São Paulo à espera de Jafar Panahi

(Fotos: Divulgação)

Traduzido no Brasil como “Foi um simples acidente”, a mais recente expressão fílmica de Jafar Panahi na sua luta contra os abusos governamentais do Irão começa a ter bilhetes à venda no Brasil nesta quarta-feira, o que promete agitar a sua passagem pela Mostra de São Paulo. A sessão inaugural no evento está marcada para 27 de outubro, na Cinemateca Brasileira, com projeções ainda nos dias 28 (no Cultura Artística) e 29 (no Reserva Cultural). A exibição integra um tributo do festival ao realizador, que será agraciado com o Prémio Humanidade. Ao ser escolhida como representante oficial da França aos Óscares, para apreciação da Academia de Hollywood, a sua produção atual ampliou a procura nas Américas — impulso reforçado pelos elogios de Martin Scorsese: “Nunca vi nada igual.”

Ao entrar para o rol seleto dos vencedores da Palma de Ouro de Cannes — um grupo que, na última década, incluiu Jacques Audiard, Ruben Östlund, Hirokazu Kore-eda, Bong Joon-ho, Julia Ducournau, Justine Triet e Sean Baker —, Panahi reconheceu em Cannes o quanto o risco à sua segurança aumentou. O seu país natal há muito se mostra hostil aos filmes que realiza desde “O Balão Branco” (1995). A animosidade é tanta que os líderes da nação já o colocaram na prisão por duas vezes (2010 e 2022), tratando a sua obra como um atentado à dignidade do Irão. Não houve comemoração oficial em maio, quando conquistou o prémio máximo do Festival de Cannes por “Un Simple Accident”.

O facto de se tratar de uma história de vingança — um torturado que enfrenta o agente do Estado que o vitimizou — tornou ainda menos provável que o governo da sua pátria celebrasse a consagração de um realizador que, há três décadas, pavimenta um legado autoral no qual poesia e indignação caminham juntas, numa linha por vezes ténue entre ficção, etnografia, documentário e semiótica. Quando foi detido, Panahi fez greve de fome e mobilizou a Amnistia Internacional.

Se no seu lar a sua situação não é das mais confortáveis, no planisfério cinéfilo ele é objeto de adoração, a julgar pela atual corrida (no streaming) pela produção cinematográfica dele. Em Portugal, veem-se alguns dos seus títulos recentes no Filmin.pt. No Brasil, as plataformas Reserva Imovision, Telecine e Prime Video são o caminho para encontrar os seus trabalhos, entre os quais Táxi Teerão, pelo qual recebeu o Urso de Ouro da Berlinale, há dez anos.

“Para um cineasta, cada prémio é um prazer e foi necessário muito trabalho para ganhar este troféu”, disse Panahi em Cannes, com a Palma nas mãos. “Em um determinado momento, eu tinha muitas imagens diferentes passando pela minha cabeça. Estava pensando em todos os rostos dos meus amigos que estavam na prisão comigo. Naquela época, nós estávamos na cadeia, mas o povo iraniano estava nas ruas lutando pela liberdade. Naquele momento, eu disse a mim mesmo que estava feliz por eles.”

O eletrizante Foi Apenas Um Acidente parece um thriller. Enerva como um. Remete ao Costa-Gavras de Estado de Sítio (1972) ou de A Confissão (1970) por dialogar com a cartilha do thriller político. No arranque do longa-metragem, Panahi segue num carro onde um casal tenta conter uma menininha em plena euforia, com o seu boneco de pelúcia preferido. Uma colisão trava o veículo. A pequena tem medo do que se passa, mas o pai acolhe-a, ainda que com severidade. Nesse início tenso, ocorre o tal “simples acidente” do título, que deflagra uma cruzada de revanche sem medo de exposições gráficas da violência. Aparentemente, abateu-se um cão. O pai entra num galpão para pedir ajuda e alerta um operário, que parece reconhecer o som característico do seu andar manco, fruto de uma prótese na perna. No dia seguinte, o trabalhador bate na cabeça desse homem com uma pá antes de colocá-lo na parte de trás da sua carrinha, que se torna tanto a força motriz quanto a principal locação deste filme rodado num regime próximo da clandestinidade.

“Eu aprendi com ‘Táxi Teerão’ a filmar em veículos em movimento. Num carro, você se sente em segurança”, disse Panahi em Cannes, entrando em detalhes de uma das suas detenções. “Fui vendado e levado para uma cela tão pequena que mal podia me mexer. Lá colhi histórias que compõem o roteiro desse meu novo filme.”

Em Foi Apenas Um Acidente, o sujeito capturado é um agente do governo que torturou pessoas em nome dos seus líderes. A sua captura é uma educação política na qual os seus captores também são educados, sob a cartilha da empatia. Numa sequência comovente, o tal operário precisa ajudar uma mulher grávida e amparar a menininha, filha do seu algoz de outrora.

“Muita gente me pergunta por que eu não desisto do cinema, mas não sei fazer outra coisa que não filmar. E me entrego ao projeto cinematográfico sem pensar em dinheiro. Tanto é que começo cada longa com recursos do meu bolso”, disse Panahi, que rodou Foi Apenas Um Acidente em regime de semiclandestinidade.

Na prisão, Panahi forjou uma estética semiológica, capaz de filmar de dentro do seu cárcere domiciliário (ao lado do seu lagarto de estimação) ou do volante de um carro. Laureado com o Leão de Ouro de Veneza por O Círculo, há 25 anos, o realizador concorreu à Palma de Ouro de Cannes antes com 3 Faces, que lhe rendeu a láurea de Melhor Roteiro em 2018.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/i371

Últimas