Depois de convencer os habitantes da sua aldeia a participar como atores não profissionais em Run to the River (2023), uma curta que se desenrola na Bengala inglesa e que segue uma jovem forçada pelos pais a casar com um homem mais velho em troca de um dote, a realizadora indiana Anuparna Roy viaja agora até à contemporaneidade e a Mumbai naquela que é a sua primeira longa-metragem, Songs of Forgotten Trees.
Em competição na secção Orizzonti do Festival de Veneza, o filme nasceu do desejo de fazer um documentário em busca de uma amiga de adolescência que nunca mais encontrou, mas transformou-se numa história de amizade e de criação de laços inquebráveis numa Mumbai que atrai migrantes, mas que também os engole e lhes molda as escolhas.
Claro está que um filme ambientado em Mumbai, onde duas migrantes com trabalhos distintos encontram uma ligação forte, poderá levar o espectador a pensar numa aproximação a All We Imagine as Light, de Payal Kapadia. Porém, Songs of Forgotten Trees filma primordialmente as suas protagonistas com preferência por longos planos num espaço fechado, sendo a casa uma outra personagem da ação e das suas vidas, mais do que a própria cidade, que age de forma subliminar.
O filme acompanha Thooya (Naaz Shaikh), migrante e aspirante a atriz que sobrevive através do trabalho sexual, e Swetha (Sumi Baghel), operadora de call center. As duas mulheres, vindas de mundos distintos, acabam por partilhar um espaço improvável e descobrem uma cumplicidade silenciosa, testada quando desejos, feridas e memórias regressam para as assombrar.

Por ocasião da estreia em Veneza, estivemos à conversa com Anuparna Roy, que recordou os tempos em que financiou Songs of Forgotten Trees através de três empregos em Mumbai, antes de encontrar produtores dispostos a arriscar na sua história. Além disso, explicou-nos como o convívio com as actrizes no apartamento que vemos no filme transformou o guião, e como quis fazer desse espaço degradado uma verdadeira personagem, deixando que Mumbai se insinuasse sobretudo através do som e dos silêncios.
Por ocasião da estreia em Veneza, estivemos à conversa com Anuparna Roy, que recordou os tempos em que financiou Songs of Forgotten Trees através de três empregos em Mumbai, antes de encontrar produtores dispostos a arriscar na sua história. Além disso, explicou-nos como o convívio com as atrizes no apartamento que vemos no filme transformou o guião, e como quis fazer desse espaço degradado uma verdadeira personagem, deixando que Mumbai se insinuasse sobretudo através do som e dos silêncios.
Li que teve de trabalhar em três empregos para financiar o filme. Foi mesmo assim?
Sim, no início foi assim. Mas, felizmente, há dois anos conheci o meu produtor, durante o NFDC ( National Film Development Corporation of India), quando fui selecionada para a iniciativa 75 Creative Minds do governo. Nesse encontro, jovens realizadores podiam apresentar ideias aos produtores, e até tínhamos de fazer um filme em dois dias. Foi aí que conheci o Ranjan Singh e apresentei-lhe a ideia — eu já o perseguia há imenso tempo porque queria trabalhar com ele e com o Anurag Kashyap. Eles acabaram por me ajudar a garantir financiamento. Eu comecei com dinheiro próprio, mas depois vieram os produtores Bibhanshu Rai, Ranjan Singh e Romil Modi. Acreditaram na história, mesmo sabendo que não tinha canções nem danças, arriscaram o investimento e juntos conseguimos fazer um belo filme.

E a história evoluiu muito desde a ideia inicial até às rodagens?
Sim, mudou bastante. No início imaginei uma cena direta de romance entre duas mulheres, mas a ideia perdeu força até eu passar três meses a viver com as duas atrizes no mesmo apartamento, em ensaios. Percebemos juntas que seria mais interessante explorar a intimidade de forma indireta, através de silêncios, pausas e gestos subtis. Esse tom nasceu dos ensaios.
Por que escolheu Mumbai como cenário, quando a sua curta tinha sido filmada na sua terra natal?
Porque já vivia em Mumbai. O apartamento onde morava tornou-se o cenário central. Eu conhecia cada canto e isso ajudou. Nunca pensei em filmar noutra cidade.
E como quis mostrar Mumbai?
Na verdade, não quis mostrar Mumbai de forma direta, com trânsito e multidões. Quis concentrar-me no interior do apartamento degradado, quase como se fosse uma personagem. Mas Mumbai entrou naturalmente no filme, através de alguns planos exteriores feitos em modo de guerrilha e, sobretudo, através do som. O desenho sonoro trouxe o ambiente da cidade — os comboios locais, o ruído do tráfego, as vozes de vizinhos.
Há uma cena central no filme, na casa de banho em que se simula uma conversa telefónica entre as duas personagens. Como nasceu essa cena e como a pensou?
É uma das minhas cenas favoritas. Até aí tudo era muito indireto; quis criar um momento de maior intensidade. A cena foi filmada num só plano pelo DOP Debjit Samanta. Para mim, era importante sugerir intimidade sem mostrar tudo, deixar a sensação de que as personagens se dizem, mesmo sem palavras: “eu amo-te”.

E como foi o trabalho com as atrizes. O diálogo para construírem aquela ligação que vemos em cena?
Vivemos juntas no apartamento três meses antes da rodagem. Partilhámos experiências pessoais muito íntimas. Por exemplo, a canção que se ouve vem da infância da atriz que interpreta Thooya: era uma canção de embalar que a mãe, já falecida, lhe cantava. Isso trouxe muita verdade ao filme. Eu tinha apenas cinquenta cenas esboçadas e reconstruí muito a partir do que as atrizes partilharam — discussões, memórias, visões sobre sexo, homens e amor.
As profissões das personagens — trabalhadora de call center e trabalhadora do sexo — foram decididas desde o início?
Eu própria conhecia bem o mundo dos call centers. Queria mostrar uma mulher que procura estabilidade económica, mas continua presa a valores patriarcais, vendo o casamento como destino final. Já Thooya confronta essa visão. Sempre quis que fosse sobretudo Swetha a observar a Thooya, absorvendo as suas dores e contradições.
E os homens periféricos (mas fundamentais) para a dinâmica das personagens femininas. Como pensou esses papéis.
Cada homem tem uma função simbólica. Por exemplo, um dos clientes fala da esposa e da filha, despertando em Thooya a falta de uma figura paterna. Já Nitin, de casta superior, representa o patriarcado: manipula e usa as mulheres, mas foi a própria esposa que contratou a Thooya, para se livrar das suas “obrigações” sexuais. Tudo isto mostra a complexidade das relações. Conheço bastantes homens assim.

Vê já um padrão autoral no seu cinema ou ainda está na fase de experimentação?
Estou aberta à experimentação, mas só consigo filmar histórias que têm uma ligação pessoal comigo. Run to the River nasceu do sonho da minha avó de ver um rio — algo que lhe foi negado. Agora trabalho num novo projecto sobre a relação entre a minha avó e as enteadas durante a II Guerra Mundial na Bengala inglesa. Para mim, o cinema tem sempre de partir de uma experiência íntima.
Quando assistimos a personagens como estas duas mulheres que nos agarram muito, existe sempre um pequeno pensamento em ver, anos depois, onde estão na vida. Pensa voltar a estas personagens no futuro?
Nunca pensei nisso, mas é uma boa questão. E vai ficar comigo na cabeça. Existe já a ideia de fazer uma prequela sobre a Jhuma, uma das personagens mencionadas em Songs of Forgotten Trees, e talvez uma continuação com Thooya e Swetha, para ver como evoluem. Pode ser que aconteça.

