Com base na Antropologia da Imagem, o teórico de análise de dramaturgia José Carvalho, um brasileiro radicado na cena universitária de Lisboa, usa o termo “herói do rendimento” para traduzir as personagens em fricção laboral como a dupla de protagonistas do tocante filme indiano “Homebound“. A expressão é relativa à literatura do século XIX, alicerçada em “Germinal” (1885), de Émile Zola (1840-1902), relativa a tramas nas quais trabalhar é igual a sobreviver, numa dinâmica à moda Marx, de luta de classes. Enredos de tal ordem se registam na triagem das explorações capitalistas que oprimem a dignidade e engordam o instinto de indignação. Ken Loach instaura-se em tal toada, vira e mexe, como exemplificam “It’s A Free World” (2007) e “Sorry We Missed You” (2019). Essa linhagem ganha as tintas culturais do norte da Índia na longa-metragem de Neeraj Ghaywan exibida na reta final de Cannes, na mostra Un Certain Regard.

Unha e carne desde os bancos do liceu, Chandan Kumar (o ótimo Vishal Jethwa) e Mohammed Shoaib (Ishaan Khatter) são o norte de “Homebound“. A covalência da amizade é plena entre eles, numa lealdade inquebrantável. O companheirismo que os aproxima – e jamais chega a ser arranhado, nem com a pandemia da covid-19 – é o eixo afetivo que areja a frequência etnográfica da ficção de Neeraj. Dez anos atrás, a própria Un Certain Regard premiou-o por “Masaan” (2015), que era mais estilizado na forma.

A volta dele à Croisette lavra o arado do “heroísmo do rendimento” com sementes de melodrama. A filtragem do excesso no uso da cor e a incorporação de recursos de vídeo (de smartphone) diluem os arroubos folhetinescos e asseguram sobriedade a uma cartografia da perseverança. Sem nada no bolso, Chandan e Mohammed têm a ambição de prestar prova para a polícia para ganharem a vida com a farda da Lei. Uma série de percalços atrasam os planos de ambos, que são forçados a buscar empreitadas variadas. Chandan é quem mais sofre, pois a sua eficiência é desprezada por chefes que, fiéis à lógica das castas, preferem humilhar o rapaz.

O coronavírus será um desafio a mais para ambos, num trecho robusto da fita dedicado ao desemprego gerado ao longo dos meses de confinamento nas zonas periféricas da Índia. O contágio da doença não separa os dois grandes amigos. Os problemas só tonificam o bromance deles no belo ensaio sobre aliança que “Homebound” é.

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Rodrigo Fonseca
homebound-heroismo-do-rendimentoO termo "herói do rendimento" traduz as personagens em fricção laboral como a dupla de protagonistas do tocante filme indiano "Homebound"