Programada para ser exibida na RTP2 no próximo domingo, 9 de agosto, pelas 22h00, Pê marcou a estreia da atriz Margarida Vila-Nova na realização de curtas-metragens, um trabalho extremamente pessoal, que partiu de uma carta real deixada pelo Pai, Pedro Martins para construir uma ficção íntima sobre luto, memória e despedida.
Estreado em 2022 no Curtas Vila do Conde, Pê acompanha um homem com cancro terminal que atravessa Lisboa enquanto prepara a própria morte e escreve uma carta à filha. Ao encontrá-la, já depois de esvaziar a casa do pai, essa filha inicia um novo encontro com ele, feito por entre palavras, objetos e memórias.
Em conversa com o C7nema em Vila do Conde, já lá vão quatro anos, a atriz e realizadora falou da passagem para trás da câmara, da perda, do cinema e da descoberta de uma nova forma de filmar.
Há uns anos, quando falámos a propósito do Amor Amor, perguntei-lhe se havia o desejo de passar à realização. Na altura, falou de um documentário que tinha na cabeça. O que mudou entretanto?
Acho que há ideias que, ao longo da vida, nos assaltam, ideias sobre as quais gostaríamos de pensar, discutir e ir ao fundo da questão, ou pelo menos transformá-las noutro plano. Esse documentário ficou a namorar-me durante algum tempo na cabeça, mas nunca tive a ousadia ou a coragem de dar esse passo.
Também teve a ver com as circunstâncias pessoais e profissionais em que me encontrei neste último ano de vida. Senti-me preparada para dar esse passo. Esta ideia surgiu há precisamente três anos, quando li esta carta que me foi deixada e tive vontade de a transformar numa curta-metragem.
Durante dois anos, as imagens iam e vinham. No meio disso, filmei, fiz peças de teatro, fiz séries. Depois, no verão passado, quando os apoios da Direção-Geral das Artes estavam abertos, houve a possibilidade de concretizar. Podemos sonhar com os filmes, mas depois há um lado prático de querer concretizá-los.
Tenho a felicidade de colaborar e trabalhar há vários anos com o Edgar Medina, da Arquipélago Filmes. O Edgar escreveu, juntamente com o Ivo Ferreira, Cartas da Guerra e Hotel Império. Já temos um passado de colaborações em vários projetos, nomeadamente Sul, Causa Própria e a Matilha.
Eu tinha partilhado com ele esta ideia de transformar a carta numa curta. Tinha imagens na cabeça, sabia como começar a desenhar um percurso para o filme, uma possibilidade de dramaturgia em torno da carta: como adaptá-la, como transformá-la, qual seria a forma de a abordar. Mas depois era preciso concretizar. E um dos grandes responsáveis por isso foi o Edgar Medina, que me encorajou e produziu esta curta-metragem comigo.

Foi importante perceber que queria, de facto, filmar?
Sim. Acho que podemos acumular muitas coisas na vida. Não temos de fechar os nossos desejos, os nossos impulsos, nem estreitar ou afunilar os nossos percursos profissionais. Podemos fazer muitas outras coisas paralelamente.
Foi assim que surgiu esta vontade, ou esta oportunidade, de realizar este filme. Foi um lugar onde me senti muito bem, muito feliz. Foi muito importante para mim perceber que era feliz a filmar e que gosto do facto de trabalharmos numa equipa, de cada setor acrescentar forma, cor e luz a cada imagem que está na minha cabeça.
Cada palavra é potenciada, ou são acrescentadas outras, por cada elemento da equipa com quem estava rodeada. Tinha uma equipa de luxo, maravilhosa, desde a direção de fotografia à direção de arte, figurinos, make-up, e um elenco extraordinário.
Foi um lugar em que me senti bem e no qual gostaria de trabalhar noutros projetos no futuro. Não quer dizer que deixe de ser atriz, nem que me tenha tornado realizadora.
Muitas atrizes que passam à realização dizem: “sou uma atriz que realiza filmes, não uma realizadora”. Sente-se assim?
Acho que sim. Percebi uma coisa: sofre-se a representar e não se sofre a realizar. E pensei: porque passei tantos anos a sofrer?
