É Tudo Verdade na obra de Vladimir Carvalho

(Fotos: Divulgação)

Imortalizado com a escolha do seu nome para (re)batizar uma das salas de projeção de maior importância do Distrito Federal (capital do Brasil) e com um painel no circuito Estação (no Rio de Janeiro), Vladimir Carvalho (1935-2024) vai receber uma homenagem póstuma do festival É Tudo Verdade (3 a 13 de abril), com uma retrospectiva das suas longas-metragens. Considerada a mais prestigiada montra latino-americana de não ficção, o evento será realizado de 3 a 13 de abril, no Rio e em São Paulo, com 85 produções de 30 países, entre elas Holding Liat (“Esperando Liat”), de Brandon Kramer, vencedor do troféu de Melhor Documentário na Berlinale 2025. A seção dedicada a Vladimir vai projetar O País de São Saruê (1971); O Homem de Areia (1981); O Evangelho Segundo Teotônio (1984); Conterrâneos Velhos de Guerra (1991); Barra 68 – Sem Perder a Ternura (2000); O Engenho de Zé Lins (2006); Rock Brasília – Era de Ouro (2011); Cícero Dias, O Compadre de Picasso (2016); e Giocondo Dias – O Ilustre Clandestino (2019).

Nunca vi o cinema como expressão de um deleite próprio e, sim, como um instrumento de reação, como um veio de participação na sociedade que nos leve à mudança”, disse Vladimir ao C7nema, meses antes da sua morte, em 24 de outubro de 2024.

Partiu aos 89 anos. Deixou uma obra repleta de filmes de culto, alvo de dissertações e teses em universidades de diferentes cantos do país natal, a começar pela Paraíba, estado onde nasceu, na cidade de Itabaiana. Presentou o audiovisual da sua pátria com um de seus mais aclamados diretores fotografia: Walter Carvalho, de quem era irmão mais velho. Vladimir criou Walter, quando eles ficaram órfãos de pai e aplicou-lhe Bob Dylan e a poesia de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), num estímulo à formação artística do mais novo.

Jornalista e professor, Vladimir integrou a equipa do clássico Aruanda, de Linduarte Noronha (1930-2012). Passou à condição de realizador ao pilotar os planos de A Bolandeira (1968). No sertão da Paraíba, as chamadas “bolandeiras”, rústicos engenhos de madeira que fabricam mel e rapadura, operados por tração animal e humana, subsistem, mas tornam-se cada vez mais raros, substituídos por equipamentos mais modernos, a motor. Um modo de vida que cercava aquele engenho do passado está fadado a desaparecer. Essa curta seminal de Vladimir fala sobre essa desaparição. O seu tema, de costume, era a erosão de antigas práticas, o que ele abordava sempre de forma discreta, vide a sua abordagem recorrente às falências (e resiliências) utópicas.

Luto sempre para que o cinema reaja ao que está aí. Em momentos de guerra, o cinema serve como um veio para expor as relações da sociedade com o Poder. Mesmo naquelas narrativas em que a pesquisa de linguagem prevalece, é preciso que haja uma reação. A poesia nasce daí”, explicou o cineasta ao C7. “Todos os filmes nascem de uma conjuntura. Qualquer material que caia na minha mão, e me sugira que ali possa haver um filme a ser feito, leva-me a uma reflexão para que eu não aceite o que me é dado sem refletir sobre o seu sentido e sobre sua conexão com a realidade conjuntural ao nosso redor. Essa reflexão leva-me à pesquisa, a consultar livros, a ouvir outras pessoas, a mergulhar e outras fontes. O cinema que faço é uma consulta permanente à vida”.
    
Em 2022, Vladimir ganhou um biopic documental, “Quando A Coisa Vira Outra”(2022), de Marcio de Andrade, que, no streaming do Brasil, pode ser visto no Claro TV+.

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