“A vingança é uma ferramenta”: amor, violência e exclusão nos “Sonhos” de Michel Franco

Estreia a 30 abril

Desconfortável e contundente, o cinema de Michel Franco constrói narrativas frontais onde a intimidade é atravessada por desigualdades sociais, económicas e emocionais. Depois de títulos como Daniel & Ana (2009), After Lucia (2012), Chronic (2015), April’s Daughter (2017) e do devastador New Order (Nova Ordem, 2020), o realizador continuou a explorar o privilégio, a violência estrutural e o trauma em filmes como Sundown (2021) e Memory (2022).

Em Dreams (Sonhos, 2025), Franco retoma de forma incisiva os temas do poder, da exclusão e da intimidade, ao cruzar romance e comentário social na história de uma socialite norte-americana (interpretada por Jessica Chastain) envolvida com um bailarino mexicano (Isaac Hernández) em situação irregular. Entre erotismo e política, o filme confirma a centralidade do cineasta no cinema contemporâneo, motivo pelo qual nos sentámos com ele à mesa no último Festival de Cinema de Karlovy Vary para falar do seu percurso e deste novo filme.

Michel Franco em Karlovy Vary

Este é mais um filme seu sobre pessoas quebradas, moldadas pelas circunstâncias da vida. Aqui acompanha um imigrante mexicano e, mais uma vez, regressa à questão do poder, um tema recorrente na sua filmografia. O que o atrai nestas personagens fragilizadas e nesta reflexão contínua sobre o poder?

O que me interessa, quando vejo filmes e quando os escrevo, é testar as personagens. Ver como são testadas os desafios que a vida quotidiana lhes impõe. 

Neste caso, por exemplo, a personagem da Jessica Chastain provavelmente teve uma vida mais fácil do que a maioria das pessoas, do que alguém da classe trabalhadora, e curiosamente está menos preparada para enfrentar a vida ou um desafio quando o dinheiro já não resolve tudo. Quando é despida desse poder, mostra quem realmente é. Mostra o seu verdadeiro eu. 

Acho que as duas personagens do filme acabam por se encontrar a si próprias, fazendo coisas que não sabiam que podiam fazer ou que fariam. Provavelmente também já não gostam muito de si próprias. Gosto quando os filmes despem as personagens e vemos o que está por baixo da superfície.

O filme nasceu mais de uma vontade de contar uma história de amor íntima ou de fazer um comentário social sobre o contexto em que as personagens vivem?

As duas coisas, claro. Sabia, quando estava a escrever, que era isso. Mas disse a mim próprio que tinha de funcionar a um nível íntimo, porque isso é o que realmente importa. A outra camada deve vir em segundo lugar e funcionar por si só, para quem quiser entrar nela. O que me atraiu foi a forma como isso funciona. Sou um grande admirador do Fassbinder e adoro a forma como O Medo Come a Alma (1973) funciona. Adoro esse filme.

Nos seus filmes existe também uma ligação entre o erótico e o político. O que o atrai nessa combinação?

Nós expressamo-nos através da atividade sexual, e isso revela muito sobre quem somos. O Fassbinder explorou isso em vários filmes, sem qualquer pudor. O Pasolini também, claro. São dois dos meus realizadores favoritos. Em Nova Ordem isso também acontece, de certeza. E de uma forma diferente em After Lucia e em Daniel & Ana

Até fico surpreendido a falar sobre isto e a olhar para trás, para os meus filmes, porque não sou assim tão consciente disso quando escrevo. Sempre que escrevo um novo filme tento esquecer quem sou e o que fiz antes. E parte do que gosto em trabalhar depressa é precisamente não conseguir rotular-me ou explicar-me.

Outro elemento que atravessa o seu cinema é a vingança. Em Nova Ordem disse que todas as revoluções falham por causa dela. Aqui surge de forma mais íntima e perversa. Como olha para a vingança no mundo atual?

A vingança é uma ferramenta. Infelizmente, sim. No cinema é mais fácil levá-la ao extremo. É um exercício que nos permite ver as coisas a ir mais longe, sem termos de ir tão longe na vida real. Quando filmei este projecto, diziam-me que não era realista, que as deportações não aconteciam assim nos Estados Unidos. Tinham razão. Mas um ano depois, a realidade ultrapassou o filme. Todos os dias lemos histórias ainda mais extremas do que aquilo que propus em Dreams.

A vingança é também uma fantasia?

Acho que sim. Todos cometemos vários crimes na nossa cabeça que não concretizamos. O cinema cria um cenário do “e se”. Mas sou sempre cuidadoso em mostrar as consequências. A violência nunca traz nada de positivo. Quase todas as pessoas que se deixam seduzir pela vingança acabam por se arrepender, porque acabam por se magoar a si próprias e às pessoas que supostamente queriam vingar.

Pegando no sexo como expressão, em termos práticos, como trabalha essas cenas?

Quando decidi trabalhar com o Isaac, o facto de ele ser bailarino ajudou muito a fisicalidade. Trabalhámos sem coordenador de intimidade. Trabalho isso diretamente com os atores, de forma muito respeitosa e íntima. Neste caso foi sobretudo a Jessica a trazer ideias, a perceber o que eu precisava e a traduzir isso em ações, sabendo sempre que o Isaac era um bom parceiro.

