Num local onde o quotidiano mais banal pode transformar-se numa odisseia absurda, Complaint No. 713317 parte da avaria de um frigorífico para expor – camada sob camada – as engrenagens da burocracia egípcia. Yasser Shafie, realizador em estreia nas longas-metragens – pega num episódio doméstico e transforma-o numa comédia negra que acompanha Magdy e Sama, casados há trinta e sete anos, que são arrastados para um processo absurdo que dura meses. O pedido de reparação do velho frigorífico, que deveria ser uma formalidade, converte-se num pesadelo, revelando as falhas profundas do sistema e, em paralelo, as tensões silenciosas dentro do próprio lar.

A origem do filme é totalmente autobiográfica. “Sim, é uma história verdadeira, acontecimentos que me aconteceram.” disse Shafie ao C7nema no Festival do Cairo, onde o filme foi apresentado em estreia mundial na secção Horizontes do Mundo Árabe. “O Magdy do filme, sou eu na vida real. O técnico que me atendeu inspirou a personagem do reparador. Às vezes escrevi exatamente os mesmos diálogos que aconteceram comigo.” O frigorífico avariado, levado e trazido, voltando sempre com um novo problema, é mais do que um pretexto narrativo; é a metáfora de um país onde até o ato de fazer uma reclamação se torna uma luta pela dignidade. “Podemos falar numa espécie de corrupção, mas também de um sistema labiríntico que impede a verdadeira resolução do problema”.
O próprio título nasceu da luta pessoal do cineasta com uma queixa por resolver que tinha o número “71”, algo que decidiu ampliar simbolicamente para “713317” para refletir a repetição, a estagnação e a circularidade que caracterizam a experiência kafkiana que viveu.
O cinema egípcio está habituado à comédia verbal, mas Shafie quis romper com essa tradição. “Aqui no Egito usam muito a comédia através das palavras, não da situação em que colocas as personagens.” No entanto, o público local riu ainda mais do que o público internacional. “O público riu em algumas cenas que, para mim, são dramáticas. Mas isso acontece sempre nos festivais.”
A relação entre Magdy e Sama dá ao filme um núcleo emocional reconfortante. Num contexto de elevada inflação e perda de estatuto social, o amor manifesta-se na persistência, na teimosia, no apoio silencioso, mas também am algumas discussões que revelam uma masculinidade antiquada que tem de ser abandonada. “Ao lado das nossas lutas, há o amor. Somos humanos.” explica Shafie. “Esta é a vida real no Egito.” Por isso mesmo ele escolheu protagonistas mais velhos: “Senti que era mais poderoso, pois são pessoas mais frágeis e não conseguem fazer grandes ações por causa da idade.” Essa fragilidade expõe as falhas do país — mas também as do casal, onde algumas omissões do marido perante a mulher escondem vulnerabilidades patriarcais.

Por outro lado, a economia é parte fundamental do enredo, porque faz parte da vida. “Eles são classe média, mas não por muito tempo. Agora começam a descer e lutam para manter o mesmo nível… Tudo está mais caro.” O frigorífico torna-se um símbolo dessa erosão silenciosa. “O filme não é sobre o dinheiro que custa um frigorífico,” explica Shafie, acrescentando que a sua personagem exige os seus direitos pela primeira vez. “Acho que esta personagem nunca teve direitos em nada no Egito.”
O realizador, que durante anos trabalhou como diretor de casting, aprecia graciosamente subverter a imagem dos atores. “Adoro descobrir e mudar os atores… descobrir outro ângulo deles.” Por isso mesmo, o protagonista, interpretado por Mahmoud Hemida, é mais conhecido por papéis dramáticos, mas revela aqui uma dimensão cómica subtil. Já Sama é interpretada por uma atriz muito querida no país, enquanto nos papéis secundários brilha a dona da loja de reparações que faz questão de apaziguar os ânimos entre o idoso, que apenas quer o seu frigorífico arranjado, e o técnico designado para isso. No momento em que essa atriz, Inam Salousa, surge em cena, a sala principal do Festival do Cairo explodiu em aplausos. “O público não imaginava que ela apareceria no filme. Foi uma surpresa, pois é alguém muito estimado que deixou de atuar”.
Com Complaint No. 713317, Yasser Shafie transforma o ridículo em crítica social e política, nunca esquecendo o lado humano e pessoal do casal. O riso surge facilmente, mas arrasta sempre um sabor amargo — como se cada gargalhada lembrasse que, tal como o frigorífico, também o sistema está sempre à beira de falhae. E cada vez que alguém chega para o consertar, as coisas podem piorar.

