Com apenas cinco longas-metragens na sua carreira, Martin McDonagh já se estabeleceu como um dos grandes autores da contemporaneidade. Em Wild Horse Nine, na competição ao Leão de Ouro no Festival de Veneza, o realizador britânico atinge um nível invejável de maturidade. Tudo o que se propunha a fazer nos seus outros filmes está aqui mais conciso e refinado: o toque tragicómico, o caráter existencialista e espiritual das suas narrativas, a dinâmica entre as personagens e a forma como dialogam com o espaço ao redor…
McDonagh, como de costume, consegue fazer com que o espectador gargalhe — e não são poucas vezes — enquanto se depara com um protagonista essencialmente trágico e um notável pessimismo em relação ao estado da política e das democracias pelo mundo — o filme passa-se em 1973, mas muitas coisas permanecem iguais.
John Malkovich oferece uma interpretação mágica, que encapsula todas as qualidades do cinema de McDonagh. Chris, a sua personagem, é um homem cínico, melancólico e engraçadíssimo. Malkovich pouco altera a expressão facial, o que torna cada escolha sua ainda mais preciosa. Por trás da comicidade, há cansaço e arrependimento por uma vida sanguinolenta. McDonagh salienta esse estado em várias situações nas quais isola o protagonista, mantendo-o numa espécie de purgatório nebuloso. Wild Horse Nine remete para In Bruges, por certos elementos da trama e pelo tipo de relação estabelecida entre as personagens, e para The Banshees of Inisherin, por limitar o espaço a uma ilha, garantindo um certo fatalismo à narrativa — não restam dúvidas de que algo acontecerá ali.
Este é o filme mais político da carreira de McDonagh, que satiriza o intervencionismo da CIA na política global. Outro ponto interessante é a espiritualidade que o cineasta incorpora na narrativa, diretamente associada à fotografia de Ben Davis, que confere uma dimensão mística à Ilha da Páscoa. Sempre que pode, detém-se em símbolos religiosos; por vezes, deixando-os em primeiro plano e Chris ao fundo. O protagonista fala bastante sobre a existência do céu e do inferno, e esses elementos pontuados por McDonagh evidenciam o fardo que sente pelos seus pecados e o desejo de partir com um pouco de paz — embora isso seja quase impossível.
Lee, interpretado por Sam Rockwell, é o colega e único amigo de Chris. A química entre os dois atores é o principal encanto do filme. Alguns dos grandes diálogos da década são proferidos pelos dois. Rockwell atua como uma figura de contenção, que precisa de se manter estável mesmo quando está em dúvida ou prestes a desabar — os grandes planos pontuam a complexidade dos seus dilemas morais e emocionais.
O elenco conta ainda com Steve Buscemi, Parker Posey, Tom Waits e Mariana Di Girolamo, todos em grande forma.
Wild Horse Nine coloca Martin McDonagh noutro patamar e, sem dúvida alguma, chega forte à temporada de prémios do próximo ano.
O Festival de Veneza prossegue até ao dia 12 de setembro.

