Entre os filmes que chegam a San Sebastián cercados de expectativa, The Man I Love é, desde a abertura do festival, na manhã desta sexta-feira, provavelmente o mais comentado — e não apenas por aquilo que Ira Sachs coloca no ecrã. O realizador norte-americano preside ao júri desta edição, circunstância que inevitavelmente lança uma luz particular sobre o seu novo trabalho. Há, porém, uma ironia produtiva nesse protagonismo: se Sachs está no centro das atenções institucionais do festival, o seu filme parece interessado justamente no que existe à margem, nos corpos, desejos e afetos que sobrevivem quando o futuro já não se apresenta como promessa.
A melhor tradução para o experimento sensorial que atesta a maturidade criativa de Ira Sachs na ficção talvez venha de um poema, da autoria de António Carlos Secchin, chamado “Noite na Taverna”: “Crepúsculo, vinho, hemorragia:/ vai vermelha a voz da poesia. / A vida só vale o intervalo/ entre início e meio de um cigarro”. Assim é Jimmy George, performer na Nova Iorque dos anos 1980 que entra e sai de hospitais, quase morreu duas vezes, toma quilos de comprimidos e fuma como se o futuro já não fosse o que era antigamente. Rami Malek empresta a Jimmy a profundidade de um oceano ao voltar ao universo queer sete anos depois do Óscar recebido por Bohemian Rhapsody. Trabalha com a garganta, assumindo uma dimensão de ave canora surpreendente, como um ator e cantor com alma de diva da cena teatral norte-americana dos anos 1980. Viver com HIV é um tormento que ele não disfarça, mas entorpece vivendo paixões também doentes. Luther Ford, no papel do vizinho Vincent, é o extremo de arame farpado no qual os abraços se transformam em abrigos antiaéreos.
Ira Sachs havia alterado o seu estatuto na progressão aritmética da autoralidade com O Amor É Estranho (2014), abalroando o etarismo e as descobertas hormonais da adolescência de um só golpe. Foi competir em Cannes pela primeira vez em 2019, com Frankie, investigação de um lado antropológica, do outro existencialista, por Portugal, com Rui Poças a fotografar o seu discurso acerca das patifarias do Cupido. Numa trajetória de belos estudos da arquitetura sentimental contemporânea — a destacar o sucesso Passages —, esse Walt Whitman de Memphis encontrou no brasileiro Maurício Zacharias o escriba perfeito. Deu-se o match entre a câmara de Sachs e o trabalho de diálogos de Zacharias.
Em The Man I Love, as palavras entram menos expositivas, a não ser quando Rebecca Hall está em cena, a chorar pelo calvário de Jimmy. No cômputo geral, o que se vê é um filme de atmosfera sensual, embora crepuscular, sobre um artista que se recusa a agonizar e se agarra de modo dionisíaco a cada dia: amando, gozando, fazendo inconsequências, desfilando as suas lembranças e cantando.
As sequências de ensaios beiram um realismo documental, ao mesmo tempo que as imagens dos clubes gays que ele frequenta são retratadas na estroboscópica esfera da imersão sinestésica. Tom Sturridge, o Lorde Morpheus da Netflix em Sandman, tem o seu quinhão de glória ao lado de Malek, na figura de um companheiro que tenta conter o ímpeto destrutivo do seu amado.
Outro poema parece explodir no olhar da plateia diante das imagens de cores terrígenas — ou talvez sanguíneas — da direção de fotografia da canadiana Josée Deshaies. É um poema de Pier Paolo Pasolini (1922-1975) que peita a finitude ao perguntar: “Ir embora é fugir?”
San Sebastián chega ao fim no dia 26.

