Culpa, pressão social e um enorme caminho por trilhar pela sociedade para ver as mulheres – especialmente as com filhos – com as mesmas capacidades que os homens na perseguição de uma carreira.
Por exemplo, na Alemanha há um termo pejorativo para as mulheres que dão primazia à carreira e não à maternidade, disse-nos em Paris a argumentista e realizadora Alice Winocour, que chega esta semana aos nossos cinemas com “Proxima” (O Espaço Entre Nós), filme onde Eva Green é uma astronauta e mãe que tem de passar por um intenso treino físico e psicológico para preparar uma missão espacial.
Tal como os seus anteriores projetos – quer na realização (“Augustine“, “Maryland“), quer apenas no argumento (“Mustang“) – Winocour lança um olhar dedicado e complexo a uma mulher, uma “Rabenmutter” que merece a nossa descoberta..
O que a fez embarcar num filme sobre uma astronauta a caminho do espaço?
Aquilo que queria falar era de algo muito íntimo e tive a sensação que para falar da minha intimidade tinha que simultaneamente estar perto, mas longe, em algo desconhecido. Estar próximo mas distante ao mesmo tempo.
E quando escreveu este argumento, tinha a Eva Green na sua mente?
Sim, de facto, costumo dizer que ela é uma estranha aqui, que não é deste planeta, e achei isso interessante para contar esta história.
E como foi essa colaboração?
Foi algo de muito forte, muito intenso, pois trabalhamos muito antes do filme para ela se preparar fisicamente para o papel, para treinar e ensaiar todas as línguas que ela fala no filme. Depois, nas filmagens, houve um grande trabalho com ela nas suas cenas com a filha. Fizemos muitas repetições, até porque ela mesmo não é mãe [na vida real]. Por isso, a sua relação com aquela miúda era algo que me inquietava muito, de torná-la credível como mãe. E era complexo porque ele não tinha de ser apenas mãe, mas a mãe perfeita. Essa era a problemática da personagem.
E para a Zelie Boulant, houve um casting para esse papel?
Sim, observamos 300 crianças, foi um trabalho enorme. Primeiro selecionamos algumas e depois fizemos um contraste delas juntamente com a Eva Green. Creio que ambas têm um certo tom de estranheza e singularidade e foi isso que me agradou nela em relação às outras.
E ela está muito bem no filme. É complicado trabalhar com estas jovens crianças nos filmes?
Sim, e neste caso tínhamos o extra de trabalhar em espaços incomuns para crianças: uma base militar, com “checkpoints”. Mas correu bem. Eu, no início, tinha a intenção de ter a minha filha naquele papel, mas ela recusou. Ela disse-me mesmo, que se um dia atuar num filme, não seria comigo como a realizadora [risos]. Ela tinha razão. Mas curiosamente procurei sempre meninas que me fizessem lembrar a minha filha, mas foi na Zélie que encontrei alguém mais parecida a mim quando era pequena. Senti-me muito identificada com aquela pequena.
E a investigação científica? Trabalhou e estudou muito sobre este aspecto para criar o filme?
Sim, encontrei-me com inúmeros astronautas em treinamento na Agência Espacial durante dois anos. E já mostrei o filme a vários astronautas que gostaram dele e disseram que o que viram assemelhava-se muito ao que viveram.
Outro dos grandes destaques do filme é igualmente o trabalho do som. Trabalhou muito esse elemento?
Sim, queria que o filme fosse uma experiência muito física, muito sensorial. Algo que já era uma característica do meu segundo filme. É esse tipo de cinema que me toca, um cinema físico. Estava muito interessada nessa questão do som e na montagem dele estive lá todos dias. Além disso trabalhei muito com o Ryuichi Sakamoto, responsável pela banda-sonora, para utilizar todas aquelas ideias dos sons da Terra, as gravações de campo.
