Walter Salles celebra a força da crítica contra o esquecimento

(Fotos: Divulgação)

Dedicado atualmente ao projeto Sócrates Brasileiro — série documental em quatro episódios para o Globoplay sobre o lendário craque do futebol —, Walter Salles tem encontro marcado com o Festival de San Sebastián nesta sexta-feira, onde receberá o Grand Prix Fipresci. O filme Ainda Estou Aqui, que lhe valeu o Oscar, foi eleito Filme do Ano na tradicional enquete promovida pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica desde os anos 1990. É a primeira vez que o Brasil conquista essa distinção.

Em nome da obra, o cineasta carioca regressa ao festival basco, que descreve como “fundamental” para a sua trajetória. O longa será exibido na Sala Príncipe. “San Sebastián foi onde estreou Terra Estrangeira, que correalizei com Daniela Thomas. Isso só aconteceu graças à recomendação de José Carlos Avellar, crítico que considero um mestre. A receção calorosa enraizou o filme”, afirmou Salles em mensagem ao C7nema.

O cineasta recordou ainda as suas passagens posteriores com Central do Brasil e Diários de Motocicleta, ambos laureados com o Grande Prêmio do Público, distinção que, segundo ele, “respeito imensamente, num festival onde o público é jovem, politizado e faz dos debates uma experiência única”.

Baseado no romance de Marcelo Rubens Paiva, Ainda Estou Aqui alcançou 5,8 milhões de ingressos no Brasil, sempre aplaudido em sessões lotadas, e surpreendeu no exterior com US$ 36 milhões arrecadados. A primeira vitória veio no Festival de Veneza de 2024, com o prémio de Melhor Roteiro. Depois, seguiu para San Sebastián, na mostra Perlak. A protagonista, Fernanda Torres, venceu o Globo de Ouro em janeiro.

Ela encantou as plateias com a sua interpretação da advogada e ativista Eunice Paiva (1929-2018), cujo maior empenho em vida foi denunciar o rapto e a tortura do marido, o ex-deputado e engenheiro Rubens Paiva (Selton Mello), por agentes da ditadura militar, no início da década de 1970. Fernanda Montenegro, mãe de Fernanda Torres e estrela de Walter Salles em Central do Brasil, interpreta Eunice na fase idosa. A longa-metragem pode ser vista online no Globoplay.

Com o anúncio do Grand Prix Fipresci, Salles passou a integrar um grupo restrito de vozes autorais distinguidas pela federação centenária de crítica cinematográfica. Paul Thomas Anderson, dos Estados Unidos, foi o primeiro a receber esta distinção, com Magnólia, há 25 anos. Seguiram-se nomes como Jafar Panahi, Jean-Luc Godard, Maren Ade, Pedro Almodóvar, Alfonso Cuarón, Ryusuke Hamaguchi, Aki Kaurismäki, Terrence Malick, Roman Polanski, Kim Ki-Duk, George Miller, Abdellatif Kechiche, Yorgos Lanthimos, Chloé Zhao e Nuri Bilge Ceylan.

Existem prémios que nos tocam mais do que outros, e o Grand Prix da Fipresci é um deles, pela sua representatividade e importância”, afirmou Walter. “É um prémio atribuído pelos votos de mais de 700 críticos de todo o mundo, e é a primeira vez que o Brasil o conquista. Gostaria de sublinhar que, sem o apoio crítico que o filme recebeu desde a sua estreia, em Veneza, Ainda Estou Aqui não teria chegado a tantos países. Graças à crítica, a obra ganhou novas camadas de interpretação, e o impacto gerado foi decisivo para que permanecesse em exibição durante meses nas salas de cinema, que é onde os filmes devem ser vistos. Ainda Estou Aqui fala de memória e resistência. A Fipresci foi uma aliada vital nesta luta contra o esquecimento.

Na manhã desta sexta-feira, horas antes da cerimónia da Fipresci, a comédia dramática argentina 27 Noites, realizada pelo actor Daniel Hendler, inaugurou a competição de San Sebastián, em sessão no Teatro Kursaal. Embora uruguaio, Hendler destacou-se a partir de Buenos Aires com O Abraço Partido (2004) e participou em Cabeça a Prémio (2009), de Marco Ricca. Na trama, Martha Hoffman (Marilú Marini), uma aristocrata excêntrica, é internada numa clínica psiquiátrica pelas filhas. Cabe ao perito Casares (Hendler) investigar se a internação é um esquema para controlar a fortuna da mãe ou se Martha sofre efetivamente de uma forma de demência que coloca em risco o seu bem-estar e o da família.

O júri do festival é presidido pelo realizador J.A. Bayona.

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