Nas “Regras da Sensatez” de Rui Veloso, dizia-se: “Nunca voltes ao lugar onde já foste feliz / Por muito que o coração diga, não faças o que ele diz”. Vinte e seis anos depois dessas palavras serem proferidas pela primeira vez, a cineasta portuguesa Cláudia Varejão não fez caso dela e voltou à “casa” onde já foi feliz: a Giornate degli Autori, no Festival de Veneza, de onde saiu em 2022 com o principal prémio por “Lobo e Cão”.
Desta vez a portuense não se apresentou com uma longa metragem, mas com uma curta, “Kora”, que apesar da sua menor duração mostra todo o poder de uma autora cujo olhar preciso se conecta sempre a histórias, gestos e olhares que refletem personagens envolvidos num turbilhão emocional. Neste caso específico, são mulheres refugiadas a viver em Portugal o foco da lente e do microfone de Cláudia, que como também é apanágio, narra histórias individuais que, coletivamente, se tornam universais. Inna da Ucrânia, Norina do Afeganistão, Zohra do Sudão, Margarita da Rússia e Lana da Síria “trazem o passado no corpo e nas palavras”, e a cineasta recorre aos seus relatos, fotografias e outras “alquimias” cinematográficas para mostrar que estas “pertencem a um lugar de encontro entre toda a humanidade”.
Filmado num preto e branco delicado e munindo-se de uma banda-sonora original composta e interpretada pela pianista Joana Gama, Cláudia junta um coro de vozes e gestos de mulheres num filme onde “os retratos não têm tempo, nem nacionalidade. Não são retratos de morte, nem de vida. São presença e ausência. Olham-nos e são olhados“.
“Kora” teve a sua estreia mundial hoje no Festival de Veneza, numa sessão especial da Giornate degli Autori.A banda sonora original do filme será lançada à meia noite do dia 30 de Agosto nas principais plataformas de música.

