Gabriel Faccini ferve no BAFICI nas águas de “Banho Maria”

(Fotos: Divulgação)

Um ano depois da vitória brasileira na competição internacional de curtas do BAFICI, uma nova produção oriunda do espaço lusófono da América do Sul impõe-se na corrida às distinções do festival argentino, que encerra neste domingo a sua 27.ª edição: Banho Maria, de Gabriel Faccini. Uma atriz em delicada interpretação — Silvana Rodrigues — e uma jovem personagem já talhada para o ecrã — Lukas Rodrigues — sustentam esta crónica sobre os poderes redentores do ócio num mundo submisso a ditaduras laborais.

O cenário central é um parque aquático, decorado com figuras de dinossauros, que funciona como uma espécie de antessala para uma liberdade provisória — uma felicidade clandestina que a protagonista descobre ao desviar-se da sua rotina profissional. Numa manhã de calor abrasador, decide faltar ao trabalho e passar o dia nas piscinas do clube. Uma criança, em dia de aniversário, interpela-a. A conversa desencadeia angústias ligadas às escolhas da vida adulta.

Numa troca de e-mails que serviu de base à entrevista seguinte, Faccini explica ao C7nema as linhas simbólicas que percorreu:

A ideia do calor, do ócio, de um dia fora do trabalho — o que representa para a construção da atmosfera e da personagem?

O realizador Gabriel Faccini

“O calor é um elemento central no filme. Procurámos representá-lo em todos os sentidos — da música à correção de cor. Banho Maria passa-se em Porto Alegre, no sul do Brasil, que, ao contrário do que muitos imaginam, tem registado temperaturas extremas nos últimos anos. Essa sensação coletiva de uma crise climática em avanço, sem solução aparente, é um dos catalisadores do filme. Por outro lado, há um outro tempo — o tempo do indivíduo. Do trabalhador que acorda cedo todos os dias, que tem contas para pagar e para quem o calor se torna mais um fator de desgaste. A curta equilibra-se nessa tensão entre escalas. Há uma melancolia inevitável, mas também uma urgência de viver. E, nesse sentido, defendemos o ócio como um gesto quase revolucionário — mesmo quando parece contraintuitivo.”

De que forma a experiência em séries influenciou a construção narrativa da curta?

“Certas restrições acabam por gerar mais liberdade criativa. A experiência em séries ajudou-me a compreender melhor a narrativa convencional, essencial numa lógica episódica, onde é preciso manter a atenção do público. Ao mesmo tempo, escrever, produzir e realizar permite-me ajustar o projeto ao orçamento desde o início. Nas curtas, abrem-se outras possibilidades — menos racionais, mais sensoriais. Posso explorar processos criativos mais íntimos, sem as exigências de projetos maiores. Isso dá-me liberdade para contar histórias à medida do que elas pedem.”

O que representou a passagem pelo BAFICI para o percurso do filme?

“Foi uma janela extraordinária. O prestígio do festival é, por si só, determinante. Buenos Aires tem uma cultura cinematográfica muito viva. A sessão onde o filme foi exibido aconteceu três vezes — uma delas numa segunda-feira à tarde, com a sala praticamente cheia. Como artista, isso é profundamente revigorante. E é interessante ver como o público se conecta com o filme, mesmo vindo de um contexto cultural diferente.”

Quais são os próximos passos de Banho Maria?

“Agora queremos estrear no circuito de festivais no Brasil e continuar a acompanhar a receção do filme. Estamos muito otimistas com o caminho que tem pela frente.”

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