Nos filmes do espaço a maior parte da música é ópera, mas aqui a ideia era que os sons fossem como os filmes da Terra e não do Espaço. Queria mostrar a fragilidade da Terra. Era algo que desejava e trabalhei com ele para criar algo imersivo.
E já agora, porque escolheu o Matt Dillon para aquele papel de astronauta?
Primeiro, porque é um ator que sempre gostei. Depois porque era perfeito para ser aquele “mauzão” ao início, mas que depois se revela mais complexo que apenas aquela imagem de “bad guy”.
É que essa personagem é um pouco tóxica inicialmente para a da Eva Green, mas aos poucos ele vai mudando. Como foi escrever esta personagem?
Essa mudança corresponde à realidade das pessoas que mostram ser duras mas são algo mais.

“Agustine”, “Mustang”, o “Proxima”. Gosta bastante de dar foco a mulheres. É importante isso para si?
Como uma realizadora, quero contar as histórias que nunca contaram e do ponto de vista feminino. Existem frequentemente personagens femininas fortes no espaço, como a Sigourney Weaver (Alien) e a Sandra Bullock (“Gravidade“). Mas elas nunca têm filhos, como se isso as impedisse de fazer as suas missões. E na realidade, as mulheres também têm as suas missões, trabalhos e carreiras mesmo tendo filhos. Creio que era importante mostrar isso, essa história (mais desconhecida no cinema) das mulheres.
Também foi lançado recentemente um filme no espaço com uma astronauta, interpretada pela Natalie Portman (“Lucy in The Sky“)…
Sim, vai ser lançado.
Viu esse filme?
Não, aqui em França vai ser lançado em fevereiro [a entrevista foi no final de janeiro].
Pronto, então não posso perguntar o que achou dele [risos]. Passemos então a novos projetos. Já os tem?
Sim, estou a acabar de escrever um novo filme e espero filmá-lo no próximo ano, aqui em Paris. Espero conseguir pôr tudo em movimento até lá.
E pode falar um pouco desse projeto.
Bem, na verdade, é um filme em Paris, mas desenrola-se no final da minha rua. [risos] Filmei em muitos países, o próximo é na minha cidade.
E trabalhos para as plataformas de streaming, tem algum ou pondera trabalhar para eles?
Não faço nenhum pré-julgamento sobre as plataformas ou o formato para que trabalhe, seja como argumentista ou realizadora.
E uma série, tem isso em mente?
Sinto-me mais sensibilizada pelo formato Cinema. É o Tchekhov que diz que as histórias escrevem-se para um final. Para mim as histórias têm sempre um fim e o princípio das séries hoje em dia é nunca terminarem… Há um termo e tudo para isso…
Sim, o “cliffhanger”….
Exato, o cliffhanger para as relançar e relançar constantemente. Isso para mim é algo artificial e não me toca pessoalmente. Por isso sou mais sensível à forma cinematográfica, com um início e um fim.
E vai continuar a escrever guiões para outros realizadores?
Sim. Se encontrar um projeto em que encontro uma ligação íntima, sim. Mas para mim há algo de aditivo em estar num “set”. É como uma droga. A minha prioridade é escrever e realizar filmes.
Há uma coisa que o “Proxima” aborda que é a questão da culpa. Acha que as mulheres têm de lidar mais com a questão da culpa imposta pela sociedade, para acompanharem os filhos?
Sim, a maioria das vezes elas não são culpadas de nada, mas muitas coisas são montadas para que nos sintamos culpadas. Por exemplo, na Alemanha há um termo para as mulheres que trabalham que é “Mães Corvo” (Rabenmutter* – termo usado para desvalorizar e chamar negligentes às mulheres que favorecem a sua carreira em detrimento da maternidade). Existe uma grande condenação moral nos dias de hoje às mulheres que trabalham. É ainda considerado uma falha. E as mulheres permanecem silenciosas sobre isso. É algo de que também não se fala no cinema, pois este traduz a vida.

