Em meio à consagração de “O Agente Secreto” na competição pela Palma de Ouro e os elogios colhidos por “Para Vigo Me Voy!” em sua seção Classics, o 78° Festival de Cannes ampliou a visibilidade do cinema brasileiro também no Marché du Film, numa promoção de títulos que se candidatam à posteridade no segundo semestre.
Uma produção documental com foco nas batalhas decoloniais do planeta foi o projeto porvir do Brasil que mais se destacou aos olhos da imprensa estrangeira: “O Projeto“(outrora chamado “Time to Change”), da carioca Sabrina Fidalgo. Curtas-metragens como “Rainha” (2016) e “Alfazema” (Prémio de Melhor Realização no Festival de Brasília de 2019) fizeram dela um aríete contra a exclusão, a inspirar caminhos para sua necessária estreia em longas-metragens. Falta pouco para que a realizadora possa debutar no formato, a julgar pelo andamento da sua investigação documental sobre intolerâncias, desenvolvido por ela numa troca com a produtora Gullane, envolvendo ainda Globo Filmes, GloboNews e Canal Brasil, com apoio da Ford Foundation. A seu lado, numa realização a quatro mãos, está o fotógrafo suíço de streetstyle Yvan Rodic, que fez fama sob a alcunha de Facehunter.
Sabrina frisa sempre que o filme vai mesclar vivências bem distintas – “Temos uma mulher preta brasileira, cineasta, e temos um artista visual branco da Suíça” – num combate ético para responder uma questão histórica: como decolonizar o mundo e o sistema? Iniciado em 2023, num périplo pelo planeta, “O Projeto” investiga como o privilégio branco ainda molda todos os aspectos das sociedades ao redor do mundo, inclusive (ou melhor, sobretudo) no Brasil. É um ensaio sobre “mentalidades coloniais”. Em depoimento à imprensa brasileira, na génese dessa longa-metragem, Sabrina explicou que a sua dramaturgia aborda a violência colonial numa dimensão geopolítica. “Sem a implementação do racismo, enquanto ferramenta de poder, destruição e submissão, o projeto colonial europeu jamais teria vingado e o Brasil hoje ainda seria um território 100% indígena. Não dá para não falar sobre colonialismo, capitalismo e territorialidade sem tocar no racismo”, explicou a cineasta.
Em meio às iniciativas do Marché du Film, que celebrou o Brasil como país em foco em Cannes, a Globo Filmes ofereceu um almoço s produtoras e cineastas, em sinergia com a distribuidora Riofilme, para promover as estéticas daquele país. Estima-se que a última longa-metragem rodada por Cacá Diegues (1940-2025), “Deus Ainda É Brasileiro”, fique pronta para circular nos festivais do segundo semestre.

