Jérémie Périn: “Não precisamos reinventar tudo na ficção científica, pois temos bases muito sólidas”

"Mars Express" estreia em sala a 9 de janeiro e no canal TVCine Edition a 2 de fevereiro.

Quase um ano depois de ter sido exibido na MONSTRA – Festival de Animação de Lisboa, “Mars Express” chega às salas de cinema nacionais. Combinando animação 2D e 3D, este filme profundamente inspirado no cinema de animação japonês e no trabalho literário de ficção científica de nomes como Philip K. Dick e Isaac Asimov teve a sua estreia mundial no Festival de Annecy.

Em “Mars Express” estamos em Marte, em 2200. É aí que Aline Ruby, uma detetive particular, e Carlos Rivera, o seu parceiro androide,  são contratados por um empresário rico para ir à Terra capturar uma hacker famosa. De regresso a Marte, um novo caso leva-os a aventurar-se nas entranhas de Noctis, a capital de Marte que vive num estado de utopia libertária possibilitada pelos avanços da robótica. Desta vez a dupla busca uma estudante de cibernética desaparecida e, ao longo da investigação, são confrontados com segredos obscuros, instituições corruptas e uma revelação capaz de ameaçar o frágil equilíbrio em que assenta a civilização.

Foi no Cinema São Jorge, em março de 2024, que nos sentámos à mesa com o realizador Jérémie Périn e falámos desta sua primeira longa-metragem.

Jérémie Périn

As ideias de ficção científica de nomes como Isac Asimov e Phillip K. Dick estão um pouco por todo o lado no seu filme. Qual é a sua relação com a ficção científica e esses autores?

Sou mais um espectador de filmes de ficção científica, jogador de videojogos e leitor de banda-desenhada, em particular manga e comics, do que dos livros na sua forma clássica. Li alguns, claro, mas menos certamente que o meu coargumentista, o Laurent Sarfati. As obras de Asimov e K. Dick estão um pouco por toda a ficção científica que se produz, particularmente pela pertinência dos temas que abordaram. Com o aparecimento da Inteligência Artificial e a sua regulação, o Asimov tornou-se ainda mais relevante, particularmente as leis da robótica que imaginou. Não precisamos reinventar tudo na ficção científica, pois temos bases muito sólidas. Com essas ideias já estabelecidas, como as três leis da robótica de Asimov, podemos contar mais rapidamente a nossa história sem necessidade de criar novos alicerces.

Num mundo com tantos trabalhos de ficção científica lançados anualmente em tantos formatos, como foi pensar artisticamente o mundo de “Mars Express”?

Confesso que acho chatas muitas das obras lançadas hoje em dia. E com coisas sem muito nexo. Por exemplo, particularmente depois dos anos 2000 começámos a ver ecrãs de computadores transparentes, o que me parece parvo e pouco prático. Isto para dizer que procurei acima de tudo abordar a ficção científica com ideias tangíveis. Vejo o meu trabalho como o dos engenheiros, com visão e funcionalidade.  

Como nasceu a ideia do filme e a criação das personagens?

Inicialmente a história contava apenas com uma personagem principal, um detetive bizarro que vivia com a mãe, uma espécie de Jeff Goldblum imaturo. Sabia desde sempre que o nosso filme daria um papel importante aos robôs, em particular tentaríamos encontrar um acompanhamento do seu lado emocional. Nisso, numa transição de ideias fomos criando as personagens, como a da mulher e do robô. Não queríamos uma femme fattale, apesar da inspiração noir, mas uma personagem que nos levasse a uma espécie de Humphrey Bogart ou Jack Nicholson. Como espectador sinto falta desses filmes de detetives privados e, por isso, criei um. 

Disse na antestreia durante a Monstra que fazer um filme de animação como este na Europa é bastante difícil. Foi complicado encontrar financiamento para o filme?

Curiosamente foi fácil, mas por duas razões curiosas. Trabalhei numa série de TV que foi um sucesso em França, o que deu confiança aos investidores. Além disso, tivemos a sorte de um filme de animação que não era exclusivamente para crianças, o “J’ai perdu mon corps“, que não só foi um sucesso da crítica como comercial, acabando por ser adquirido pela Netflix. O financiamento desse filme foi muito complicado, mas, como teve sucesso, os potenciais investidores pensaram que teriam de apostar no próximo filme de animação para um público mais adulto. E esse filme fomos nós (risos). 

Pensou sempre no streaming durante a produção?

Pensei nas plataformas, claro. Porém, na época, quando os contactámos, eles rapidamente disseram que já tinham projetos semelhantes em desenvolvimento. Cinco anos depois, ainda não sei de que projetos falavam, pois não vi nenhum semelhante a ser lançado (risos). Se calhar cancelaram algum projeto que tinham em mente, ou então foi apenas uma maneira simpática de nos dizer que não queriam o nosso filme. A verdade é que durante muito tempo fiquei com receio que fosse lançado um filme semelhante ao “Mars Express”, mas não foi.

Do ponto de vista político, o filme apresenta grupos de supremacia humana na caça aos robôs. Achas que isso vai acontecer realmente no nosso futuro?

Interrogo-me bastante sobre isso, mas não tenho uma verdadeira resposta. O que tento dizer no filme é que me parece uma má solução colocar humanos, máquinas e IA a competir no mercado de trabalho. Quando vemos a manifestação contra os robôs, na verdade é contra os seus proprietários. É a velha luta de classes em novos moldes. 

Vai continuar no futuro a abordar os temas que vemos em “Mars Express”? Tem um novo projeto?

Tenho e vou trabalhar novamente com o Laurent Sarfati, mas ainda não escrevemos uma linha. Será um filme também com algumas reivindicações, pois a política está sempre metida em tudo o que escrevemos. 

E vai continuar a trabalhar em séries de televisão?

Sim. Faço séries e filmes, mas confesso que prefiro as longas-metragens. Num filme a história é mais curta, mas o tempo de produção é semelhante. Por isso, para um filme, temos mais tempo para trabalhar na mise-en-scène e para trabalhar nas imagens. Numa série é trabalho, trabalho, trabalho… não há tempo para corrigir nada. Prefiro fazer longas-metragens. Não afasto a hipótese de fazer séries, mas, neste momento, se consigo fazer filmes, prefiro. 

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