) Eurodance e Schlager germânico (risos)

