Mahamat-Saleh Haroun disseca a simbologia do sangue em Soumsoum

(Fotos: Divulgação)

Sempre que é apresentado como “cineasta africano”, o realizador chadiano Mahamat-Saleh Haroun rejeita o rótulo. Considera-o redutor. Sabe que o Chade não se resume a uma ideia homogénea de “cinema africano” e que as representações do seu país diferem das tradições e renovações culturais de outras geografias do continente.

Com uma obra marcadamente autoral, Haroun regressa à Competição da Berlinale com Soumsoum, La Nuit des Astres, um híbrido de drama, aventura e fantasia na corrida ao Urso de Ouro. O filme acompanha Kellou (Maïmouna Miawama), jovem órfã de mãe — morta no parto — que vive sob a sombra de uma culpa ancestral e da superproteção do pai. Dotada de mediunidade, enfrenta a hostilidade de uma comunidade intolerante.

O sangue é metáfora de morte em muitas culturas. No Chade, está ligado à vingança. O pai lamenta a perda da esposa no nascimento de Kellou. A ideia de uma maldição de sangue nasce daí”, explicou ao C7 o realizador de Abouna (2002), Un Homme Qui Crie (Prémio do Júri em Cannes, 2010) e Hissein Habré, Une Tragédie Tchadienne (2016). “As guerras de sangue vêm de uma necessidade cultural de fazer justiça aos mortos.”

O termo “Soumsoum” designa um ritual metafísico de reconciliação entre vivos e mortos. A missão de Kellou será integrar-se nesse ritual para fazer justiça à memória de mulheres acusadas de bruxaria. “O patriarcado está sempre presente”, afirmou Haroun na conferência de imprensa. “Interessa-me essa fronteira entre o visível e o invisível. Pessoas comuns, no meio das suas agruras, que tentam seguir em frente.”

Ao diretor de fotografia, Mathieu Giombini, deixou uma instrução clara: evitar qualquer exotização da paisagem. “Não quero postais. Quero que a natureza fale por si.”

Numa conversa via Zoom a partir de Paris, Haroun recordou a chegada a França nos anos 1980, fugindo à guerra. “Encontrei acolhimento. Mas conheci histórias duríssimas de compatriotas que tentaram tudo para serem ouvidos. É preciso pensar na dor dos que partem — e na dos que ficam.

A Berlinale termina domingo; os prémios são anunciados sábado.

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