Sente que não julga as suas personagens?

Sei sempre qual é o início e o fim do filme, mesmo que o fim mude um pouco. Depois tento deixar que as personagens me mostrem o que fariam. Tento não impor. Quando se escrevem personagens reais, elas erram e nem sempre sabem o que querem. Os manuais de escrita defendem clareza moral, mas isso considero aborrecido e pobre.

Quando estava a trabalhar neste projeto, foi sempre pensado na América da era Trump ou isso mudou depois das eleições?

Filmámos antes das eleições. Filmámos há bastante tempo. Acho que tive a ideia há seis ou sete anos, talvez até antes disso. A realidade é que a relação entre os dois países sempre foi a mesma. Agora fala-se disso de forma mais direta, mas os mexicanos, os latino-americanos e os imigrantes de todo o mundo sempre sustentaram a economia americana, fazendo os trabalhos que eles não querem fazer, sem uma retribuição justa e ainda sendo perseguidos. Sempre foi assim. Agora os riscos são maiores e é mais agressivo, mas é a mesma coisa.

As eleições e o mandato de Trump não mudaram o projeto?

Talvez o primeiro mandato de Trump o tenha tornado mais urgente. E o facto de sabermos que ele podia voltar talvez me tenha impulsionado e à Jéssica a querer fazer o filme.

Esta é a sua segunda colaboração com a Jessica. Como se conheceram? Sentiram logo uma ligação artística?

Com atores que também são estrelas é difícil saber quem são até nos sentarmos e falarmos com eles. Com a Jessica, bastou a primeira conversa para perceber que era a escolha certa e que estava sentado com uma pessoa real, com uma atriz com vontade de fazer coisas interessantes e de se desafiar, mais do que com uma celebridade. Ela não queria saber nada disso. Percebi logo que ia ser uma boa parceira e nunca me desiludiu.

Como funciona a vossa colaboração?

Trato os atores de forma muito respeitosa e cumpro sempre, e eles também cumprem. Há uma espécie de contrato de decência. O principal é termos o mesmo filme na cabeça. Quando o guião e as conversas são claros, há pouco espaço para desacordos. Ela também teve um papel duplo como produtora. A contribuição dela como produtora tem a ver com tornar as coisas possíveis e mais rápidas. As decisões importantes são tomadas em conjunto. Ela diz-me sempre que vai ajudar-me a fazer o que eu quero, mas também me ajuda a perceber o que eu quero. E, como ela é americana e eu não, confio muito nela para perceber se algo é realista ou não.

Quanta investigação faz quando escreve?

Faço investigação depois de ter um primeiro tratamento. Se investigar demasiado antes, perco liberdade. Escrevo primeiro e depois falo com especialistas para melhorar.

Sente que a realidade está a tornar-se mais brutal do que a ficção?

O cinema olha para o futuro, mas também para o passado. Quando fiz Nova Ordem, disseram-me que era demasiado pessimista. Eu disse que aquilo já tinha acontecido muitas vezes na História. O problema é não querermos compreender como chegámos a esses pontos. Se não compreendermos, estamos condenados a repeti-los.

Não tem medo de ir aos lugares escuros da sociedade e da alma?

Não. O desafio é ir lá de forma interessante e não apenas torturar o público. E, sobretudo, encontrar público. Fazer filmes é caro e sem público não há continuidade.

Até que ponto Michael Haneke é uma influência para este filme?

É um dos meus realizadores favoritos e um dos últimos verdadeiramente corajosos. A Jessica admira muito a Isabelle Huppert e o trabalho dela com o Haneke, e eu também. Não é o único, claro, temos o Ulrich Seidl também. Mas pergunto-me onde está o novo Lars von Trier? O Haneke fez filmes que vão muito fundo e nunca teve medo de mostrar o pior lado da humanidade.

Sente que o cinema hoje é mais seguro e menos arriscado?

Acho que, em geral, está mais plano. As pessoas arriscam menos. O mais difícil não é fazer o filme, é encontrar distribuição e público. Esse é o verdadeiro desafio.

Há planos para uma terceira colaboração com a Jessica?

Sim. Estamos a falar de algumas coisas. Há um guião que escrevi, que ela leu e que lhe interessa muito.

Quando decide o próximo filme, segue a intuição ou faz uma escolha estratégica entre vários guiões?

Tenho muitas ideias e costumo favorecer a ideia que mais me incomoda, aquela que não me larga. Mas também, como sou produtor, tenho de olhar para o lado prático. Se houver, por exemplo, um ator que queira trabalhar comigo naquele momento e uma ideia que funcione com ele, que permita fazer o filme mais depressa, então favoreço essa. 

A parte difícil de fazer filmes é manter isso como uma expressão pessoal, mesmo quando falamos de orçamentos de vários milhões. E continuar a trabalhar depressa, porque se um filme demora sete anos, já não somos a mesma pessoa que teve a ideia.

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