Frederick Wiseman é o primeiro nome que salta da boca do cineasta Brandon Kramer ao citar não as referências, mas, sim, as reverências que fez em “Holding Liat”, produção laureada com o troféu de Melhor Documentário da Berlinale, além do prémio do Júri Ecuménico. Norte-americano de Washington, o realizador de “City of Trees” (2015) e “The Messy Truth” (2016) entende a rejeição que o seu ídolo, Wiseman, um dos papas da não ficção, conhecido por filmes como “Ex Libris” (2017) e “City Hall” (2020), tem a termos como “mosca na parede” e “observacional”, usados para definir uma estética de acompanhamento de processos quotidianos. Facto é, o (hoje nonagenário) artesão documental vai às locações dos assuntos que filma, fica quieto, observa e regista. Na montagem, o que viu ganha um filtro poético (e crítico). Apoiado na troca com o seu irmão produtor, Lance Kramer, Brandon faz igual, só que escolheu um dos assuntos mais polémicos da geopolítica global: a batalha Israel x Palestina. Estreitou o foco ao centrar a narrativa numa data, 7 de outubro de 2023, circunstância histórica da ofensiva do grupo Hamas. Foi ainda mais particular (para alcançar universalidade) e foi buscar uma família… uma só… meio americana, meio israelita. A partir dela, faz um estudo da arte da espera em momentos de crise, ou melhor, de terror.
“Quando o mundo todo prestava atenção ao destino dos reféns dos atentados de 7 de Outubro, estava com Lance em Washington a acompanhar como os parentes de Liat agiam a cada minuto sem notícias dela, sem ter a dimensão de que aquele processo seria um filme, sobre pessoas com quem temos ligação de parentesco. Tinha um Smartphone ligado no caso e atenção aos sentimentos. Fui entender num dado momento que havia uma história sobre reconciliação a ser contada ali”, disse Brandon Kramer ao C7nema, no Berlinale Palast.
Guia de turismo, Liat Beinin Atzili foi raptada, no seu kibutz, Nir Oz, no meio ao turbilhão do 7 de Outubro. A notícia rapidamente chega aos seus familiares, em diferentes partes do mundo. Os pais da vítima, Yehuda e Chaya, tentam lidar com o pavor ao mesmo tempo que procuram preservar um pouco de harmonia enquanto aguardam notícias do seu paradeiro. Por ser cidadão americano, Yehuda voa para os EUA, acompanhado do filho de Liat, que está sobrecarregado de tensão, e da irmã da sequestrada, que tenta amortecer o temperamento e a raiva do pai, em relação ao que se passa no Médio Oriente. Ao iniciar esse retrato, no processo de montagem, Kramer deixa o público perceber que, no clã de Liat, as opiniões acerca daquele território (e do incidente) são polarizadas. Apesar da sua dor, Yehuda tem uma visão crítica do papel de Israel no conflito contra os palestinos, por ser um pacifista. O que deveria ser “diplomacia” não se processa de uma forma ideal por parte dos governantes da sua pátria.
“Estávamos juntos da família de Liat quando a notícia de seu paradeiro chegou e as pessoas puderam respirar, mas, ao avaliar o que vi e o que registei, encontrei um material cru, muito tenso, que dispensava outros ângulos, como dramaturgia, na maneira como os parentes dela estavam enquadrados. É como se tivessemos encaixotado todo um debate político num corte familiar, que me permitia ser dialético e empático”, explica Brandon, acompanhando das reflexões de Lance sobre o projeto… e os factos.
“Não tínhamos a menor noção de que Liat iria sobreviver quando os nossos registos começaram a ser feitos”, explicou Lance ao C7nema. “Quando percebemos que aquela história sobre a tomada de decisão, sobre urgências, deveria ser um filme, partimos em busca de doações e mobilizamos umas cem pessoas à procura de apoio. Já havíamos filmado antes num esquema de financiamento coletivo. A nossa preocupação era de que os técnicos envolvidos recebessem”.
Não há juízos de valor prévios em “Holding Liat”, nem filtragens acerca das posturas de Israel… e dos EUA…, pois o recorte que impressionou Berlim é sobre o companheirismo. “O que encontramos foi o retrato de uma família que convive com a incerteza”, explicou Brandon. “Uma situação que se pauta pelo incerto carrega algo de tóxico, que contagia a todos”.
“Holding Liat” narra o lado tóxico da incerteza
(Fotos: Divulgação)
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