Filmado durante quatro anos e seguindo principalmente três personagens – a poetisa e ativista Joumana, eleita para o parlamento libanês, mas fraudulentamente arredada dessa vitória; Georges, Veterano da Guerra Civil Libanesa com muitas memórias e segredos do passado guardados a sete chaves na sua mente; e Perla Joe, uma destemida mulher que se torna um símbolo da revolta contra um sistema político corrupto-, a jovem cineasta Myriam El Hajj captura com precisão, na forma de diários documentais, o estado de ebulição da política libanesa, bem como o odor que paira no ar “de uma necessidade urgente de mudança.
“O filme nasceu da necessidade de mudança. E está no ar essa atmosfera de mudança”, explicou-nos a realizadora em Berlim, onde o filme teve a sua estreia mundial. Agora no Festival do Cairo, nos Horizontes do Cinema Árabe, a pequena peça preciosa de Myriam El Hajj mostra, acima de tudo, uma nova geração que acredita que está empenhada em tentar mudar as coisas por dentro, via a política.” Há muita raiva, a qual espero que traga mudanças pois vivemos há 40 anos com os mesmos políticos no poder. Ter raiva, isoladamente, não resolve nada. E podemos dizer que essa raiva já teve resultados, pois trouxe pessoas para a rua protestar. Aconteceu uma revolução (…) e uma das coisas que essa revolução trouxe foi a liberdade de expressão. As pessoas podiam gritar e dizer o nome dos políticos a criticar”.

Assumindo que só uniu as personagens no seu filme através da montagem, Myriam começou a idealizar o projeto a partir de Georges. “Só depois escolhi a Jumana e a Perla, mas não sabia ainda como os juntar. Nunca vemos os três juntos, apenas a Perla e a Jumana se encontram uma vez. Aquilo que os unia era a ordem cronológica dos eventos no país. Isso é que os juntou. “
Numa das cenas mais marcantes do filme, logo no início, alguém menciona o nome do Hezbollah, sendo imediatamente aconselhado a se calar. Será que é um tabu no Líbano as pessoas falarem do Hezbollah e das suas atividades? “Antes da Revolução, sim. Era um tabu”, explica Myriam. “Se houve algo que a revolução trouxe, mesmo que não tenha conseguido trazer as mudanças que todos desejávamos, foi a liberdade de expressão. Podiamos mencionar o nome dos políticos, mas não todos eles. A revolução trouxe isso, mais liberdade de falar sobre os políticos e as suas filiações”.
Quando questionada se alguma vez sentiu medo no processo de desenvolvimento do documentário, Myriam diz que não, mas que sentiu as ameaças constantes a pessoas como a Jumana. “Ela recebeu muitas ameaças de morte, mas também porque ela tem uma revista que fala de sexo. Isto sim é um grande tabu nos países árabes. No meu caso, nunca me senti insegura nas filmagens e, sendo sincera, a câmara ajuda. O problema desta questão é que tens a liberdade de filmar o que quiseres, até mesmo sem pedir permissão, mas depois mostrar… não sei se o vão permitir. Este é um filme sobre aquilo que o povo passou nos últimos anos, por isso seria importante mostrá-lo. Quando o filme pensava sempre que mesmo que não o deixassem ser exibido agora, ele seria sempre um documento importante para o futuro. Espero que este filme seja um documento para o futuro. A verdade é que até livros sobre a nossa História são poucos. Por exemplo, a guerra civil não está nos livros. Por isso é importante documentar o que vivemos. (…) Com todos os constrangimentos que temos, nós, cineastas, não temos tempo para entrar em depressão. Temos de filmar sempre, estar em ação sempre.”
O Festival do Cairo decorre até dia 22 de novembro.

