“O Rei da Internet” investe no pop, mas com consciência crítica

(Fotos: Divulgação)

Recém-saído de uma projeção nos Estados Unidos diretamente para o BAFICI, antes da sua estreia comercial no Brasil, marcada para 14 de maio, O Rei da Internet afirma-se, em toda a sua essência pop, como o mais eletrizante dos dez títulos brasileiros presentes na 27.ª edição do evento portenho. De todos eles, é o que revela maior vocação para se tornar blockbuster. A trilha sobre a qual se descortina segue um formato de heist movie que dispensa a violência explícita e aposta antes na sagacidade das suas personagens. Integram essa linhagem títulos elegantes como Los Delincuentes (2023), de Rodrigo Moreno, e ainda Roofman (2025), com Channing Tatum. Outrora, no final dos anos 2000, Meu Nome Não É Johnny (2008) levou mais de dois milhões de espectadores às salas, impulsionado pelo carisma de Selton Mello. É nessa tradição que se inscreve, com pulsação própria, O Rei da Internet, uma das revelações brasileiras do festival. Com realização de Fabrício Bittar, este thriller faz rir no seu diálogo com o livro DNpontocom, inspirado em factos reais das páginas policiais.

“Gosto de pensar o filme como um jogo constante entre o riso e o perigo”, explicou o cineasta ao C7nema, em Buenos Aires.

O projeto nasceu de uma descoberta literária e amadureceu ao longo do tempo. “Estava a terminar o meu primeiro filme e queria algo dentro do mesmo tema, mas mais ambicioso. Quando li o livro, percebi que havia ali uma história muito forte”, recorda Bittar. A adaptação de DNpontocom, escrito por Daniel Lofrano Nascimento em parceria com Sandra Rossi, demorou a encontrar financiamento, permitindo ao realizador regressar ao material com maior maturidade: “Fiz muita coisa antes de chegar a este filme. Cheguei mais preparado e no momento certo.”

Conhecido por títulos como Como se Tornar o Pior Aluno da Escola (2017) e Exterminadores do Além Contra a Loira do Banheiro (2018), Bittar reafirma aqui uma estética assumidamente popular, próxima do imaginário televisivo da TV Globo — em particular dos programas Sessão da Tarde, Corujão e Supercine —, mas filtrada por uma inteligência formal que recusa o simplismo.

“A televisão formou-me completamente. Via mais filmes na TV do que no cinema. Esses programas construíram o meu olhar.” Essa herança traduz-se num cinema pipoca, mas consciente: “Ser pop não é um problema, é uma vocação. A questão é como trabalhar esse pop com consciência.”

A provocação instala-se na escolha da sua personagem central: uma figura que transita entre vítima e predadora, numa zona moral ambígua. “Quis construir uma anti-heroína real, alguém com quem o público se identifique, porque todos somos imperfeitos”, explica. A narrativa acompanha a ascensão de Daniel desde uma adolescência marcada pelo bullying até à integração numa rede de crimes digitais milionários. João Guilherme assume o papel com equilíbrio entre fragilidade e destreza, numa composição que ecoa o melhor de Selton Mello. “Era importante mostrar essa dualidade: o miúdo vulnerável e o génio capaz de ultrapassar limites.”

A linguagem do filme — frenética, pulsante — deve muito à formação de Bittar na MTV. “Talvez este seja o meu filme mais MTV. Coloquei ali todas as referências que sempre gostei.” Essa energia traduz-se numa montagem vertiginosa de Pedro Dias e Tales Gremen, que imprime ao filme um ritmo quase taquicárdico, enquanto a fotografia de Pedro Pipano investe num cromatismo quente e expansivo. “Interessa-me contar histórias que façam o público refletir, sem moralismos, mas como um retrato da sociedade.”

No centro dessa reflexão está o binómio invisibilidade/impunidade na era digital. “A internet permite que alguém exista sem ser visto. Isso pode ser libertador, mas também perigoso.” A construção do argumento — assinado com Vinícius Perez — implicou uma aproximação direta ao protagonista real: “Falei muito com o Daniel, tentei perceber a essência da história. Até em conversas mais informais, para ultrapassar certos limites e chegar à verdade.”

Sem caricaturar contextos ou instituições, o filme mantém um olhar ambíguo sobre o poder e a justiça. “Não me interessa dizer se alguém é bom ou mau. Nem o Daniel, nem a polícia, nem o sistema. O que me interessa é perceber como funcionam esses mecanismos”, afirma Bittar, recusando leituras simplistas.

O percurso internacional do filme — com passagem pelos EUA e agora por Buenos Aires — inscreve-se numa estratégia mais ampla de circulação global. “O mundo está muito mais aberto ao cinema estrangeiro. As pessoas já não têm problema em ver filmes noutras línguas. Isso abre possibilidades enormes para o cinema brasileiro”, observa. E acrescenta: “O circuito de festivais é fundamental para isso. Permite-nos chegar a públicos que antes eram inacessíveis.”

O BAFICI termina neste domingo.

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