Nadav Lapid: “Não percebo quando é que “seguro” se tornou uma virtude na arte

(Fotos: Divulgação)

Submissão é felicidade“, diz a personagem de um pianista Jazz que, com a sua esposa, uma dançarina, fizeram explodir no ecrã a maior bomba que o Festival de Cannes teve este ano. “Yes”, porque este é um filme sobre aqueles que não conseguem ou podem dizer não, usa essa expressão como primeira lição para o recém-nascido do casal, cuja data de nascimento enquadra-se no 8 de outubro de 2023, ou seja, um dia após o ataque do Hamas que despoletou uma reação assassina e sangrenta contra Gaza, com uma intensidade e desproporção abismais.

Exibido na Quinzena dos Cineastas, porque houve um misto de “medo e censura” na sua omissão na corrida à Palma de Ouro, “Yes” explora o declínio moral de modo global, mas no processo arrasa com o ultra consumismo, a alienação e o ultranacionalismo que explodiu em Israel logo após o ataque perpetrado pelo Hamas.

Foi em Karlovy Vary que nos sentámos à mesa com Nadav Lapid para falar de “Yes”, filme que sucede a “O Joelho de Ahed” [ler entrevista] e “Sinónimos” [ler entrevista].

Nas conversas que tive com jornalistas em Cannes, o sentimento geral era de estranheza pelo seu filme não estar na competição à Palma de Ouro. Acha que houve receio de Cannes em o colocar na competição principal?

Já muitos jornalistas escreveram sobre essa questão e que Cannes teve medo. Na verdade, foi uma forma de medo e de censura. Não posso falar em nome do festival, mas creio que não tiveram medo pelo filme em si, mas por ele poder figurar no Palmarés ou até ganhar a Palma de Ouro. Para eles, era demasiado polémico.  

Se assim foi, são péssimas notícias, não para mim, mas para o cinema em geral. Se um sítio como Cannes tem medo de exibir filmes que abordam o que se passa atualmente no mundo, pelo menos na sua competição, então são péssimas notícias. Se não conseguimos refletir as coisas que estão a acontecer no mundo através do cinema, para que precisamos de filmes?

Yes

O Nadav tem refletido há muito tempo o que se passa em Israel. Vemos isso no “Joelho de Ahed” (Ahed’s Knee) e no “Yes”. Na verdade, os seus filmes parecem sempre um grito…

É curioso que diga isso, pois normalmente sinto que quero começar com uma dança, mas depois acaba num grito. É como se a dança, em vez de aliviar a tensão, fizesse as coisas crescer e crescer até ao grito.

Num nível mais geral, como espectador, sinto que um filme tem de abanar, virar-me do avesso e obrigar-me a questionar as minhas suposições. Nós, como espectadores, temos muitos sistemas de defesa para nos proteger dos filmes. Por isso, para um filme nos tocar na alma tem de primeiro quebrar qualquer coisa que existe em nós. Um espectador quebrado é um bom espectador. É como um escudo.

Um filme não é uma massagem e não gosto de ser mimado por um filme. Não quero que um filme me faça uma espécie de festa na cabeça. Para isso, peço a pessoas para fazê-lo, não a um filme. Se olharmos hoje para o cinema, há demasiados filmes “seguros”. Não percebo quando é que o “seguro” se tornou uma virtude na arte. A arte deve ser tudo menos isso. O cinema deve ser perigoso. 

Num nível particular, uma das maiores doenças que vejo em Israel é a “cegueira” que vemos no meu filme. 

Sente que Israel vive numa bolha?

Sim, sinto que criaram uma bolha e que já é impossível abaná-los ou acordá-los. Tento isso nos meus filmes, abanar a sociedade, mas sei que não vai funcionar. Consigo com algumas pessoas, mas com a sociedade, no seu todo, não. Parece que o cérebro deles foi desligado e precisamos de 10 mil filmes como este para os despertar. 

Peço desculpa pela comparação [pois é uma citação vinda da um serial killer], mas o que descreveu fez-me pensar no “Seven – Sete Pecados Mortais” e na personagem interpretada pelo Kevin Spacey, que a certo momento diz que se queremos falar com alguém e que nos escutem, já não chega tocar no ombro da pessoa, mas temos de lhe dar com um martelo. 

Concordo plenamente e é triste isso. No filme é dito que os israelitas nasceram e cresceram com a questão de como é que as pessoas podem viver normalmente enquanto o horror é feito. Para ser mais específico, Israel foi fundado com base no ódio dos outros para si. Não estabeleço um paralelismo do que está acontecer agora com o que aconteceu no Holocausto, é diferente, mas Israel foi fundado com o pensamento de como é que um alemão podia viver normalmente com o que estava acontecer [na 2ª Guerra Mundial]. A resposta é o que se passa em Israel atualmente.

Sente que é um realizador e israelita perseguido pelas questões problemáticas do seu país? Sente que um dia, no seu cinema, vai conseguir escapar dessas questões?

