No seu terceiro trabalho na realização, Casey Affleck realiza um belo, porém vazio filme. Company nasce de uma premissa inverosímil, que insere o espectador numa estrutura narrativa que não faz muito sentido. Uma mulher bate à porta de estranhos no meio da noite de Natal. Repentinamente, decide contar uma história de décadas passadas e, por incrível que pareça, todos se interessam. E há mais: dentro dessa história, há uma personagem que conta outra história. Saltamos entre esses três períodos sem qualquer tipo de fluidez ou precisão. Não existem motivos para o espectador se importar com nenhum dos segmentos e a montagem é bastante intrusiva.
A impressão é de que Affleck tinha uma ideia fixa na cabeça e a concebeu com tanta paixão que perdeu parte da coesão. Numa das histórias, acompanhamos Caleb, um jovem que é encontrado perdido na neve por Rebecca e Emmet, um típico casal de agricultores. Aos poucos, Caleb, interpretado por Atticus Affleck, filho de Casey, demonstra não ser um rapaz qualquer, falando sobre a vida com ressentimento e raiva. Caleb garante ser muito mais velho do que aparenta, tendo viajado pelo mundo inteiro. A fotografia é o ponto alto de Company, estabelecendo uma atmosfera misteriosa, com planos abertos de paisagens soturnas e nebulosas. Nos ambientes fechados, há quase sempre uma lareira a iluminar as personagens. O realizador não chama a atenção para si, compondo belos quadros que potenciam a dimensão gótica da narrativa.
No ato final, uma reviravolta dá uma unidade temática ao filme — uma pena que já seja tarde demais para qualquer tipo de envolvimento emocional. Affleck tem grandes atores em mãos, como Nick Nolte e Ben Mendelsohn, mas subutiliza-os. A ideia de contar múltiplas histórias para chegar a um contexto mais amplo, que discute solidão e melancolia, é ambiciosa e Affleck, ainda imaturo na realização, merece elogios pela tentativa. Dito isto, seria melhor se se tivesse concentrado apenas no núcleo de Caleb e do casal de agricultores.
O francês Florian Zeller surgiu no teatro e na literatura. Em 2020, surpreendeu todos com The Father, que valeu um Óscar a Anthony Hopkins e outro ao próprio Zeller, partilhado com Christopher Hampton, por Argumento Adaptado. The Son, o seu projeto seguinte, foi um passo em falso, sendo mal recebido pela crítica. Com esse currículo, havia uma grande expectativa em torno do seu novo trabalho, uma espécie de teste decisivo à sua qualidade enquanto realizador cinematográfico.

Bunker é um filme que aborda temas importantes e até consegue criar uma atmosfera de tensão e desconforto, mas demonstra uma considerável imaturidade no desenvolvimento das suas resoluções dramáticas. Miguel é um reputado arquiteto espanhol que, para catapultar a carreira, se mudou para Londres. Sofia, a sua mulher, por não ser britânica, sofreu uma estagnação na carreira de editora literária. Miguel sabe disso, mas não se interessa tanto pelos dilemas da mulher.
Um dia, o protagonista recebe uma proposta extravagante de um multimilionário: construir um bunker. Isso serve para mexer com a estabilidade superficial do casal, levando-os a entrar nas camadas mais profundas do desgaste da relação. O bunker do título não é o da proposta, mas aquele que Miguel construiu em torno de si, formando uma capa de proteção que não considera as nuances humanas. Miguel está mais preocupado em instalar alarmes e discutir com o vizinho, que colocou uma janela no muro que separa as suas propriedades. Zeller nunca filma o lado de fora da residência, mantendo o espectador dentro do casulo protetor idealizado pelo protagonista. A casa, minimalista na sua arquitetura, é belíssima, mas conta com uma grande parede vermelha, que funciona como um alerta: quando as personagens param diante dela, sentimos que algo está fora de sintonia.
O ser humano, quanto mais distante da realidade fica, tende a ideias utópicas. Relações não são utopias. Miguel, com todo o seu sucesso, colocou-se nessa condição. A questão é bem apresentada e existem ótimos momentos, mas o desenvolvimento, com destaque para o clímax, chega a ser risível. Os diálogos são piegas, Zeller abusa da autoexplicação e as situações são inverosímeis. Nesse sentido, é de ter pena de Stephen Graham, que interpreta o vizinho, num dos papéis mais bizarros do ano. Javier Bardem e Penélope Cruz, apesar dos problemas no trabalho de Zeller, estão muito bem. Cruz sofre um pouco mais por ter em mãos uma personagem pouco explorada. O grande destaque, mesmo com uma única participação, é Paul Dano, que dá vida ao tal multimilionário como uma junção ainda mais sinistra de Elon Musk e afins.
O Festival de Veneza prossegue até ao dia 12 de setembro.

