Manoel de Oliveira: 102 anos de milagres e feitiçaria

(Fotos: Divulgação)

“O cinema é, como por milagre, um acto de feitiçaria”.

Manoel de Oliveira

Manoel de Oliveira, o mais consagrado realizador português, tem já assegurado o seu lugar na História do cinema português e mundial. E, mesmo aos 102 anos de idade, continua a fazer o que mais gosta, escrever e dirigir cinema. O c7nema decidiu comemorar as 102 primaveras de uma referência mundial e um símbolo, quer se goste ou não, do cinema português.

Os Primórdios

Nascido no Porto a 11 de Dezembro de 1908, Manoel parecia destinado a seguir carreira na gestão das empresas familiares. Mas outros gostos e planos povoam os sonhos do jovem Oliveira. A paixão pelo cinema chega cedo, e por influência paterna que o leva frequentemente a assistir a filmes.
 

Estuda no Porto e completa a sua formação num colégio Jesuíta da Galiza, em La Guardia. Enquanto jovem destaca-se igualmente pelas suas capacidades como atleta em diversas modalidades como ginástica, natação e atletismo.

Ao 20 anos inscreve-se com o irmão na Escola de Actores de Cinema, e tem desde logo o seu primeiro contacto com o interior da Sétima Arte, ao ser escolhido como figurante no filme Fátima Milagrosa de 1928.
Por esta altura, adquire a sua primeira câmara e começa a recolher imagens da cidade do Porto, que viriam a tornar-se o seu primeiro filme. Apresenta a curta-metragem documental “Douro, Faina Fluvial”, ainda em versão muda, num Congresso Internacional de Crítica, em 1931. As reacções não são as melhores. Os críticos portugueses arrasam quase unanimemente a obra de Oliveira. No entanto, alguns representantes estrangeiros reconhecem-lhe potencialidades cinéfilas.
Mas, Manoel de Oliveira não desiste do seu sonho e continua a filmar, e logo no ano seguinte apresenta uma outra curta-metragem documental chamada “Estátuas de Lisboa”. Em 1933, volta a rodar como actor no clássico do cinema português “A Canção de Lisboa” de Cottinelli Telmo. Já em versão sonora, apresenta a obra “Douro, Faina Fluvial” no circuito internacional, o que lhe vale algum reconhecimento e incentivo que lhe faltara no seu pais. Até ao final da década, apresenta mais duas obras documentais de pequena monta, ambas em 1938, “Miramar, Praia das Rosas” com narração de Fernando Pessa e “Já se fabricam carros em Portugal”.

Em 1940 casa com Maria Isabel Brandão Carvalhais. No ano seguinte apresenta mais uma curta-metragem documental, “Famalicão”, com narração de Vasco Santana. Oliveira preparava já há alguns anos a sua primeira longa metragem ficcional. O projecto que se denomina “Aniki Bóbó”, vê a luz em 1942. Rodada em tempo de guerra, esta fábula infantil, faz uma analogia, pelos olhos e acções das crianças, ao momento actual do mundo. A reacção do público e dos críticos é fria. São apontadas ao estilo de Oliveira exactamente as mesmas criticas que hoje em dia, a lentidão da acção, a imobilidade da câmara e o valor da palavra em detrimento da acção.

Decidido a reflectir sobre o seu futuro no mundo do cinema, Manoel de Oliveira entrega-se a outra actividade, a agricultura. Aproveitando igualmente o seu tempo de interregno para se dedicar ao esboço e escrita de vários guiões.

Retorno ao cinema

Volta ao cinema em 1957, com uma curta metragem chamada “O Pintor e a Cidade”, já a cores, e dois anos depois, apresenta um documentário em formato de média metragem “O Pão”. A década de 60, foi marcante na sua ascensão. Apresenta a segunda longa metragem de ficção, “Acto de Primavera” em 1963, e no ano seguinte uma curta-metragem ficcional “A Caça”. Ainda ignorado no seu país de origem, Oliveira recebe, em 1964, o seu primeiro reconhecimento internacional com o Grande Prémio no Festival de Siena, por “o Acto de Primavera”, e vê uma retrospectiva da sua obra ser exibida pelo Festival de Locarno, no mesmo ano. Em 1965, realiza o último filme em que ele próprio está à câmara, um documentário de homenagem ao poeta e pintor Júlio dos Reis Pereira que se designava “As Pinturas do meu irmão Júlio”.

