Regresso de Lucrecia Martel às longas-metragens esgota sessões

(Fotos: Divulgação)

Espera-se que Lucrecia Martel apareça de surpresa em San Sebastián esta segunda-feira, para observar a reação do público espanhol a Nuestra Tierra (2025), a sua primeira longa-metragem após um hiato de cerca de sete anos, iniciado depois do lançamento de Zama (2017). Impulsionado por um prémio de estímulo à escrita dramatúrgica recebido em Locarno, em 2020 — numa competição apenas de argumentos — este novo filme da realizadora argentina, natural de Salta, passou antes por Veneza, fora de concurso. A ambição inicial era ser um documentário sobre o assassinato do líder indígena Javier Chocobar, vítima de disputas fundiárias no país, morto sob o mando de senhores de terras. A engenharia sonora das narrativas fílmicas, sempre tratada com requinte pela cineasta, tanto nas ficções como nos projetos experimentais, voltou a destacar-se, cativando o Lido com a investigação da morte de Chocobar.

Esse cuidado na construção sonora já se notava no trabalho anterior de Lucrecia, o experimento Cornucopia (2023), rodado a quatro mãos com a realizadora islandesa Ísold Uggadóttir, a partir de um espetáculo de Björk. Antes disso, o seu projeto de maior relevo tinha sido a curta A Camareira (2022), exibida na Mostra de São Paulo e elogiada pela fusão de elementos fantásticos com debates marxistas.

Quando eu era mais jovem, falava em classes sociais e nas suas diferenças, mas percebi que, hoje, o conceito político mais adequado para pensar a divisão da sociedade latino-americana seria o de ‘casta’, devido ao processo de concentração de riqueza que o capitalismo gera e à separação que cria entre pessoas que não se enquadram em determinadas faixas de rendimento”, declarou Lucrecia ao C7nema, aquando do lançamento de Zama em Espanha (filme produzido por Vânia Catani, da Bananeira Filmes, e pela El Deseo, dos irmãos Almodóvar).

Presidente do júri de Veneza em 2019, ano em que Joker (2019) venceu o Leão de Ouro, Martel é reconhecida pelas suas reflexões feministas e pela visão política contestatária que aplica ao seu continente. Esses traços percorrem a sua curta seminal Terminal Norte (2021), apresentada na Berlinale e hoje disponível na MUBI. Em Portugal, a sua filmografia está acessível no Filmin.pt, onde se encontram O Pântano (2001), A Rapariga Santa (2004, candidato à Palma de Ouro, centrado no amadurecimento de uma adolescente em confronto com o desejo), e A Mulher Sem Cabeça (2008), igualmente revelado na Croisette.

O prestígio de Martel começou com O Pântano (2001), distinguido na Berlinale desse ano com o então existente Prémio Alfred Bauer, dedicado à inovação de linguagem. Nesse filme, as vidas de duas famílias — uma de classe média urbana, outra de produtores rurais decadentes — entrelaçam-se no estupor provincial de uma Salta caótica e imutável, onde nada acontece mas tudo parece prestes a explodir, como a própria charneca que dá título à obra. O elenco conta com as interpretações marcantes de Mercedes Morán e Graciela Borges.

San Sebastián vive agora a expetativa da estreia de Nuestra Tierra, com sessões já esgotadas. O festival decorre até 27 de setembro.

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