Quem me dera! Quero muito escapar [destas questões que me atormentam]. Comecei a escrever o filme antes do 7 de outubro e pretendia apenas falar de um artista submisso, incapaz de dizer “não”, pois não é suficientemente poderoso. Era uma batalha entre a vulgaridade e o poder em que a arte era derrotada por knockout. A única coisa que a esse artista é permitido dizer é sim. Todos queremos, de certa maneira, dizer sim, mas perdemos a nossa humanidade nisso. 

As questões abordadas no filme eram, acima de tudo, globais e não apenas locais. Na verdade, poderíamos até filmar fora de Israel, em Paris, Londres ou Nova Iorque. Depois aconteceu o 7 de outubro e isso lembrou-me que antes de falar da morte da arte tinha de falar da morte de pessoas. Na verdade, filmes cosmopolitas globais são coisa para cineasta francês realizar (risos)…

O casal que vemos no filme tem uma visão muito hedonista e competitiva da vida, do ascender a qualquer custo, sem olhar à sua volta. Isso reflete a sociedade atual?

Sem dúvida. Há um momento em que eles se beijam em frente a Gaza e, de certa maneira, sinto que todos nós nos beijamos em frente a várias Gazas. De certa maneira, é uma característica humana, o ser capaz de se divertir sabendo que existem outros que estão a sofrer. Há uma citação muito bonita num filme do Jean Luc-Godard, em que se diz que as pessoas não estão suficientemente tristes para que o mundo realmente mude. Não sou, de todo, um moralista. Não gosto de dar lições de moral e o meu filme não procura fazer isso. As minhas personagens são humanas e, quando a situação fica extrema, chega a perversão. Esta perversão existe no coração de todos nós. 

Nadav Lapid em Karlovy Vary

Uma  das características do seu filme é o trabalho visual e sonoro, repleto de rupturas e imagens e sons hiperbólicos…

Tem muito a ver com o que contamos, mas também é uma resultante das condições em que o projeto foi filmado, no meio de uma guerra que ainda está a acontecer. Bombas e mísseis caem e cada dia é uma tragédia. Todos os dias morrem pessoas, principalmente do lado de lá da fronteira, em Gaza. Sentimos que todos os dias são o último. Não existe um milímetro de distância entre o filme e a realidade. O filme está no coração da realidade. Em todos os nossos sentidos existe uma hipersensibilidade. Todos os sons explodem com um significado. São decibeis e decibeis de significado. O filme tenta explorar isso que sentimos.

Li que enquanto filmava o “Yes” tinha receio que o conteúdo do filme fosse denunciado ao Ministério da Cultura de Israel. É possível, para si, voltar a filmar em Israel? Crê que pode ser chamado de traidor ou algo semelhante?

Bem, primeiro as boas notícias. Vamos exibir o filme no Festival de Jerusalém e estarei lá para o apresentar. Não faço ideia de como será recebido, mas creio que demasiadas vezes os cineastas colocam-se na posição de vítimas. O que acontecer, acontecerá, mas neste momento o filme não tem distribuidor em Israel. Queria que tivesse, pois temos israelitas em cena, por isso os israelitas deviam vê-lo. O que posso prometer é que farei tudo o que puder para ele ser exibido no país, nem que leve as cópias de sala em sala.

É um cineasta de planeamento ou de intuição.

Creio que sou um cineasta intuitivo que planeia (risos). Sigo claramente a minha intuição, mas existe uma inconsciência do que estou a fazer.  Por exemplo, quando acabei de escrever este filme telefonei à minha produtora antes de enviar o guião, e disse-lhe que o que tinha escrito era uma espécie de comédia romântica, que esperava que não fosse demasiado doce. Claro que ela leu o guião e durante duas semanas não me respondeu. Deve ter pensado que eu era maluco. Tenho este dom. Na verdade, não tento fazer filmes loucos por natureza…

Quer provocar, mas não utiliza o choque pelo choque?

Nem sei o que é “choque” no que concerne aos meus filmes. Fiz agora a apresentação do meu filme em Karlovy Vary e, antes de mim, a pessoa do festival que estava comigo disse que a audiência ia ver um filme muito selvagem e perturbante. Quando subi ao palco, tive de dizer para as pessoas não terem medo do que iam ver e que se iam divertir. Se pensarmos bem, em metade do meu filme as pessoas estão a dançar, cantar e beijar, sim, às vezes em frente a Gaza. Creio que as pessoas vão encontrar no filme a verdade deste momento, não apenas em Israel, mas no mundo. 

Sabe, vejo muitos filmes e não entendo porque a maioria deles, mesmo de pessoas muito talentosas, são feitos. Procuro nos meus filmes que as pessoas sintam-se no final de certa forma aliviadas pela brutalidade. Eu não inventei esta brutalidade. Quando o mundo é brutal e os filmes são “seguros”, algo está errado.

Tem um novo projeto? Planeia filmar novamente em Israel ou vai filmar em Paris, como no passado? 

Tenho um novo projeto, estou a trabalhar nele e Deus sabe o quanto quero filmar em Paris.  Filmar este filme em Israel foi muito complicado. Estou exausto. Quem me dera filmar um projeto na Boulevard Saint-Germain (risos).

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