O que fariam se tivessem apenas alguns meses de vida? Como seria a vossa reacção e como iriam viver esses últimos dias? Esta é a questão essencial de “O Melhor Ainda Está Para Vir”, comédia dramática que junta em palco dois dos maiores nomes do cinema gaulês: Fabrice Luchini e Patrick Bruel.
A dupla consagrada esteve sob a direcção de dois argumentistas e realizadores de sucessos do cinema francês, Alexandre de La Patellière e Matthieu Delaporte, autores do argumento dos filmes da franquia “Tal Pai, Tal Mãe”, que até virou série de TV, e do absolutamente hilariante “O Nome da Discórdia” (2012), no qual um homem – durante um jantar – afirma que quer chamar o filho de Adolfo, o que vai causar indignação nos presentes que associam o nome imediatamente a Hitler.
Foi em Paris, em janeiro, que nos encontramos com Alexandre de La Patellière e Matthieu Delaporte e falámos acerca desta produção que promete aquecer o coração dos portugueses neste outono pandémico.
Podemos começar por falar do Fabrice Luchini. Tenho falado com muitos realizadores e todos eles me disseram que o Fabrice lhes telefona muitas vezes para simplesmente ler as falas do filme (risos). Quantas vezes vos ligou? (risos)
Alexandre: Muitas (risos).
Matthieu: Foi uma experiência muito marcante. Já trabalhamos com muitos atores e muitos deles não trabalham assim. Muitos chegam cheios de confiança ao palco, estudam de manhã o texto e deixam tudo entregue ao humor e ao instante. Nós também temos experiência no teatro, e estamos habituados a repetir as cenas. Por isso, pensávamos que éramos uns fanáticos do texto, pelo menos até encontrar o Fabrice (risos). Ele é muito mais estudioso e forte que nós (risos). É verdade que durante muitos meses, antes do início das filmagens, o Fabrice leu todo o guião, marcou e estudou todos os papéis: os homens, as mulheres, os cães. Tudo. O Fabrice telefonava, nem dizia bom dia ou adeus, e lançava-se logo para falar de 15 -20 páginas do guião, e questionava sempre se devia dizer uma palavra ou outra. (risos)
Tínhamos estas conversas de forma quotidiana (…) Nós não queríamos dois atores que trabalhassem da mesma forma. O Fabrice tem um método de trabalho muito longo, como um músico. Ao inverso, queríamos que o Patrick Bruel tivesse um método de chegar ao palco com a inocência da personagem, sem estar preparado dessa forma. Esse choque entre os atores, que aconteceu e foi formidável, faz lembrar as suas personagens, o César e o Arthur. O Arthur trabalha muito, e o Cesar nem por isso. E assim a química entre eles foi bastante maior.
Foi exatamente assim que o Nicola Pariser me descreveu a sua colaboração com o Fabrice Luchini no “Alice e o Presidente”. Enquanto a Anaïs Demoustier era totalmente intuição, o Fabrice era o homem do ler, do estudar e estudar o texto.
Matthieu: Sim, ele trabalha como um músico. Ele não trabalha o porquê, ele foca-se “na música”. Não entra na psicologia, na “música das palavras”.
E quando escreveram o guião, tinham o Fabrice na cabeça?
Matthieu: Não. Escrevemos as personagens e assim ficamos livres para escolher os atores. Se tu pensas muito num ator é complicado. Eu penso no Cesar e no Arthur. Se pensasse no Fabrice e no Patrick, não conseguiria pensar se um outro faria isto ou aquilo na vida, pois não os conhecemos. Mesmo que a personagem do Arthur seja um ator a fazer de ator. O que é curioso é que as pessoas pensam que escrevemos o texto para o Fabrice e para o Patrick, mas não, embora vejamos isso como um elogio ao trabalho dos atores.