Tetralogia de Amores Frustrados

Em 1971, tem início o que Manoel de Oliveira designou como a “Tetralogia de Amores Frustrados” que começa com “O Passado e o Presente”, um filme que motivou violentas discussões internas entres os seus defensores e depreciadores. Já com o país em liberdade, mas ainda a viver um período de complicada perturbação interna estreia “Benilde, ou a Virgem Mãe”, em 1975. Três anos depois, retorna a polémica com a adaptação pouco convencional de Camilo Castelo Branco, e “Amor de Perdição”. Em 1981, completa este ciclo com “Francisca”, que em Portugal mereceu um “respeitoso” e frio silêncio, mas que apresentado extra-concurso na Quinzena dos Realizadores de Cannes, mereceu elogios como “uma obra prima incomparável com os filmes em competição”. “Francisca” marcou também o início da colaboração com alguns actores que têm participado em praticamente toda a filmografia de Oliveira, desde então. Nesse mesmo ano recebe no Festival de Berlim, o Interfilm Award, como reconhecimento de carreira.

Década de 80

Após a conclusão da “Tetralogia de Amores Frustrados” dedica-se a outro tipo de projectos. Em 1982, volta ao documentário e realiza uma autobiografia chamada “A Visita – Memórias e Confissões” que por seu desejo expresso, só será exibida após a sua morte. No ano seguinte realiza “Lisboa Cultural”, uma reflexão sobre a história da cultura portuguesa, e em 1985, para a televisão francesa o documentário “Nice, à Propos de Jean Vigo”. Ainda em 1985 conclui “Le Soulier de Satin” um filme épico de 410 minutos que adapta ao cinema a obra homónima de Paul Claudel. O filme nunca estreou comercialmente em Portugal, mas rendeu a Oliveira a conquista do primeiro Leão de Ouro no Festival de Veneza. No ano seguinte tem honras de abertura do Festival com “Mon Cas”, seu único filme de produção exclusivamente francesa. O último documentário, até agora, é datado de 1987 e chama-se “A propósito da Bandeira Nacional”, filme de arte sobre uma exposição do pintor Manuel Casimiro de Oliveira (seu filho).
Em 1988 realiza “Os Canibais”, um filme ópera adaptado de um conto fantástico do quase desconhecido Álvaro do Carvalhal. É nomeado para a Palma de Ouro em Cannes, e acaba por vencer o Prémio Especial da Crítica no Festival Internacional de São Paulo.

Pós 80 anos de idade: O Verdadeiro Reconhecimento

Seguiu-se uma análise da história militar portuguesa, pelo olhos de um soldado em “Non ou a Vã Glória de Mandar”, em 1990, filme que vence o Prémio FIPRESCI em Cannes. A partir daqui, e já com mais de 80 anos de idade, Oliveira empreende o surpreendente ritmo de uma longa metragem por ano.
Segue-se a “A Divina Comédia”, uma peculiar revisão histórica, sem ligação directa a Dante, que venceu o Prémio Especial do Jurí em Veneza. Em 1992, lança uma biografia dos últimos dias de Camilo Castelo Branco, com “O Dia do Desespero”, nesse mesmo ano recebe o Leopardo de Honra em Locarno, que premeia o conjunto da sua obra. Da parceria entre Manoel de Oliveira e Agustina Bessa-Luís nasce “Vale Abraão”, uma versão inspirada pelo clássico “Madame Bovary”. O filme arrecadou o prémio de Best Artistic Contribution do Festival Internacional de Cinema de Tóquio, bem como o Prémio Especial da Crítica no Festival Internacional de São Paulo.
“A Caixa” estreou em 1994, uma comédia que Manuel de Oliveira designou como um filme de retorno às origens, em que as suas personagens seriam as crianças de “Aniki Bóbó” em velhos. Nesse ano, chega um novo reconhecimento de carreira, desta vez de Itália com o Prémio Luchino Visconti, atribuído no âmbito dos Prémios David de Donatello entregues à Sétima Arte.
 
