Veneza 2026: entre o romantismo de Nanni Moretti e a densidade de Lee Chang-dong

Succederà questa notte, novo filme de Nanni Moretti, é o sopro de romantismo e doçura de que a 83.ª edição do Festival de Veneza estava a precisar. Não há dúvidas de que muitos o acharão excessivamente sentimental e até piegas, mas a verdade é que Moretti é perfeito a transmitir a sensação de estar apaixonado. Em determinado momento, uma dança entre as personagens centrais transforma-se numa sequência musical — é o tipo de rutura que torna Moretti um autor tão importante.

Matteo (Louis Garrel) e Greta (Jasmine Trinca) são introduzidos em tramas paralelas. Num encontro fortuito, no dia do casamento de Greta, Matteo apaixona-se perdidamente. A narrativa é estruturada em saltos temporais de sete anos, sublinhando a genuinidade do sentimento dos protagonistas, que, mesmo perante questões delicadas envolvendo as suas famílias, mantêm intacta a chama do amor secreto. Moretti é um grande romântico, o que não quer dizer que seja purista. O cineasta filma as cenas de sexo com honestidade, expondo a voracidade de amantes que não podem assumir um compromisso duradouro.

Outro detalhe fascinante é a dinâmica estabelecida entre Matteo e os seus familiares, principalmente com o pai, que, bastante doente, expressa um último desejo: assistir a um concerto de Bruce Springsteen. Durante as refeições, a mesa está sempre cheia, com aquele espírito expansivo e acolhedor, tipicamente italiano. Moretti também brinca com o caráter idealizador do ser humano, em sequências que apresentam cenários irreais e que são fundamentais para a construção de um tom caloroso e divertido.

As pessoas podem até deixar as suas almas gémeas escaparem por algum tempo, mas não existem passos em falso; cada relação guarda consigo algum tipo de brilho. Louis Garrel e Jasmine Trinca brilham no ecrã, completamente entregues à proposta do realizador de O Quarto do Filho. Do elenco secundário, o grande destaque é Hippolyte Girardot, uma verdadeira máquina de carisma.

Moretti cativa com o seu otimismo, trazendo à competição da Biennale o tipo de filme que os festivais de “prestígio” costumam deixar de lado.

Possible Love

Por outro lado, seria, no mínimo, bizarro se Possible Love, o novo trabalho do mestre sul-coreano Lee Chang-dong, responsável por filmes como Burning, saísse da 83.ª edição do Festival de Veneza de mãos vazias. É o tipo de filme que merece ser visto, revisto e debatido intensamente. Chang-dong explora muitos temas, mas não é explícito em quase nenhum, tratando as entrelinhas como uma grande aliada narrativa.

Na trama, Mi-ok e Ho-seok, que foi despedido e brutalmente agredido pela polícia após uma greve, são o foco de um documentário realizado por Ye-ji, casada com Sang-woo, um empresário milionário. Em cada cena, Chang-dong revela algo. Ao cortar de um grande plano para um plano conjunto, o realizador sublinha o desconforto na relação entre pessoas de classes sociais tão distintas. Um simples olhar, uma frase despretensiosa, uma roupa de marca… a harmonia está a ruir. Em determinado momento, Sang-woo diz estar feliz pela atitude da mulher, que, segundo ele, assumiu uma espécie de method acting para se envolver com pessoas tão diferentes — esse diálogo não é enfatizado, mas está lá para fazer o espectador refletir.

Existe genuinidade em Ye-ji? O seu afeto pelo casal documentado é verdadeiro? Ela chama Mi-ok de irmã para se aproximar do documentário ou porque realmente acredita nisso? O seu trabalho é um estudo sobre os traumas deixados por um Estado agressivo e desumano ou uma oportunidade de parecer bem perante a sociedade? Nada é simples. Chang-dong não retrata os ricos como malvados e os pobres como bondosos; interessa-lhe uma dimensão mais complexa, capaz de perceber as nuances e contradições do ser humano. Como não falar sobre o desejo? O contraste social parece trazer uma chama a certas personagens — algumas máscaras quase caem pelo caminho.

Chang-dong usa todo o tempo do mundo para desenvolver uma narrativa densa e sofisticada. Ao longo de quase três horas, não há grandes catarses, apenas um estudo sobre uma enormidade de temas, concentrados em pessoas que ocupam polos opostos da sociedade. Cada plano, além de lindíssimo, obriga o espectador a reavaliar aquilo a que está a assistir.

O elenco é impecável. Jeon Do-yeon, Zo In-sung e Cho Yeo-jeong estão excelentes, mas o grande destaque é Sul Kyung-gu, que já tinha colaborado com Chang-dong em Oasis e no arrebatador Peppermint Candy. A sua interpretação é um mar de contenção emocional. O rosto e o corpo da sua personagem escondem traumas e medos imensuráveis. Chega a ser doloroso observá-lo.

O Festival de Veneza prossegue até ao dia 12 de setembro.

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