Respeitado na América Latina como um estudo pioneiro da zona dramatúrgica fronteiriça entre o documentário e a ficção, “Iracema, Uma Transa Amazônica” (1974) ganha versão restaurada, nas comemorações das suas cinco décadas, e estreia esse restauro na Berlinale, na próxima segunda-feira (dia 17) numa sessão do Zoo Palast que pode ser encarada como um tributo póstumo ao ator Paulo César de Campos Velho (1940-2024), o Peréio. Era esse o seu sobrenome artístico, baseado em apelidos dos tempos de miúdo (“Nego Véio” e “Vevéio”) no Rio Grande do Sul, o seu estado natal. Sob a mise-en-scène investigativa de Jorge Bodanzky e Orlando Senna, ali pelo início da década de 1970, ele encarnou um camionista sem papas na língua (num espelho do que era na vida real), que cruzava as rodovias nas franjas da Amazónia, nos tempos da ditadura. O seu jeito irascível foi fundamental para que a produção pudesse se desenhar fora das convenções ficcionais seguidas pelo Brasil na fase de maior repressão do regime militar imposto pós-1964.
“Há 50 anos que registo a Amazónia, mas o nosso país continua a falar dela como se fosse algo dissociado de nós”, disse Bodanzky ao C7nema, na Mostra de São Paulo de 2022, pouco antes de “Iracema” fazer 50 anos, contemplada com um processo restauração realizado na Alemanha sob a coordenação técnica de Alice de Andrade, com o apoio do CTAV, Mnemosine, IMS, PUC Rio, Instituto Guimarães Rosa e da Cinemateca Brasileira.
Numa entrevista ao C7nema, quando exibiu um de seus últimos filmes, “Amazônia, a Nova Minamata?”, Bodanzky apontou que algumas das contradições geopolíticas que flagrou na experiência com Senna, protagonizado por Peréio, parecem ainda ativas:
“A Amazónia é o Brasil. E é um pedaço grande, com muitas diferenças em suas áreas. Há um perfil nas grandes cidades e outro perfil nas pequenas vilas do interior”.
Tratada como clássico, “Iracema” entrou na Berlinale nº75 a integrar um conjunto de doze filmes brasileiros e três séries nacionais, radicado na seção Forum Special, sob a curadoria de Barbara Wurm. Na trama, a adolescente indígena Iracema (Edna de Cássia) deixou a família e mal consegue sobreviver a trabalhando como prostituta na cidade de Belém do Pará. Na labuta do sexo pago, ela conhece Tião Brasil Grande (Peréio, monumental em cena). Não há um pingo de modos em Tião, um tipo inescrupuloso e falastrão que faz apologia do Milagre Económico apregoado pelos generais no Poder, nos anos 1970. Ele leva Iracema on the road com ele, numa jornada de múltiplos prazeres e injustiças sociais.

Mitificado pelas suas peripécias engraçadas nos bastidores e pela sua rotina atribulada por vários excessos, Peréio passou pela Berlinale à frente de múltiplos filmes entre 1964 e 2015, com destaque para “Os Fuzis”, de Ruy Guerra, que ganhou o Prémio Extraordinário do Júri em meio à génese do Cinema Novo, na primeira metade da década de 1960. Foi visto há dez anos, pelas telas da seção Panorama em “Sangue Azul”. Este ano, nas salas de exibição do Brasil, ele vai ser visto na carreira comercial de “Brizola – Anotações Para Uma História”, documentário de Silvio Tendler no qual fala. Este mês, ganhou ainda uma homenagem póstuma da Associação de Críticos do Rio de Janeiro (ACCRJ), pela sua relevância para o audiovisual de língua portuguesa.
Nos sets, Peréio usava e abusava da fama de peralta que conquistou (e cultivou) depois de dar trabalho para muita, mas muuuuita gente. Um aposto sugestivo – “o homem que foi expulso de uma suruba [orgia] por mau comportamento” – acompanhava a estrela do blockbuster “Eu Te Amo” (1981) em seus porres, suas brigas insólitas, suas imposturas, mas, sobretudo, nas suas incursões sempre dionisíacas nos palcos, na TV e (sobretudo) no grande ecrã.
Nesta sexta-feira, o Brasil passa pela Berlinale fora de competição com a nova longa-metragem da paulista Anna Muylaert. Ela volta ao festival, dez anos depois de ter exibido “Que Horas Ela Volta” (2015) por lá, para lançar “A Melhor Mãe Do Mundo” em solo alemão. Com ecos de “A Vida É Bela” (1998), a trama é protagonizada por Gal (Shirley Cruz), uma catadora de materiais recicláveis que luta para escapar da violência do marido Leandro (Seu Jorge). No empenho em fugir dele, ela coloca os seus filhos pequenos na sua carroça e atravessa a cidade de São Paulo. Pelo caminho, enfrenta os perigos das ruas enquanto tenta convencer as crianças, Rihanna e Benin, de que estão a viver uma aventura em família.
A Berlinale 2025 segue até o dia 23 de fevereiro.