Quando estou a trabalhar como atriz, sofro. Fico a pensar durante muito tempo, mesmo depois de um projeto terminado, que aquela cena devia ter sido feita antes, ou abordada de outra forma. Ainda que eu viva bem com o erro, porque acho que é o erro que nos faz encontrar um lugar mais próximo de uma verdade. Não digo da verdade em si, mas, se tentarmos fazer tudo certinho, não nos permitimos ir tão longe quanto poderíamos.
É na descoberta e no erro que nos vamos reinventando, redescobrindo e encontrando novos lugares. Mas, ao representar, as cenas e as personagens continuam a viver na minha cabeça. Aquela ideia de levar a personagem para casa… Não levo nada da personagem para casa. Gosto de estar com a minha família, com os meus amigos, gosto de fechar os processos. Mas o certo é que nunca resolvo as cenas ou as personagens até ao fim, como se os processos nunca ficassem verdadeiramente concluídos.
Fico ansiosa, insegura, encostada. Cada personagem, cada desafio, são lutas permanentes. E sim, sofro. Ainda que depois seja muito feliz a fazer o que faço. O plateau é sempre um lugar que me traz felicidade. É como se me sentisse em casa, num porto seguro, ainda que seja muitas vezes um terreno pantanoso e cheio de dúvidas.
A realizar, não sofri. Claro que posso estar preocupada porque o tempo está a acabar, porque vou ter de abdicar de um plano, porque a luz vai cair, porque talvez não haja dinheiro para fazer a cena daquela forma, porque um ator não pode, porque um décor não é possível. Há muitas decisões a tomar e muitas escolhas a fazer. Mas não vejo isso como um problema. Procurei uma solução para cada desafio e não sofri atrás do monitor. Pelo contrário, acho que aquela semana foi uma das mais felizes da minha vida.
E houve também um lado de decisão, de recuperar o controle?
Sim, há um lado de empoderamento, de decisão. Tenho uma equipa inteira a trabalhar para tornar possível uma imagem que tenho na cabeça. Não me sinto sozinha nesse processo, porque estou em concordância com cada setor, mas ao mesmo tempo sinto que tenho uma decisão e uma palavra sobre cada escolha. Isso é muito engraçado.
Na minha vida pessoal, faço tudo em função do bem-estar dos outros. E, de repente, a vida e as circunstâncias colocaram-me neste outro lugar.
Como foi para a realizadora trabalhar com a atriz que também estava em cena?
Numa primeira abordagem do argumento, nem sequer considerei haver uma filha no filme. Só existia o pai. Interessava-me o ponto de vista deste homem, seguir o olhar dele. Mesmo as personagens secundárias estão muitas vezes ao serviço da ação. É sempre através do olhar deste pai que vamos descobrindo cada questão, cada tema, cada conflito.
Mas, a dada altura, numa das discussões de trabalho, surgiu a questão: como é que queremos entender estas duas personagens sem colocar a filha presente? Eu tinha um pudor gigante de me filmar a mim própria. Não queria, ainda não me imaginava confortável.
Primeiro, considerei filmar apenas as minhas mãos ou as minhas costas. Depois também não fazia muito sentido chamar alguém para fazer de mim própria. Acabei por pensar de forma pragmática: esta personagem tem uma função no filme, serve uma ação, uma cena, um propósito.
Pedia à pessoa que estava no plateau, que tinha mais ou menos a minha altura, para fazer o ensaio por mim. Percebia o movimento, se era mais para a direita ou para a esquerda, se entrava mais dentro de campo. Depois ia lá e repetia. Portanto, não me dei muitas indicações a mim própria.
Às vezes pergunto-me se devia ter estado mais implicada no filme. Poucas vezes percebemos o que se passa naquela cabeça, naquele olhar. Agora, vendo de fora, às vezes questiono-me se devia estar mais ou menos implicada. Mas queria manter uma certa elegância, uma certa dignidade. Não queria um filme aos berros, não queria uma choradeira, não queria uma coisa exploratória. Isso seria outro filme, outra história: como ficou a filha depois de receber aquela carta.
Tratando-se de um filme com origem pessoal, como se cria distância entre a história íntima e a ficção?