Mas eles são um pouco assim, não? O Fabrice é muito metódico…
Sim. Como dizemos muitas vezes, o Fabrice é um homem da “interioridade”. Quando dá entrevistas, dispara as respostas, mas no dia a dia é um artesão, um homem que nas filmagens trabalha muito e é extremamente preciso.
O Patrick é um grande profissional, mas cujo método é 100% baseado na presença. Quando os dois atuaram, o Fabrice, por exemplo, gostava de começar as cenas, de entregar as primeiras falas. Por sua vez, o Patrick adora recebê-las e ripostar.
E como foi trabalhar com os dois no set?
Alexandre: Foi interessante. Na verdade, o Fabrice e o Patrick trabalharam juntos num filme há cerca de 30 anos, chamado “P.R.O.F.S”., onde eram dois professores jovens. De certa maneira foi esse filme que lançou as suas carreiras, pois eram completamente desconhecidos na época.
Eles reencontraram-se, agraciaram-se e não houve vedetismos. A sorte que tivemos foi que eles se reencontraram mais de 30 anos depois nas nossas filmagens, com todas essas recordações do passado. E isso é algo que vai também em linha com o que vemos no nosso filme: dois velhos amigos que se reencontram.
Matthieu: Aproveitamos isso e foi muito fácil filmar com eles. Havia um sentimento de benevolência. Nós trabalhamos com muitas estrelas, e diz-se frequentemente que é muito difícil trabalhar com elas. Mas muitas vezes esses atores são estrelas porque realmente são muito bons.
Algo duro para um realizador é quando trabalhas com maus atores, não quando trabalhas com uma estrela. Gostamos de trabalhar de uma forma doce e tentamos transportar isso para o set. Neste filme em particular há uma ambiência muito trabalhosa, mas uma enorme candura. E precisamos disso porque era o que contávamos no filme.
E como surgiu a ideia para este filme?
Alexandre: Foi uma história que veio em dois tempos. Há uns anos fizemos um filme que se chamava “Le Prénom” (O Nome da Discórdia), que foi uma extraordinária obra em termos de trabalho e sucesso. No meio dessa alegria e sucesso surgiu a doença da Valérie Benguigui, a atriz principal do filme [que faleceu em 2013]. Saímos desta experiência tristes e interroguei-me com o Matthieu sobre o tempo que nos resta, uma questão que achávamos essencial. Trabalhamos sobre isso, pesquisamos uma forma, um ângulo cómico para abordar isso e cheguei até um livro chamado “A Cura de Schopenhauer” que ofereci ao Matthieu:
Matthieu: Nós queríamos algo de humor, que as pessoas não tivessem medo da morte, procurando assim uma boa maneira de abordar isso. E o Alexandre disse-me que tinha lido um livro há uns tempos – “A Cura de Schopenhauer” – que é a história de um médico que descobre que vai morrer e coloca essa questão: “o que é que vou fazer” (no tempo que resta).
Li o livro e nele o autor faz uma descrição muito precisa do cancro de pele, que é o que afecta a personagem. Eu tinha um melanoma e fui operado. Nesse momento foi preciso esperar um mês para saber se estava curado ou se o cancro se tinha espalhado pelo corpo. Neste caso, terminou ali. Durante um mês não sabia se ia viver seis meses ou muito mais. É uma sensação estranha e neste momento não quis dizer à minha mulher, aos meus filhos e à minha família. Achava que se não fosse grave, sim, contaria de imediato, mas se fosse [grave] diria, mas sem pressas. Durante esse tempo a única pessoa com quem falei foi com o Alexandre e naquele momento coloquei inúmeras questões. Porque são as coisas assim? Que vais fazer? Nesse momento muito peculiar da vida nasceu a ideia de um filme.
Depois dos sucessos do “Nome da Discódia” e da franquia “Tal Pai, Tal Mãe” sentem uma pressão extra em ter um novo sucesso nos filmes que seguem?
