Depois de passar pelo Festival de Sundance com sucesso, arrecadando o prémio especial do júri de melhor elenco na secção Next, “Mad Bills to Pay (or Destiny, dile que no soy malo)” conquistou a Berlinale, na secção Perspectives, com a sua forma realista de feeling quase documental, no retrato de uma história bem humana no seio da comunidade dominicana em Nova Iorque.
Em “Mad Bills to Pay (or Destiny, dile que no soy malo)” acompanhamos o jovem Rico durante um verão escaldante em Nova Iorque, enquanto trafega por Orchard Beach, no Bronx, a vender cocktails caseiros (“nutcrackers”). Ele vive em turbulência com a mãe e irmã, no coração da animada comunidade dominicano-americana, mas a sua dinâmica familiar e vida, já de si complexa, vai mudar quando Destiny, a sua namorada de 16 anos, anuncia que está grávida e se instala na sua casa.
“Cresci no Bronx e por isso estou muito próximo do que é a experiência de crescer lá”, explicou o realizador Joel Alfonso Vargas ao C7nema em Berlim, assumindo que a ideia para o filme surgiu durante a pandemia quando começou a pensar o que teria acontecido a um amigo do irmão, que foi pai na adolescência: “Havia um amigo do meu irmão que era uma pessoa muito carismática. O meu irmão é 10 anos mais velho que eu e, por isso, desde muito novo fui exposto a pessoas mais velhas. Ele foi pai em adolescente e era especialista nos “nutcrackers”, cocktails caseiros. Um dia estava a pensar: o que terá acontecido a este rapaz? Foi alguém que ficou na minha cabeça e queria contar uma história em torno dele”.

Assumindo que este é um filme que se passa no Bronx, mas não é sobre esse bairro de Nova Iorque, Joel afirma que o que principalmente lhe interessa são histórias humanas e fundamentalmente “como vives dentro dos estereótipos que fazem de ti”. “Não pretendia uma abordagem sociopolítica, em que me focava na pobreza da família e das contas que tinham que pagar, mesmo que o título do filme falasse disso. Isso existe como pano de fundo, pois faz parte do ambiente onde vives, mas no centro do filme quis colocar uma história humana”.
Com parte dos seus estudos de cinema feitos na Europa, o jovem cineasta reconhece a influência do cinema do velho continente nesta sua primeira longa-metragem, a qual não se fica apenas pelo uso frequente de uma câmara estática, mas igualmente na sua abordagem ficcional, na qual recorre a códigos do cinema documental: “A ideia desses planos fixos era fazer as pessoas questionar entre o estarem a ver um filme de ficção ou um documentário. A tendência de filmar Nova Iorque é a de movimento, com cortes rápidos de montagem. A minha experiência no Bronx e em Nova Iorque mostra que as coisas são na realidade lentas. Muitas vezes não acontece nada durante um dia e andamos apenas de um lado para o outro com calma e sem fazer realmente nada. Queria mostrar uma experiência diferente da cidade através de uma linguagem cinematográfica específica. Estava curioso com a forma com que ia lidar com uma história que já tinha sido contada, como vimos em “Raising Victor Vargas”, com uma linguagem diferente.”
Assumindo que o que o move no cinema são as histórias e as personagens, Joel diz que adora figuras que dão o seu melhor para conseguirem uma mudança nas suas vidas, mas que falham no processo: “Isso é algo muito humano, particularmente quando mudas e, sem te aperceber, trazes aos outros consequências que nunca pensaste”, explica Joel. “Ter crescido no Bronx no seio de uma família operária e estar agora na Berlinale, depois de Sundance, é algo fantástico e quero aproveitar esta plataforma para criar mais histórias e filmes sobre o local onde cresci. Há pouca gente a fazer isso, a falar da comunidade dominico-americana (…) Não acho que a minha comunidade tenha sido bem representada no cinema. Há grandes filmes a sair da República Dominicana, basta ver o “La bachata de Biónico” e o “Cocote”. Mas no que diz respeito à representação da comunidade nos EUA, nem por isso. E temos cerca de 1 milhão de dominicanos em Nova Iorque, ou seja, quase 10% da população.”.
O Festival de Berlim terminou no passado dia 23 de fevereiro.

