MIGRAR: deixar um lugar ou país para viver em outro, por razões e temporalidades diversas.

EXÍLIO: expatriação forçada (ou por livre escolha); degredo.

Adiante retomo este assunto.

A partilha do território da Palestina foi oficializada em 1947 pela Organização das Nações Unidas (ONU), um ano depois, deu-se a criação do Estado de Israel, que aconteceu pelo interesse e presença imperialista colonial britânica. Pela divisão, a maior parcela de terras ficou com os judeus (Israel), divisão que não foi aceite pelos povos árabes, a quem foi atribuído cerca de 45% das terras. Dois estados, a viverem juntos num território pequeno, medindo apenas 80 quilômetros de largura, do Mar Mediterrâneo até o Rio Jordão. O território ocupado e o poder de Israel continuou se expandindo, enquanto a potência e área destinada aos palestinianos vêm se reduzindo. Pode-se dizer que a Palestina não existe, já que não é um Estado independente, ainda não é reconhecido por todos os 193 países membros da Organização das Nações Unidas-ONU. Contudo, o povo palestiniano segue a resistir e a lutar pelo reconhecimento do seu Estado e por mais autonomia política.

Os conflitos no médio-oriente, entre Israel e os palestinos, existem desde 1947, ou melhor, podem remontar a 1917 quando o governo britânico apoiou a construção de uma pátria para os judeus – a «Terra Santa ou Terra Prometida«, no território da Palestina. A história é muito mais longa e complexa do que isto. 

Uma consequência da divisão do território árabe da Palestina com Israel, foi a Guerra Árabe-Israelita de 1948, que resultou na morte de milhares de pessoas e a saída forçada de cerca 700 mil palestinos, incluindo os ancestrais de Lina Soualem, que tiveram de se separar, foram obrigados a migrar, a refugiar-se, a viver em exílio em algum país vizinho ou continente distante, deixando para trás o que tinham.

Lina Soualem é uma realizadora franco-palestiniana que fez o filme “Bye, Bye Tiberias”, em 2023  (a sua segunda longa-metragem documental a primeira foi “Leur Algérie”, 2020) para retratar o pessoal e o coletivo, uma realidade familiar e do seu lugar de origem, a Palestina. Uma história também de migração e exílio, de perdas e traumas.

Diga-se de passagem, Tiberias, cidade que dá título ao filme, é o nome da capital da Galileia, criada no início do período romano em homenagem ao imperador Tibério, lugar onde viveram os antepassados de Lina.

São com imagens de arquivo dos anos 1990, do passado da sua família na Palestina que a realizadora inicia o filme. 
Uma memória que ela vai conectando com imagens filmadas no tempo presente.

Ela igualmente vai resgatar imagens doq ue os seus familiares vivenciaram durante os anos de 1948 na Palestina e no exílio em países árabes vizinhos. 

Somada às imagens do tempo que a sua mãe, Hiam Abbass, migrou da sua terra para a Paris, França, com o sonho de tornar-se atriz, e, sobretudo, para escapar de uma realidade demasiado dura para carregar no corpo, deixando para trás a sua mãe, pai, avó e sete irmãs.

Trinta anos depois, Hiam Abbas e a sua filha, que tornou-se cineasta, regressa com a mãe para verem de outro modo o universo familiar e do país, visitando lugares dos quais se distanciaram fisicamente. Recuperando assim,  as memórias de quatro gerações de corajosas mulheres e um legado comum de separação, libertam-se de alguns traumas reconectando-se com a sua origem e afetos que resistem; como declara nesta entrevista concedida na época do lançamento do filme “Bye, Bye Tiberias”, em Marrocos. 

Hiam Abbass, conseguiu tornar-se atriz profissional e protagoniza a narrativa fílmica construída juntamente com Lina.
A realizadora pouco aparece no filme, mas narra na primeira e na terceira pessoa os factos vividos pela família. 

Vamos ver na tela imagens fotográficas e em movimento e as vozes dos seus entes queridos que resistem e os vestígios de um lugar em vias de desaparecimento, a terra Palestina. 

