Em escassos minutos, quando o protagonista desta comédia dramática argentina mostra desconforto em entrar numa cerimónia de casamento, traçamos um retrato imediato: estamos perante alguém em profundo estado de alienação, tema que acompanha esta segunda obra do cineasta alviceleste Martín Shanly (Juana a los 12).
Ainda assim, esse estado de incómodo, típico de alguém que não quer comparecer ou fazer algo, nem tem especial empatia por quem quer que seja, é talvez o momento menos nebuloso desse dia de Arturo (Shanly), um jovem que nas horas que se seguem terá um acidente de viação, quase que é atropelado e acaba por ter a sua morte social. Sim, nesse mesmo dia, 20 de março de 2020, a meros instantes pandemia Covid “fechar o planeta”.
Protagonizado pelo próprio Martín, “Arturo a los 30” anda da frente para trás e novamente para frente, numa montagem ritmada ao sabor das calamidades que se vão aglomerando na vida de uma rapaz que não tem uma relação saudável com quase ninguém. Da irmã que simplesmente o despreza, à amiga que o convidou para a festa, passando por um ex-namorado a quem carinhosamente chama de Voldemort, a vida de Arturo parece – e é – um caos.
Repleto de peripécias que lhe dão uma toada de absoluta imprevisibilidade, enquanto pelo caminho traça igualmente um retrato geracional, onde a agonia, tristeza e depressão enchem o ecrã, ainda que isso traga uma estranha melancolia, “Arturo a los 30” demonstra em si um pessimismo existencialista que nos abalroa através dos sorrisos, mas que nunca entrega as desgraças que vão acontecendo ao factor sorte/azar e ainda menos ao destino.
Ao invés, ao seu jeito, o filme mostra como muitas das dores de Arturo são auto infligidas, quer pelo aquilo que faz e a forma como se relaciona, quer pelas pessoas que erradamente escolhe para ter ao seu redor.
No final, fica assim uma dramédia de erros que se acumulam e que mais uma vez demonstra a diversidade do cinema argentino, que tanto consegue produzir obras de cunho solenemente independente, com finais infelizes, como cinema para massas, onde rir é sempre o melhor remédio para não chorar. Quanto à história em si, Shanly garante: “toda ela é pessoal, mas nada dela se passou comigo”.


















