Nadav Lapid: “ver um filme numa sala é uma das maiores conquistas da humanidade”

"O Joelho de Ahed" está em exibição nas salas nacionais

(Fotos: Divulgação)

A minha relação com a minha pátria é daqueles cães que mordem a mão de quem os alimenta”, disse Nadav Lapid ao C7nema logo após conquistar o Urso de Ouro em Berlim por “Sinónimos”. Mas se achavam que as críticas ao seu país ficavam por aí, o mais recente filme do autor israelita, Ahed Knee” (O Joelho Ahmed), atualmente nos cinemas nacionais, mostra que o realizador continua a sua missão crítica, agora com um verdadeiro míssil direcionado ao Ministério da Cultura do seu país.

E as críticas começam logo no título, inspirado na ativista adolescente da Palestina que se tornou uma sensação dos Média (e depois foi presa) por enfrentar soldados israelitas em 2017, e continuam a partir de uma história pessoal que inspirou sobejamente a narrativa deste “Ahed Knee”, no qual um realizador, Y, parte para uma pequena localidade interior para apresentar o seu filme. Aí, quando ele chega, vê o Ministério da Cultura tentar controlar o que ele poderia dizer, com aquilo que chegou mesmo a ser elaborado como um projeto de lei, conhecido como “Lealdade à Cultura“). Este evento, que ocorreu em paralelo à degradação da saúde da mãe do realizador, que viria a falecer menos de um mês após o caso, levou Lapid a assinar esta obra, a qual ele considerava um “gesto urgente” contra o estado das coisas em Israel.

Foi em julho de 2021, em pleno Festival de Cannes, que conversámos com o cineasta sobre este filme e o que o move frequentemente a questionar o que é ser “um cidadão normal” em Israel.

Qual foi o momento em que decidiu fazer este filme que se sente muito pessoal e provocativo?

Este filme teve um processo criativo muito pouco usual em mim. A génese da história foi quando recebi uma chamada de uma burocrata do Ministério da Cultura de Israel. Ela era muito simpática, cativante e convidou-me para ir a uma região no deserto para o visionamento de um filme meu. No final da nossa conversa, disse-me que eu tinha de assinar um formulário onde tinha de detalhar os tópicos da discussão que iria fazer ao apresentar o filme. Se não o fizesse, estava tudo cancelado. Ela disse que não estava muito orgulhosa do que estava a pedir, mas tinha de ser. Falei com um amigo meu jornalista, o qual me aconselhou a gravar ela a dizer isso. Não o fiz, pois podia acabar com a carreira desta mulher. Assinei o tal formulário e fui lá. Este foi o início.

A inspiração veio da minha própria mãe, que estava a morrer de cancro. Eu fui para o deserto e ia-lhe mandando mensagens em vídeo um pouco como assistimos no filme. Normalmente escrever um guião leva-me um ano, ano e meio. Comecei a escrever este guião três ou quatro semanas depois da morte da minha mãe e fi-lo em duas semanas. Dez ou onze meses depois começámos a filmar. Tudo isto foi para mim um movimento, um gesto. Senti uma urgência em falar disto e, sem detalhar muito com a minha produtora, decidimos avançar com condições económicas limitadas. Priorizamos a urgência.

O seu discurso é muito ríspido para com Israel, não apenas com o Ministério da Cultura. Crê que como o cineasta que vemos no filme tem de partir ou se exilar?

Já muitas vezes tentei sair de Israel, mas sou muito ligado a ele. Saio, mas volto sempre. Vivo atualmente em Paris, mas tudo é temporário. Não me sinto exilado, pois não me sinto perseguido em Israel. Ou inseguro. Os problemas em Israel são um pouco diferentes. Há estados muito mais opressivos que Israel. Desde que sejas um cidadão e judeu, mesmo que sejas considerado subversivo, ninguém te vai mandar um café quente à cara num estabelecimento. A vida não é assim tão terrível lá, pelo contrário, é bastante agradável.

