Cenário e lar de filmes seminais do cinema brasileiro, como “Azyllo Muito Louco” (1970), a cidade de Paraty, situada a cerca de quatro horas e meia do Rio de Janeiro, renova agora os seus votos com o audiovisual ao promover um festival de cinema que aposta em formatos de género variados e num sortido de marcas autorais. A sua programação apostou em realizadoras consagradas, de gerações diferentes como Lúcia Murat (em concurso com “O Mensageiro”) e Susanna Lira (no evento com “Fernanda Young – Foge-me ao Controle”), ao mesmo tempo que serviu de pré-estreia para uma dramédia repleta de humor que se candidata ao sucesso popular em solo brasileiro: “De Pai Para Filho”, de Paulo Halm. É uma trama de doçura, já aplaudida antes no Festival de Petrópolis, em novembro, que estreia comercialmente esta quinta.  
Considerado um dos maiores roteiristas do Brasil, com vasta experiência em telenovelas de êxito popular, como “Bom Sucesso” (2019) e “Totalmente Demais” (2015), escritas em duo com Rosane Svartmann, Halm afirmou o seu nome como realizador com a curta “O Resto É Silêncio” (2003), sensação do Festival de Gramado. Com montagem assinada por montagem do também cineasta Eduardo Nunes (“Cinco da Tarde”), o seu doce “De Pai Para Filho” conversa com uma série de comédias dramáticas e românticas das décadas de 1980 e 90, sobretudo o filme de culto “Say Anything” , com John Cusack.

Realizador de “Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos” (2009), Halm surpreendeu Paraty com uma trama regada a romance e amizade, com direito a um fantasma ligado aos antigos espíritos do B-Rock. A personagem principal, o comerciante José (vivido com requinte por Juan Paiva), é dono de uma loja de ferragens em Araraquara (no estado de São Paulo) e vai aprender o que é a paixão no sorriso de Dina (Miá Mello, digna da Ellen Burstyn de “Alice Doesn’t Live Here Anymore”). Com uma ajudinha do Além (ou seria de sua imaginação), José vai aprender que um abraço paterno pode ser um belo de um abrigo, no carinho (espectral) de Machado, o Gasparzinho roqueiro vivido por um Marco Ricca com ares de Bill Murray.

Fotografado com luzes dionisíacas por Alex Araripe, o filme é um estudo sobre lutos que se aconchegam nas mínimas brechas que, sem saber, abrimos para a Perda. Na trama, José é forçado a sair de Araraquara e vir para Copacabana. Ele se desloca a fim de vender um apartamento que recebeu como herança de Machado (Ricca, um ímã de lágrimas e risadas a cada fala). Ao pisar no prédio onde pai viveu, ele descobre que o finado tecladista e compositor – que aparece para ele como uma entidade fantasmagórica – dava aulas de piano para a menina Kat (Valentina Santos Vieira). Órfã de pai, Kat tenta ajudar a mãe, Dina (Miá), a encarar a dor do luto. A presença de José, com seu jeito de Jack Lemmon em “The Apartment” (1960) – mérito da madura atuação de Paiva -, leva a menina a enxergar no vizinho um bom partido para sua mãe. É daí que começa um esboço de paixão que, minuto a minuto, dá vez a uma cartografia sentimental de almas alquebradas por ausências que não voltam. Vale destaque a participação de Thiago Fragoso (como pai de Kat) e ao desempenho do casal alto astral vivido com humor por Fabrício Santiago e Pablo Sanábio.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
de-pai-para-filho-reinacoes-e-reinvencoes-do-lutoFotografado com luzes dionisíacas por Alex Araripe, o filme é um estudo sobre lutos que se aconchegam nas mínimas brechas que, sem saber, abrimos para a Perda.