Atriz franco-norueguesa nascida em Paris, Sara Mortensen tem, na última década, vindo a afirmar-se como um dos rostos mais reconhecíveis da televisão francesa, primeiro pela sua presença em Plus belle la vie (2012–2019) e, mais recentemente, em Astrid et Raphaëlle, série também exibida em Portugal no canal Star Channel Portugal.
No papel de Astrid Nielsen, uma arquivista da polícia dotada de uma memória excepcional, mas diagnosticada com síndrome de Asperger, uma condição que influencia a sua sociabilidade, Mortensen construiu uma personagem singular, em contraste e complemento à comandante Raphaëlle Coste, interpretada por Lola Dewaere, uma figura mais impulsiva e intuitiva. Juntas, elas formam uma dupla improvável que conquistou o público ao longo já de seis temporadas
Numa conversa com o C7nema em Paris, a atriz refletiu sobre o desafio de habitar uma personagem ao longo de vários anos; o impacto da representação da diferença no ecrã; o seu percurso artístico; e a forma como Astrid transformou a sua própria visão do mundo.

Faz mais de 6 anos que interpreta Astrid. O que implica assumir uma personagem recorrente numa série de sucesso? Vive com a Astrid 24 horas por dia? Como é isso?
É uma grande responsabilidade, porque acho que o maior perigo da duração é acomodamo-nos. E não nos podemos instalar numa posição confortável a pensar: “isto funciona, é ótimo”. Não!
Todos os anos penso que não vou conseguir refazer a Astrid. E todos os anos penso que tenho de ter ainda mais cuidado do que antes. Porque é preciso manter uma vigilância extrema, uma precisão constante.
Portanto, vivo com a Astrid. Costumo dizer que estou em coabitação com as minhas personagens. E durante um tempo, a Astrid deixava-me apenas um banquinho no canto esquerdo, ao lado do frigorífico. Era só isso. Ela ocupava tudo o resto. Agora já nos conhecemos muito bem, e respeitamo-nos o suficiente para nos deixarmos em paz quando não precisamos uma da outra. Isso é um enorme progresso.
E isso aconteceu quando?
Diria que estamos a trabalhar nisso há dois anos, e agora tenho a sensação de que conseguimos mesmo. O que também aumenta o meu medo: será que a vou reencontrar? Mas dizem que ela está dentro de mim.
Lembra-se da primeira impressão ao descobrir a personagem? Foi logo clara para si?
Sim. Fui ao casting já completamente transformada: cabelo achatado, atrás das orelhas, camisa azul abotoada até cima, calças azuis, sapatos com atacadores simétricos. E encontrei logo aquela forma de falar.
Trabalho sempre como se já tivesse o papel. Porque naquele momento, estou ali plenamente, tal como numa conversa. Portanto, tenho de ser a personagem por inteiro.
Na altura, nem percebi que era um piloto para a série. Pensava que era um telefilme. Fui a única a não perceber isso.
Quando li o guião, pensei: isto é o maior presente do mundo… e talvez o pior veneno. Porque se falharmos uma personagem destas, é o fim da carreira. Se for ridículo ou ofensivo, acabou. Mas felizmente tornou-se um presente maravilhoso.
Tinha a mesma relação com a sua personagem de Coralie, no Plus belle la vie, ou era diferente?
Com a Coralie também era uma coabitação, mas uma coabitação mais de amigas. A diferença entre uma série diária e um papel mais pontual — mesmo que a Astrid seja recorrente — é que na diária temos de colocar muito de nós na personagem. Porque os argumentistas vão buscar, através do ecrã, aquilo que nós damos, como interpretamos uma cena, como abordamos um tema.
Há uma espécie de diálogo silencioso com os argumentistas. E, para sobreviver, temos de dar muito de nós. Eu colocava muito de mim na Coralie, e isso tornava mais fácil alternar e viver com a personagem.