Alexandre: Esses sucessos dão confiança, são os fracassos que trazem a pressão. Fizemos dois filmes em dez anos como realizador e a pressão era apenas de fazer o filme e o partilhar com as pessoas ao máximo. O sucesso deu-nos liberdade e a pressão vem no contar uma nova história como a imaginamos. No essencial os sucessos trouxeram confiança e não pressão.
Vocês trabalham em inúmeros guiões, não apenas para filmes que realizam, mas também para outros cineastas. Consideram-se mais argumentistas ou realizadores?
Alexandre: Acho que se fosse para uma ilha deserta, ia mais depressa com uma folha e uma caneta que com uma câmara de filmar. Para mim, o primeiro ato de libertação é a escrita. Não consigo viver sem escrever
E quando escrevem um guião em conjunto, lutam muito pelas vossas ideias?
Alexandre: Sim, exatamente assim. (risos)
Matthieu: A vantagem de criar a dois é que não precisas terminar as frases. Um começa a frase e o outro termina.
Há pouco falaram em maus atores. Já trabalharam com muitos? (risos)
Matthieu: Durante a nossa vida? Claro que sim (risos)..
E como lidam com isso?
Matthieu: É difícil, mas frequentemente quando uma coisa não funciona entre um ator que é bastante mau e um realizador, muitas vezes, coloca-se em questão a cena, dela poder não estar bem escrita. A magia entre um ator e um realizador está neste último fazer compreender “a música” que tens na cabeça, preservando a liberdade dos atores. Já trabalhamos com grandes atores e grandes atrizes que, não só compreendem a “música” que está na tua cabeça, como ainda a tocam melhor que tu. É algo verdadeiramente mágico. Para além disso, uma coisa que podes fazer no cinema, mas não podes fazer no teatro, é poderes trinchar coisas através da montagem. mas é uma grande frustração quando não “chegas” ao ator.
Alexandre: O que é complicado com os atores é quando não falas a mesma “linguagem” que eles. Por exemplo, há atores que adoram a atenção e também existem realizadores que centram as atenções nas filmagens, devido à pressão no ato de criar. Nós gostamos de sentir uma comunhão nos sets. Se um ator não atinge isso, ou não gosta disso, de repetir e repetir cenas, e simultaneamente pesquisar como melhorar, então é muito complicado.
Matthieu: Acima de tudo somos autores, interessamo-nos pelo texto, por isso em 99% dos casos temos um bom registo com os atores. Interessarmo-nos – no texto – pelas mesmas coisas que os atores é o essencial para esta carreira
E há espaço para os atores mexerem no texto ou não?
Matthieu: Sou o “Boss” [patrão] (risos).
Alexandre: Somos muito precisos no texto, mas simultaneamente tentamos empurrá-los para que mergulhem nele (…)
Matthieu: É como dissemos há bocado, usando o exemplo da música. Temos grandes músicos, intérpretes e grandes maestros que vão tocar exatamente a mesma partição, as mesmas notas, todas as indicações do ritmo, mas isso não implica que cada um não entregue um resultado diferente. A partir do texto procuramos a magia dos sets, até nos surpreendemos com os acidentes, não para atingir um realismo, mas conseguir a verdade.
E mudam frequentemente o texto durante as filmagens?
Matthieu: Sim, quando ouves uma “nota musical” que te soa mal, mudas.
O guião é assim um organismo sempre em mudança?
Matthieu & Alexandre Sim, sem dúvida.
Vocês têm um novo projeto, como argumentistas, o “Envole-moi“. Podem falar dele?
Matthieu: Sim, vai ser filmado no mês que vem [fevereiro] pelo Christophe Barratier, que fez “Os Coristas”. É a adaptação de um livro que anteriormente já fora adaptado na Alemanha. É o projeto que nos tocou muito e em que estamos como argumentistas. Temos também um projeto no teatro e vamos trabalhar num novo filme logo a seguir.