O problema em Israel, para mim, é uma dicotomia como a que vemos no filme. Ou somos uma boa pessoa e colaboramos, ou somos uma péssima pessoa em resistência perpétua, o que te conduzirá a um estado permanente de raiva e ódio. Até a escolha perfeita, o ser crítico mas sorridente, sentes que não é possível, não existe. Por isso, 99% das pessoas colaboram e o restante 1% é considerado terrível e alienado. Muitas vezes estou saturado desta ambivalência e por isso faço o que faço.

Mas este é o seu segundo filme sobre o que é ser um cidadão de Israel. Por que razão este tema é tão importante para si?

A primeira coisa é questionar se é possível ser um cidadão normal em Israel? E creio que serve para vários locais. É possível ser um cidadão normal russo? Ou brasileiro? Polaco? Como já disse, onde nos situamos, nesta posição de submissão e colaboração, e que leva outros a estarem a serem colocados como inimigo? Vivo permanentemente obcecado com o que é a alma coletiva israelita, pois ela é também a minha. A questão é como vivemos neste momento atual?

No seu cinema, que influências e referências tem?

Sinto-me um cidadão do Reino do Cinema. Creio que ver um filme numa sala é uma das maiores conquistas da humanidade. Vejo imensos filmes e antes de filmar sinto que posso ver 15 filmes por dia, não por inteiro, claro, mas pequenos pedaços deles. Vejo-me frequentemente com vários gestos cinemáticos. Creio que tenho umas 20 mil referências cinematográficas no meu cinema, mas sinto também que os filmes que faço são muito meus. Que tenho um tipo de substância que me distingue dos outros.

Além disso, também tenho como referência todos os cineastas que me afastaram dos lugares comuns do cinema quando filmo. Pensemos no famoso plano/contra plano. Para mim não é lógico que 99% dos diálogos num filme sejam filmados assim. Um fala e o outro responde. Ou um fala e o outro ouve. Às vezes cada um fala de uma coisa diferente. Existem muitos realizadores que me ajudaram a afastar-me disso, a reinventar e repensar essas convenções como o plano/contra plano

E o facto de ter ganho o Urso de Ouro em Berlim com o “Sinónimos” ajudou-o a encontrar financiamento para este filme de forma mais rápida?

Sim, sem dúvida. Mas como disse antes, creio que fizemos o filme com 1.2 milhões de euros e filmámos em 18 dias. Não vi ainda nenhum filme da competição em Cannes. Tenho a certeza que são ótimos, mas duvido que algum deles tenha sido filmado nestas condições. O triunfo em Berlim ajudou-nos na urgência de fazer este filme, de chegar rapidamente a um valor mínimo e avançar para as filmagens. Mas mais importante que o dinheiro, esse triunfo deu-me liberdade de ir mais longe e de forma mais profunda no cinema que quero fazer. E deu-me confiança no meu diálogo comigo próprio, ajudou-me a libertar os meus demónios. 

Costuma ficar satisfeito com os filmes que faz? Ou seja, e pegando neste caso específico, ficou satisfeito com tudo o que explanou no filme?

Este filme foi muito diferente dos filmes que fiz até aqui. Para mim é como quando temos aquela sensação estranha e sincera das coisas que fizemos numa noite de copos. Felizmente temos a sensação de desaparecimento da memória quando a manhã seguinte chega, mas simultaneamente tens a sensação que foste tu mesmo na noite anterior. Todo o filme para mim foi um pouco assim. Depois chegou o Covid e vi-me retido um ano com este gesto urgente nas mãos. Foi super estranho. Foi como correr 95 metros de uma corrida de 100 metros em 9 segundos e depois dizem-te que tens de esperar um ano para fazer os restantes 5 metros. Que tens de abrandar. A verdade é que este gesto teve de sobreviver ao exame do tempo.

E nesse tempo entre o filmar e o lançamento do filme, Netanyahu saiu da presidência de Israel. Sente que as coisas estão melhores?

Não sou de todo um jornalista político ou expert na matéria. O Netanyahu foi um líder terrível, mas não foi pior que os tempos e o espírito do presente que viveu. Ele foi levado por um espírito extremamente dominante que existia e ainda existe em Israel e noutras sociedades. O que temos agora é o mais velho novo governo que já alguma vez vimos.

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