A Primavera é uma estação particularmente complexa para a realidade egípcia. Época de ventanias e muita poeira, ela é simbolicamente essencial em “Spring Came on Laughing”, um drama construído em vinhetas que começa como uma suave brisa e acaba em modo furacão. O filme assinado por Noha Adel, em estreia na realização e recorrendo a não-atores, pega em situações que a cineasta já viveu ou assistiu, colocando(vários) grupos de mulheres à beira de um ataque de nervos, arrasando com os clichés sobre as mulheres do Médio Oriente. Este é um dos filmes mais poderosos a concorrer ao Lince de Ouro, no FEST, que decorre de 21 a 29 de junho, em Espinho.
A 9 mil quilómetros do Egito, onde “Spring Came on Laughing” tem a sua ação, encontramos a cidade de Nova Iorque, local onde o dominicano-americano Joel Alfonso Vargas coloca a sua atenção em “Mad Bills to Pay (or Destiny, dile que no soy malo)”, outro dos filmes em competição no FEST. Centrando o foco num verão escaldante no Bronx, no filme acompanhamos o jovem Rico, enquanto trafega por Orchard Beach, a vender cocktails caseiros (“nutcrackers”). Ele vive em turbulência com a mãe e irmã, mas a sua dinâmica familiar e vida, já de si complexa, vai mudar quando Destiny, a sua namorada de 16 anos, anuncia que está grávida e vai viver com ele.
Tal como “Mad Bills to Pay (or Destiny, dile que no soy malo)”, “The Good Sister” também aterrou na Berlinale antes de parar no FEST. Filme final do curso de cinema de Sarah Miro Fischer, o projeto sobre dois irmãos inseparáveis, que veem a sua ligação abalada quando um deles é acusado de violação, demonstra uma maturidade acima da média.

Também devastador é “Manas”, de Marianna Brennand, que antes de chegar às salas comerciais passa pela competição do FEST. Viajando até Marajó, em plena floresta amazónica, a brasileira Marianna Brennand, pegando em histórias que lhe foram contadas enquanto pesquisava para realizar um documentário, faz um ensaio sobre a ruralidade, pobreza e isolamento para abordar o tabu dos abusos sexuais em casa, e a exploração sexual fora dela.
Ainda com o alemão como língua, “Peacock” é outra proposta da competição do FEST. Escrito e realizado por Bernhard Wenger, o filme acompanha um homem que trabalha numa agência de aluguer de amigos/companhia, mas que tem cada vez mais dificuldade em ser autêntico na sua vida privada.
Com enorme tradição no FEST (“The Adamant Girl“, de P.S. Vinothraj, foi Lince de Ouro no ano passado), o cinema indiano contemporâneo marca outra vez presença, desta vez com “Cactus Pears”, um drama romântico sobre amor proibido que ganhou o Grande Prémio do Júri no Festival de Sundance na categoria Cinema Mundial. A história começa com um homem da cidade forçado a passar dez dias de luto pela morte do pai na áspera zona rural do oeste da Índia.
Já de Locarno chega “Lessons Learned”, do húngaro Bálint Szimler, que segue uma jovem professora e um estudante num sistema de ensino opressivo, funcionando como alegoria do impacto de 15 anos de domínio da nova direita na Hungria.
A competição ao Lince de Ouro é completada com o poderoso diário audiovisual dos dois anos de invasão russa, “Songs Of Slow Burning Earth”, de Olha Zhurba; “To Close Your Eyes And See Fire”, dos austríacos Nicola von Leffern & Jakob Carl Sauer, sobre o rescaldo da explosão no porto de Beirute; e “A Place In The Sun”, de Mette Carla Albrechtsen, sobre o impacto do turismo nas pessoas e nos territórios, entre o encanto da paisagem e o desencanto da realidade.
O Fest, que vai dar um grande destaque ao cinema da Geórgia este ano, vai abrir com Scandar Copti e a sua mais recente produção, “Happy Holidays”, um olhar humanista sobre a vida de uma família árabe residente em Israel. O realizador estará presente em Espinho para apresentar o filme e orientar uma masterclass.
Além de Copti, no Training Ground, o FEST vai contar com a presença de nomes como Brillante Mendoza, Edison Alcaide, Polly Duval, Pete Travis, Gonçalo Galvão Teles , Philippe Rousselot,, Martin Percy e Kaveh Farnam.

