Veneza 2026: “Ritorno a Buenos Aires” enfrenta os fantasmas da ditadura argentina

Marco Bechis encerra a competição com um drama asfixiante sobre memória, culpa e os traumas que persistem décadas depois da ditadura argentina.

O diretor artístico do Festival de Veneza, Alberto Barbera, tinha uma ideia bastante clara ao montar o planeamento da mostra competitiva. A primeira semana estava repleta de grandes autores europeus e asiáticos, além de lançamentos norte-americanos que prometem fazer barulho na temporada de prémios. Os nomes mais aguardados pelo grande público foram exibidos de quarta-feira a domingo — de Danny Boyle a Hirokazu Kore-eda.

Barbera, no entanto, deixou os filmes mais politizados para os últimos dois dias, encerrando a competição com fortes declarações. NAZA, de Yuval Abraham e Rachel Szor, e A Bit of Light, de Ali Asgari, trouxeram luz a feridas atuais. Ritorno a Buenos Aires (Retorno a Buenos Aires), de Marco Bechis, uma produção ítalo-brasileira, coloca os fantasmas da ditadura em evidência. O filme do realizador chileno é um doloroso estudo sobre traumas que jamais serão totalmente expurgados.

Na trama, Mariano Guerra, que vive em Itália, é chamado para testemunhar sobre os horrores que sofreu durante a ditadura argentina. O protagonista deixa o telefone tocar, atormentado pela possibilidade de regressar ao lugar que dilacerou a sua alma. Logo no início, Bechis e o diretor de fotografia Fabrizio La Palombara sublinham o isolamento e a melancolia que dominam Mariano, colocando-o em espaços frios e, por vezes, enquadrando-o de costas. O trabalho do cineasta e da sua equipa é essencial para que o espectador tenha noção da dimensão dos demónios internos com os quais o protagonista convive.

Na Argentina, as testemunhas são colocadas em quartos sem casa de banho. Bechis filma aquele corredor como se fosse o de uma prisão. O espelho estilhaçado dialoga com o quão quebradiças são aquelas pessoas. Bechis posiciona o protagonista em corredores apertados e abusa dos grandes planos. Há uma série de elementos que fazem deste um filme duro, dotado de uma atmosfera asfixiante, mas nenhum é tão poderoso quanto a interpretação de Adriano Giannini. É como se uma casca de pesadelos tivesse tomado conta do corpo de Mariano, impedindo-o de se expressar. O ator italiano tem poucos diálogos importantes; a sua forma de exteriorizar as dores do passado passa pela corporalidade. Em dois momentos específicos, Giannini impressiona por conseguir transportar o espectador para a ditadura — a sua memória muscular continua ativa. As correntes permanecem presas às suas pernas. Existe um sentimento de culpa, que nasce do facto de estar vivo quando a morte estava à sua espera. O que fez Mariano para ter tido um destino diferente do da grande maioria? O argumento toca em muitas feridas.

O desenho de som é impecável ao potenciar estrondos, ecoando a psique do protagonista e conferindo profundidade à narrativa. Os flashbacks são oportunos e inseridos de forma a estabelecer paralelos e rimas com o presente. A fotografia ajuda a diferenciar os períodos, dando ao passado tons entre o castanho e o sépia. As sombras e o fumo dos cigarros também servem à construção de uma atmosfera intensa. Nos últimos minutos, Bechis explora visualmente o que talvez seja a principal questão do filme: Mariano regressa para fazer as pazes consigo próprio.

Ritorno a Buenos Aires foi uma escolha acertada de encerramento para um festival com vozes autorais tão distintas e especiais.

O Festival de Veneza prossegue até ao dia 12 de setembro.

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