Fala-se em script-tease para definir a arte da análise dramatúrgica, a partir da divisão em atos nos quais — sob bases aristotélicas — se desenrola a jornada de um herói. O Ato III, um ascensor para o cadafalso da redenção, é o que mais intriga o processo criativo de Marton Olympio, artesão das estruturas do que no Brasil se chama roteiro e a que por cá chamamos guião. No currículo, uma série nomeada ao Emmy (Anderson Spider Silva) e filmes inscritos no thriller social (Alemão 2). O desejo de realizar transformou-se em horizonte artístico para este carioca da Zona Norte, natural do bairro Marechal Hermes, que apresenta no Festival do Rio um novo exercício como cineasta: Memórias com Vista para o Mar. A sessão decorre esta segunda-feira, às 19h (22h em Lisboa), no Estação NET Botafogo 1, em programa conjunto com As Vitrines, de Flavia Castro. A sua linha temática desenha-se na fronteira entre o real, o alegórico e o místico, em diálogo com os saberes ancestrais de povos africanos.
Entre o terror do esquecimento (associado ao Mal de Alzheimer) e a sublimação através de rituais centrados nos elementos da Natureza, Memórias com Vista para o Mar é um espasmo de invenção que confirma a memória como músculo da imaginação. Marton Olympio, sempre a celebrar a sua descendência africana, imprime latinidade nas veias e nas entrelinhas dos seus guiões. Em poucos segundos de filme, a invenção que preenche lacunas do não vivido mistura-se com evocações, com entidades (ou rastos delas) a manifestarem-se onde deveria existir uma espiritualidade consolidada. Mas o corpo cansado já não sustenta o futuro. A saída: o delírio — ou aquilo que o delírio abre, uma porta para dimensões onde as energias vibram para além das leis da Física.
Numa sinopse convencional, poder-se-ia dizer que Marton acompanha o calvário de Félix, pintor de 80 anos (José Araújo, num desempenho comovente), que foge de um lar de idosos e encontra abrigo num banco à beira-mar. As ondas despertam memórias e revivem momentos de um passado imperfeito, incluindo a relação com o filho. O elenco (Andrea Rodrigues, André Ramiro, Dani Ornellas, Hamilton Dias e Araújo) sustenta esta investigação metafísica, montada por Karen Black numa edição atenta ao simbolismo e à poesia.
Na álgebra do Candomblé, corpos distintos podem ocupar o mesmo espaço, permitindo a alguém “virar no santo”, incorporar Oxum ou Zé Pilintra. A maternidade surge como signo de passagem entre mundos — o terreno e o sobrenatural — num reflexo das águas. A fluidez inspira Marton Olympio a arriscar uma dimensão musical, polifónica, lembrando o gesto de Paul Thomas Anderson em Magnólia (Urso de Ouro, 2000). Aqui, o canto ritual oscila entre reza e celebração dionisíaca, evocando a sabedoria de Nietzsche, para quem as estrelas bailarinas prenunciam o eterno retorno: o instante em que pai vira filho.
Há momentos ruidosos — uma cena de retratos sufocada pela trilha sonora — mas também um André Ramiro em plena maturidade. E, sobretudo, há um cineasta em busca de voz própria. Uma voz que ecoa fundo.
Memórias com Vista para o Mar terá nova sessão a 7 de novembro, no Cinesystem Belas Artes, às 21h15.