Enquanto Lina filmava as imagens do tempo presente nas suas estadias neste lugar, podíamos ouvir ao fundo os ruídos de aviões que circulam incessantemente o céu que ninguém protege, na terra proibida e nos outros países árabes fronteiriços : Líbano, Síria e Jordânia. 

Segundo a mãe de Lina, os parentes que foram viver nesses países estão até hoje impedidos por Israel de visitarem os que ainda vivem na Palestina, impondo uma fronteira entre eles. 

Lina critica permanentemente o mal que Israel causa à Palestina, mas evita mostrar imagens do território ocupado pelo opressor, não lhe dando a voz. Tampouco há outras vozes no filme, que não sejam aquelas da sua família. Não há outros pontos de vista, ainda que dissonantes, sobre o que relatam ou viveram. 

Numa das falas da realizadora, ela declara que nasceu da fractura entre dois mundos e que o filme a reconectou com a sua cultura e a sua terra originária. “Bye, Bye Tiberias”, apesar de ser um retrato dos acontecimentos familiares de Lina, retrata também o seu país, e é uma forma de ativismo audiovisual e político em defesa do povo e território palestiniano. 

Lina quando criança, com sua mãe e avó materna.

O filme é documentado com diferentes camadas de imagens, recordações e histórias íntimas que se entrecruzam. Senti a falta de ver mais imagens da realidade social hoje na Palestina.

A montagem é bastante singular, assim como os enquadramentos que parecem ser compostos diante de nossos olhos, plano a plano. 

Outros pontos fortes do filme, são as personagens e a história em si. 

Já o som e a fotografia do filme tiveram pouca atenção da cineasta. 

Há quatro anos escrevo, de forma regular, críticas de filmes realizados por mulheres cineastas de vários países do mundo, em geral, países mais periféricos dentro da indústria do cinema, e sobre as primeiras longas-metragens das realizadoras, sejam ficcionais ou documentários.

Tenho observado que cerca de 70% das cineastas têm abordado nos seus filmes temáticas mais pessoais e familiares, e pouco sobre questões coletivas e sociais mais amplas. 

No caso da jovem realizadora Lina Soualem, existe uma diferença: o seu filme entrecruza questões intimistas/do âmbito familiar e também coletivas relativas ao seu país originário, e que urgem serem discutidas dentro e fora do ecrã.          

Além disso, o filme dá voz a uma geração de mulheres que ousaram romper tradições e não temeram obstáculos, a exemplo de Hiam Abbass, que foi em busca de realizar os seus sonhos fora da Palestina. Mulheres que podem inspirar novas gerações a seguir suas jornadas com coragem e determinação.

No final da exibição do filme no LAAF-Lisbon Arab Film Festival (neste mês de outubro), que aconteceu na Culturgest com o auditório cheio e com uma enorme presença de pessoas árabes, houve uma conversa com Dima Mohammed, investigadora palestiniana que reside em Lisboa.

Ela relatou que, para as pessoas da Palestina, pensar no pessoal está sempre ligado ao coletivo, à história e trágica memória do seu país, que a realizadora Lina registou no seu filme. E igualmente declara que o temor dos palestinianos é ver o seu país desaparecer, embora continuem a resistir a toda opressão. Dima conclui, dizendo que Israel quer eliminar a Palestina do mundo árabe.

Bye, Bye Tiberias, 2023, tem a duração de 80 min, foi escrito por Lina Soualem e Nadine Naous, em colaboração com Gladys Joujou.  Vale a pena ser visto! Fiquem de olho em algum festival de cinema e nas plataformas de streaming.

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Pontuação Geral
Lídia Ars Mello
bye-bye-tiberias-uma-historia-pessoal-e-sobre-a-palestinaO filme dá voz a uma geração de mulheres que ousaram romper tradições e não temeram obstáculos, a exemplo de Hiam Abbass, que foi em busca de realizar os seus sonhos fora da Palestina. Mulheres que podem inspirar novas gerações a seguir suas jornadas com coragem e determinação.