Em 50 anos de carreira, o manchego Pedro Almodóvar esteve várias vezes em San Sebastián – o maior festival da sua pátria e um dos mais respeitados do mundo – em diferentes ecrãs e lá procurou, num par de ocasiões o Grande Prémio Fipresci, dado “Volver” (2006) e “Todo sobre mi madre“, em 1999. Nunca lhe deram uma Concha de Ouro, mas, a edição 72 da maratona basca presenteou o realizador com uma honraria ainda maior: o prémio Donostia. Hayao Miyazaki, Victor Erice e David Cronenberg estão no rol de cineastas que receberam essa láurea em festivais passados.
A homenagem que ganha em 2024 coincide com o facto de seu trabalho mais recente, “The Room Next Door“, ter recebido o Leão de Ouro há cerca de 20 dias, em Veneza. “A natureza de um filme é a incerteza. Fazer um novo filme é um safári, no qual é impossível prever os perigos. A vida é movimento e, numa evolução biológica, as mudanças acontecem comigo. Não é da minha natureza a contenção, mas desde ‘Julieta’, é nesse caminho que estou, ciente de que é uma depuração. Fiz agora um filme sobre uma mulher que agoniza num mundo que agoniza“, respondeu Almodóvar ao C7nema, na conferência de imprensa do festival. “O prémio coincidiu com o meu aniversário (no dia 25, ele celebrou 75 anos), o que torna mais difícil segurar a emoção“.

Há 44 anos, o realizador esteve no evento pela primeira vez, com “Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas Del Montón“. “Era um filme defeituoso, mas os defeitos transformaram-se em estilo“, disse o artesão ibérico, com orgulho da carreira. “Se não conseguir fazer filmes serei a pessoa mais desgraçada do universo“.
Almodóvar foi a terceira celebridade a ganhar o Prémio Donostia este ano. Os dois outros ficaram com Javier Bardem e a Cate Blanchett (que citou a escritora brasileira Clarice Lispector ao ser premiada). Na sua visita a San Sebastián, Almodóvar promoveu sessões (sempre cheias) de “The Room Next Door”, que é a sua primeiro longa-metragem em língua inglesa. Um (melo)drama onde conta com os talentos de Tilda Swinton e Julianne Moore. “O Pedro tem um espírito jovem” disse Tilda aos jornalistas. O seu desempenho é devastador em “The Room Next Door“, uma narrativa sobre amigas que se reencontram num cenário de eutanásia. A trama fala da escritora Ingrid (Julianne) e da correspondente de guerra Marta (Tilda), que eram íntimas durante a juventude. Trabalharam juntas na mesma revista, mas Ingrid tornou-se uma romancista de autoficção, enquanto Marta ganhou reputação como repórter. Separadas pelas circunstâncias da vida, mas reencontradas anos depois, perante uma situação extrema: A Martha tem cancro. Ao saber que não poderá ser salva pela quimioterapia, ela opta pela eutanásia. “Se o indivíduo é dono da sua vida, deve também ser o dono da morte“, diz Almodóvar, ao explicar que a sua nova película é uma história “de braços abertos“. “Falo de empatia, mas não sei tratar de famílias felizes, sem problemas. No atual contexto do mundo, pergunto-me se a ultradireita e o liberalismo pensam nos seus filhos e netos.
Já se fala em Oscars para Almodóvar e para as suas estrelas. “É o meu primeiro filme em inglês, mas o espírito é espanhol”, disse Almodóvar, clamando pelo direito à liberdade em relação à escolha de pessoas que optam pela morte assistida. “Não haveria o que explorar se falasse de duas mulheres que se encontram para tomar um café e, sim, num momento extremo no qual uma delas se autocondena. Há um movimento em que as duas personagens se convertem uma na outra. Há que se celebrar a sua amizade“.
San Sebastián chega ao fim neste sábado, com entrega de prémios pelo júri presidido por Jaione Camborda.