 
 “A Caixa”

Catherine Deneuve e John Malkovich, que se tornaram igualmente dois habitués na obra de Manoel de Oliveira, protagonizaram em 1995, “O Convento”, que retrata as pesquisas de um professor americano que se desloca a Portugal para procurar alguns documentos-chave que lhe permitam provar a sua teoria de que Shakespeare era, na verdade, um hebreu de origem espanhola. O filme valeu-lhe mais uma nomeação à Palma de Ouro de Cannes e o Prémio dos Escritores e Críticos do Festival Internacional de Cinema da Catalunha. Volta a reunir um elenco de luxo com nomes como Michel Picolli e Irene Papas, e com a sua actriz “fétiche” Leonor Silveira, no ano seguinte, para “Party”, uma história que nasce do cruzamento entre dois casais, um mais jovem e um mais velho.

Em 1997, surge o mais consagrado dos seus trabalhos até agora, “Viagem ao Princípio do Mundo”, com Marcello Mastroianni no seu derradeiro papel. Uma viagem de carro de um realizador por Portugal em busca de um actor francês que procurava as suas origens. Em Cannes, venceu o Prémio FIPRESCI e mereceu uma Menção Honrosa do Jurí Ecuménico do certame. Foi ainda distinguido, nesse ano, com o Prémio FIPRESCI dos European Film Awards, entre outros. Ainda em 1997, Manuel de Oliveira foi reconhecido pela sua obra pelo Festival Internacional de Cinema de Tóquio.

Viagem ao Princípio do Mundo

No ano seguinte surge “Inquietude”, que nasce do cruzamento de três histórias onde se reflecte sobre a vida e a morte e, em 1999, Manoel de Oliveira realiza “A Carta” com Chiara Mastroianni (filha dos actores Marcello Mastroianni e Catherine Deneuve), e Pedro Abrunhosa, que se estreia em cinema, nos principais papéis. O filme, levemente inspirado no livro “La Princesse de Clèves”, conta a história de uma jovem presa a um casamento com afeição, mas sem amor, e que se apaixona por um artista. Foi galardoado com o Prémio do Júri no Festival de Cannes.

Um realizador do século XXI

No ano seguinte surge “Palavra e Utopia”, biografia do Padre António Vieira. Entre os seus principais reconhecimentos está o Prémio Bastone Bianco no Festival de Veneza. Em 2001 apresenta “Vou para Casa”, a jornada de um actor (Michel Picolli) em final de carreira que vê uma tragédia familiar, e a responsabilidade de tomar conta de um neto órfão, bater-lhe à porta. Venceu o Prémio Especial da Crítica no Festival Internacional de São Paulo. Ainda em 2000 volta a filmar memórias e lembranças com “Porto da Minha Infância”, que arrecadou o Prémio Unesco no Festival de Veneza.

O projecto seguinte foi “O Princípio da Incerteza”, com as suas “Leonores” (Baldaque e Silveira) nos papéis principais, um filme sobre quatro vidas cruzadas marcadas pela divisão de classes e pelo drama. Em 2003, apresenta “Um Filme Falado”, que nos conta a jornada de mãe e filha num cruzeiro entre o Mediterrâneo e Bombaim, na Índia. Foi distinguido com o Prémio SIGNIS pelo Festival de Veneza.

Em 2004 chega “O Quinto Império – Ontem como Hoje”, uma obra que se baseia na peça teatral que conta a história de El-Rei D. Sebastião, e que é protagonizada pelo seu neto Ricardo Trepa.

Segue-se “Espelho Mágico” em 2005, nomeado ao Leão de Ouro em Veneza, e mais uma colaboração com Agustina Bessa-Luis, Leonor Silveira e Ricardo Trepa. No filme acompanhamos Alfreda, uma jovem aristocrata que vive fixada na ideia de que assistirá a uma aparição da Virgem Maria. Afectada por uma doença grave, Alfreda procura apoio junto de um padre, uma freira e um professor inglês. Entretanto um plano é armado para satisfazer o desejo de Alfreda, e “aliviá-la” de algum do seu dinheiro…

Já em 2006 surge “Belle Toujours”, um filme com Michel Piccoli, Bulle Ogier, Ricardo Trêpa, Leonor Baldaque, Júlia Buisel e Lawrence Foster. Trinta e oito anos depois, as duas personagens de “Belle de jour”, de Luis Buñuel, voltam a encontrar-se. Mas ela tenta por todos os meios evitá-lo. Ele, porém, persegue-a e, ainda que contrariada, consegue detê-la face à intenção de lhe revelar o segredo que só ele lhe pode desvendar. Marcam um encontro, um jantar, onde ela espera que tudo lhe seja revelado. Dá-se o jantar onde ela, viúva, aguarda a esperada revelação: o que ele dela dissera ao marido quando este estava mudo e paralítico por causa de um tiro que um amante dela lhe dera.

