Após a má receção de Sheep in the Box no Festival de Cannes, era de esperar que o aclamado realizador japonês Hirokazu Kore-eda apresentasse algo interessante em Veneza. Look Back, adaptação do mangá de Tatsuki Fujimoto, é de um lirismo inenarrável. Na trama, Fujino é uma jovem conhecida na escola por produzir mangás exuberantes. Ao deparar-se com os desenhos de Kyomoto, uma aluna que nunca vai às aulas, fica com inveja, sentindo-se obrigada a superar a sua “rival”. Fujino debruça-se sobre os mais diversos livros e aprimora a sua técnica, desligando-se da vida social e familiar. Kore-eda estabelece um padrão visual, enquadrando Fujino de costas, como se estivesse em contacto apenas com o seu mundo interior. Até que, um dia, o professor lhe pede que entregue um diploma a Kyomoto, que vive isolada. O que parecia encaminhar-se para uma relação de tensão e disputa transforma-se numa linda amizade, movida pelo fazer artístico.
O trabalho de direção de arte é impecável ao retratar Kyomoto como uma criança solitária, incapaz de interagir com o meio ao redor. O primeiro contacto entre as duas sintetiza o tom da obra, fisgando imediatamente o espectador. As duas começam então a trabalhar juntas. Kore-eda filma o processo artístico com um raro intimismo, explorando a dimensão daquela bela amizade. O contraste entre as personagens é um dos grandes encantos da narrativa. Fujino é extrovertida e comunicativa, enquanto Kyomoto admite sofrer de um tipo de fobia social. A arte une-as e Fujino faz questão de inserir Kyomoto no “mundo real”. Elas não conversam muito sobre esse assunto; são as escolhas de Kore-eda e das atrizes que levam o espectador a essa conclusão. Nas conversas com o editor, Fujino é simpática, enquanto Kyomoto, nervosa, mantém o corpo retraído. O plano de pormenor das mãos entrelaçadas, somado ao uso da câmara lenta, quando Fujino dá força à amiga para que dê um passeio na rua, é de uma sensibilidade enorme. A banda sonora é estonteante e o silêncio, vital; não são necessários diálogos para gerar aproximação.
Kore-eda elabora quadros do mais alto grau de sofisticação, inserindo as amigas em vastas paisagens e ressaltando a intensidade daquele laço e o universo particular em que apenas elas existem. É justamente essa perceção que leva Kyomoto a tomar uma decisão que altera o rumo da narrativa. A sequência poderia valer-se de uma dramaticidade artificial, mas Kore-eda investe numa encenação limpa e poderosa, cortando para planos médios no momento certo, isolando cada uma no seu espaço — o fade é o toque de mestre.
Sem entrar em maiores detalhes, o ato final de Look Back está entre as coisas mais arrebatadoras e belas do ano. A força da amizade, a importância do fazer artístico, o luto e a impotência de ter consigo apenas memórias são examinados por Kore-eda num misto de contenção e explosão imagética. Furi Nanase e Rokka Okada, intérpretes das versões infantis de Fujino e Kyomoto, assim como Natsuki Deguchi e Aju Makita, que interpretam as personagens mais velhas, oferecem interpretações precisas, combinando pureza e densidade emocional.
Kore-eda não veio ao Festival de Veneza a passeio. Look Back não deve sair daqui de mãos vazias.
O Festival de Veneza prossegue até ao dia 12 de setembro.

