Figura frequentemente presente no Festival de Berlim, onde já saiu premiado múltiplas vezes, Denis Côté saiu surpreendido da primeira sessão da Berlinale do seu mais recente projeto, “Paul”. “Estou em choque”, disse ele, em jeito de brincadeira , ao C7nema, horas depois da primeira exibição do seu documentário sobre uma figura das redes sociais que sofre de ansiedade e que combate isso através de submissão pera um vasto conjunto de mulheres.
“É bizarro e podes até ser o meu psicoterapeuta para entender o que vou dizer”, explicou o cineasta canadiano entre risos: ”A maioria dos meus filmes são amados e odiados nos extremos. O caso aqui é que o Paul é o Paul e, todo o filme, é o Paul. Ele é adorável, tocante e tem tudo o que representa 2025: ansiedade, depressão, BDSM e a obsessão com o Instagram. Nisto, ele está na frente e eu atrás de tudo, como realizador. Tenho o meu ego e quero que as pessoas vejam que este é um filme do Denis Côté (risos).” Prosseguindo que na estreia as pessoas adoraram e nunca tinha visto assim “uma energia na Berlinale”, Denis ouviu gritos na sessão e viu pessoas a saltarem para o palco para falarem com o Paul. “A sessão de perguntas e respostas teve demasiada procura…não estou habituado”, explica, acrescentando que o diretor de fotografia com que habitualmente trabalha,, ainda gozou com ele: “Hey Denis, fizeste um crowd pleaser (risos). Hey, pára tudo. Sou o Denis Côté, um autor hardcore. Não faço crowd pleasers.”.
Acompanhando a vida de um homem que luta contra uma grave ansiedade social e que interage principalmente online e se sustenta com um emprego como empregado doméstico para dominatrixes, Denis regista tudo da forma mais normal possível, evitando julgamentos. Essa potência, de retratar com normalidade e de forma digna um modo de vida “alternativo”, conquistou a audiência, gerando nele múltiplas reações de estranheza. “Normalmente, quando venho aqui, por exemplo na competição, o filme estreia, há umas palmas e surgem as críticas, ora muito elevadas, ora muito baixas. Mas desta vez estou a receber tanto amor que não estou habituado.”
Assumindo que na sua mente nunca esteve em cima da mesa fazer um filme “acessível” ao público, Côté narrou a génese do projeto: “Fiz o transplante de um rim e um pouco antes disso estava a namorar com uma mulher que estava sempre a falar do Paul. Perguntei quem era essa pessoa e ela explicou que conseguia, quando queria, uma boleia de Paul, pois é um tipo submisso que lhe dava prendas ou pagava café. Pedi mais detalhes e ela explicou como o conheceu através de uma dominatrix. Lembrei-me de um filme que fiz com bodybuilders, “A Skin So Soft”, principalmente porque sentia que estava a caminhar numa linha muito fina a caminho do exploitation, e excitava-me o facto de fazer um filme que não queria o voyeurismo. Por outro lado, sou um bocado obcecado com o Ulrich Seidl, alguém que quando faz algo mal, faz mesmo mal. Mas quando ele é interessante no que faz, caminha sempre por essa linha ténue. Juntando isto, olhei para o Paul e pensei em filmar o seu estilo de vida alternativo.”

Depois disso e juntamente com o diretor de fotografia, Denis convidou Paul a ir a sua casa e contar a sua história. ”Ele não fala com homens, mas aceitou o convite porque quer ser famoso”, explica, refletindo sobre o que encontrou pela frente. “O que encontrei foi alguém muito inteligente. Alguém que sabe o que faz, não tem pena de si e conhece as suas manias. Os seus lugares seguros são com as mulheres ao seu redor. Tinha de explorar isto. Com o meu diretor de fotografia ouvimos o que tinha a dizer, mas não ficámos chocados nem surpreendidos. Quisemos fazer o filme e seguir o Paul, tentando tornar a sua história tão normal como possível, sem julgamentos. Comecei por procurar estas mulheres, para saber a sua relação com o Paul, e combinei com elas estarmos lá os dois a filmar a normalidade dos seus dias. Claro que pensei se estávamos a ser exploratórios e voyeurísticos em relação a ele, mas descobri que há todo um jogo de exploração, mas com consentimento. Eu exploro alguém porque quero fazer um filme. Ele explora-me porque quer ser famoso. Elas filmam as suas atividades com ele e põem nas suas contas do Onlyfans.”
Já a trabalhar num novo filme de maior orçamento, que começa as filmagens em agosto, Denis Côté diz que move-se muito pela intuição e que o cinema que faz e a quantidade de obras que assina refletem a vida que leva, completamente dedicada à 7ª arte. “Não sou casado, não tenho carro ou carta. O que tenho é o cinema. Ou vejo filmes ou realizo-os. O cinema é a minha vida”.
O Festival de Berlim prossegue até ao dia 23 de fevereiro.

