Dupla de maior êxito do cinema portenho nos últimos dez anos, com sucesso comerciais e láureas internacionais, o duo formado pelos realizadores de humor Mariano Cohn e Gastón Duprat entrou em San Sebastián, em 2023, com um formato distinto de projeção: tiveram uma minissérie de cinco episódios exibida na íntegra como se fosse um filme. “Nada“, título do projeto dos cineastas por trás de “Competencia Oficial” (nomeado ao Leão de Ouro em 2021), é tudo o que um festival com o perfil de inclusão popular como Donostia busca, no empenho de renovar os seus vínculos com as plateias de ontem e de atrair o público jovem.
A presença de Robert De Niro em cena, falando espanhol com sotaque de NY, a misturar italiano com palavras de radical ibérico, é um chamariz para uma narrativa que se comporta como se fosse uma longa-metragem, no empuxo de 2h24 de peripécias e piadas.
Toda a excelência visual impressa por Cohn e Duprat em “El Ciudadano Ilustre” (sensação de Veneza em 2016) faz-se presente na fotografia de tons rebuscados de Alejo Maglio. Aqui, a elegância plástica é fundamental para temperar o oceano de palavras num guião de verbos e advérbios sem fim. Destinada ao catálogo do streaming, a hilária maratona de reinvenção vivida pelo crítico gastronómico Manuel (vivido por um luminoso Luis Brandoni, visto antes em “Mi Obra Maestra“) dá guinadas de aceleração na sua montagem ao se abrir para cenas em espaços abertos, sempre enquadrados de modo não convencional (mas sem exotismo) pelas lentes de Maglio.
Embora a dramaturgia vá bem próxima do perfil misantrópico da série “Curb your Enthusiasm“, o Larry Clark de Duprat e Cohn é menos caricato. Manuel é um dandi que fez de um tudo na vida e se orgulha de ter deixado a filha, hoje adulta, sem atenção para poupar a moça da sua inefável impaciência. Ganhou fama ao escrever azedas resenhas sobre pratos finos, mas também sobre sandes com salsicha ao molho de mostarda. Tem adiado ao máximo a missão de escrever um livro com as suas miradas sobre iguarias, mas vê-se forçado a reunir os seus ensaios numa coletânea para não ser processado por uma editora. Em meio a esse desafio, perde a sua fiel cuidadora, uma governanta com quem esteve por 40 anos. Mas a chegada de uma nova empregada, a paraguaia Antonia (Majo Cabrera, impecável), vai força-lo a rever todo o seu descaso pela Humanidade. De Niro vive o narrador e aparece em cena várias vezes, cheio de carisma, no papel de um romancista vencedor do Pultizer. Tal fauna de personagens torna “Nada” uma delícia.



