En 2007 Oliveira visita “Cristóvão Colombo – O Enigma”, uma obra inspirada no livro “Cristovão Colon era Português”, de Manuel Luciano da Silva e Sílvia Jorge da Silva.

Não estamos perante um filme histórico, biográfico ou científico, mas uma evocação romanesca que defende a posição de que Cristóvão Colombo era português, nascido em Cuba, no Alentejo, e foi por isso que deu esse nome à maior ilha do mar das Antilhas, que descobriu.

Em 2008, Manoel de Oliveira não estreia nenhum filme, mas trabalha já no seu próximo trabalho, “Singularidades de uma rapariga Loura” que estreará no ano seguinte. Baseado na obra de Eça de Queirós, o filme acompanha Macário, que numa viagem de comboio para o Algarve vai contando as atribulações da sua vida amorosa a uma desconhecida senhora: mal entra para o seu primeiro emprego, um lugar de contabilista no armazém em Lisboa do seu tio Francisco, apaixona-se perdidamente pela rapariga loira que vive na casa do outro lado da rua, Luísa Vilaça. Conhece-a e quer de imediato casar com ela. O tio discorda, despede-o e expulsa-o de casa. Macário consegue enriquecer em Cabo-Verde e quando já tem a aprovação do tio para finalmente casar com a sua amada, descobre então a “singularidade” do carácter da noiva.

E chegamos rapidamente a 2010, tendo, pelo caminho, o cineasta sido agraciado com Prémio Mundial do Humanismo e o Doutoramento honoris causa pela Universidade do Algarve, ainda em 2008.

Neste ano Manoel de Oliveira lança ‘O Estranho Caso de Angélica’, um filme cujo orçamento rondará os 2.5 milhões de euros e  é baseado num argumento escrito pelo realizador em 1952.

Passado na década de 1950, o filme começa com um fotógrafo hospedado num pequeno hotel. Este é subitamente acordado durante a noite pelos proprietários, que pretendem que tire uma foto à sua filha, que acabara de falecer.

O elenco conta com o nome de Ricardo Trêpa e Ana Maria Magalhães.

É também relançado no mercado “Aniki Bóbó” e “Douro, Faina Fluvial”, dois trabalhos do cineasta agora remasterizados e com melhor qualidade que surgem quer no cinema, quer em Dvd.

Ainda em 2010, a Fundação Serralves encomendou e Manoel de Oliveira apresentou em Veneza, aos 101 anos, uma curta-metragem incluída na secção Horizontes, habitualmente dedicada a jovens realizadores e obras de enorme ousadia estética e narrativa.

Em declarações à RTP, o cineasta afirmou não achar curiosa a sua inclusão entre os mais novos, pois ele próprio se considera um principiante.

Com o nome “Painéis de São Vicente de Fora – Visão Poética”, a fita reencena os painéis e as personagens (o protagonista é Ricardo Trêpa, neto do realizador) para dar uma mensagem de tolerância e pedir o fim das guerras no mundo.

Aqui ficou um “pequeno resumo” da obra e dos prémios (apenas alguns dos principais), da carreira, do que é, neste momento, o realizador mais antigo em actividade. Realizador, escritor, editor, Manoel de Oliveira demonstra uma invulgar lucidez e vitalidade para a sua idade. Confrontando-se com críticas constantes ao seu estilo, Oliveira manteve-se sempre fiel à forma como vê o cinema, e ganhou por si próprio o reconhecimento das plateias internacionais, mesmo tendo de enfrentar o desconhecimento e a frieza da maioria dos portugueses face ao seu trabalho.

 
Carla Calheiros e Jorge Pereira

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