Tinha de criar uma ficção. Podia ter filmado de muitas formas: um homem sozinho em casa, a escrever uma carta do princípio ao fim, sem nunca sairmos de casa. Mas havia também uma coisa de memória. Interessava-me explorar e trabalhar a memória.
Isso está na forma como o filme é filmado: os detalhes, os slides, as fotografias, os álbuns, o toque das mãos. Às vezes não nos lembramos do que conversámos, mas lembramo-nos do vestido que trazíamos ou do anel que vimos. Interessava-me filmar essa memória do detalhe.
O que me fascinou na carta, e me fez pensar que ali havia uma personagem e um filme, foi o lado altruísta de alguém que se está a despedir da vida, alguém que está a preparar a própria morte. Não foi jogar para um casino, não foi dar a volta ao mundo. Organiza a sua despedida como uma última missão, para deixar a vida mais facilitada aos outros.
Esta carta podia ter sido uma conversa que não chegámos a ter. E este filme é, de certa forma, uma resposta a essa carta. Ou uma forma de a transformar. Acho que a arte, o cinema, a pintura, o teatro, têm essa capacidade de elevar ou perpetuar memórias, histórias, emoções, lutos, perdas, paixões, e de as transformar num objeto maior.

Há também no filme uma relação com a memória familiar, algo muito presente no cinema português.
Sim. A ficção foi criada a partir das memórias que eu tinha desta pessoa: gostava de ir às livrarias, gostava de almoçar fora, tinha esta coisa dos restaurantes, das pessoas à volta, de observar os outros. Era uma pessoa de outro tempo, sem pressa, sem urgência.
A partir dessas memórias, fui construindo uma ficção. Mas nunca quis uma caricatura. Não quis representar a doença. Não quis cabeças rapadas, nem make-up que desse ar doente. Queria fugir exatamente disso.
Houve muitas conversas com o Adriano Luz. Havia também muitas coisas que o meu pai tinha deixado escritas, pensamentos dele, que partilhei com o Adriano para pensarmos como as queríamos abordar. Há um estado da vida pelo qual ele passou, há uma aceitação, há uma zanga. E, dentro daquilo que fui partilhando das memórias que tinha e do que ele tinha deixado, fomos procurando a forma de abordar tudo isso.
A questão do luto foi decisiva?
Sim. O luto foi uma coisa que me inquietou. Desde pequena, a questão da morte sempre me atravessou muito: como é que vou morrer? O que é que vou dizer? De quem é que me vou despedir? O que é que não posso deixar por fazer?
Acho que o tempo e a idade me apaziguaram. Estou um pouco mais madura em relação a isso. Mas continua a preocupar-me deixar as coisas por resolver, por exemplo para os meus filhos. Assisti a questões de partilhas, heranças, chatices e burocracias deste país. Isso é transversal a todas as famílias.
Cada vez mais gostava de não perder tempo na vida com coisas que nos consomem energia, que nos cansam, nos envelhecem, nos entristecem, nos tornam rancorosos e amargos. É de tudo isso que quero fugir. Vivi muito no futuro, sempre ocupada com o amanhã. Agora quero viver o agora.
O filme ajudou-a a conhecer melhor o seu pai?
Sim. Acho que hoje conheço melhor o meu pai do que conhecia há três anos, quando o perdi. E isso foi este filme que me trouxe.
Cada vez que leio a carta descubro coisas novas. Há momentos em que estamos mais preparados para ler umas coisas do que outras. A forma como vejo aquelas palavras já me transporta para outro lugar, traz-me outras questões, outras soluções, outro pensamento, outro ponto de vista.
Depois há os álbuns de fotografias, os escritos, os livros que foram deixados. Vamos conhecendo um pouco mais aquele homem através dessas memórias, que tentei trazer para dentro do filme.
Mas, acima de tudo, a premissa é simples: um pai que deixou uma carta a uma filha. Haverá outro pai, noutro sítio, noutro tempo, que deixou outra carta; haverá um pai que nunca deixou carta; haverá um filho que se vai identificar, que gostaria de ter recebido uma carta ou de deixar uma carta. O luto e a relação entre pai e filha são questões universais. Acho que, quanto mais particular se torna uma história, mais longe conseguimos chegar.
A partir desta carta, desta estrela polar, fui construindo a narrativa.