Depois de seis ou sete anos com esta personagem, sente que evoluiu como atriz? E o público também mudou o olhar sobre a Astrid?
Sim. Acho que é uma série que fez bem às pessoas. Não quero parecer pretensiosa, mas sinto que fez bem à diferença, e às pessoas ligadas ao espectro do autismo, direta ou indiretamente. E também ajudou quem não conhecia nada sobre isso.
Porque o ser humano tende a reagir à diferença com medo, curiosidade ou rejeição — muitas vezes uma curiosidade pouco saudável, com julgamento. Aqui, sinto que despertou uma curiosidade saudável.
Para mim, mudou tudo. Sou o oposto da Astrid. E ela ensinou-me a paciência — uma paciência infinita que ficou em mim — e também mais suavidade e benevolência.
Sempre fui sensível à diferença. Cresci rodeada de pessoas autistas, sem sequer saber que eram autistas. Não havia rótulos. Agora que sei, tenho ainda mais cuidado, mais empatia.
Quanto à evolução da personagem, isso deve-se sobretudo aos autores, nomeadamente do Alexandre de Seguins, que a colocam em situações diferentes que a fazem evoluir.

Quando diz que conviveu desde pequena com pessoas autistas, eram familiares?
Não. O meu pai, Maxime Ferrier, dirigiu durante 30 anos o atelier infantil do Centre Georges Pompidou. Ele trabalhava com crianças “visíveis e invisíveis”.
E fazia questão de trazer crianças da minha idade. Quando eu tinha 2 anos, elas tinham 2; quando eu tinha 3, elas tinham 3. Mais tarde, tornei-me assistente.
Recebíamos jovens do hospital de dia da Pitié-Salpêtrière. E, claro, as pessoa no espectro do autismo não deviam estar em hospitais psiquiátricos — não é uma doença mental — mas infelizmente ainda é muitas vezes o único lugar de apoio para as famílias.
Passei muito tempo nestes ateliers. O meu pai era extraordinário com crianças, tinha uma magia incrível. Cresci nesse ambiente.
Como evitar estereótipos numa personagem como a Astrid?
Era essencial criar uma personagem suficientemente subtil para não ferir ninguém, mas suficientemente diferente para ser percebida.
Astrid é uma personagem de ficção. Representa uma forma de ser, não todas. Na realidade, provavelmente nem existiria assim — as mulheres mascaram mais o autismo e são diagnosticadas mais tarde.
O objetivo era: quem se identifica diga “obrigado” e quem não conhece diga “ok, agora percebo melhor”.
Há uns tempos surgiu uma notícia sobre uma Barbie com autismo, que motivou reações diferentes. Como viu esse tema?
É bonito querer ser inclusivo, mas às vezes é muito mal feito. Uma cadeira de rodas é um objeto — não é a diferença. Aqui, transformaram a diferença num acessório. A intenção é boa, o resultado nem tanto.
Existe uma pressão hoje em dia, com tantas séries e plataformas? O sucesso pode acabar de repente?
Não tomo o sucesso como garantido. As plataformas multiplicam-se, os conteúdos também. As pessoas consomem séries de forma absurda.
Vemos nos Reels: “fica 10 segundos”. É surreal. Dez segundos antes de decidir ver algo durante dez minutos… e depois saltar para outra coisa.
Temos cada vez menos tempo para convencer e mais concorrência. Isso assusta.
Mas ao mesmo tempo temos um público incrível, que cresce todos os anos. Uma base sólida que nos promove e traz novos espectadores.
Claro que penso: será que vamos fazer a temporada a mais? Eu não estou pronta para deixar a Astrid. Acho que o mundo ainda precisa dela. Mas temos de saber quando parar.
Olhando para trás, saiu da Plus belle la vie para fazer Astrid. Foi um mal que veio por bem?
De certa forma. Fiz Coralie durante 7 anos, ela fazia parte de mim. Não posso culpar a produção. Antes, conseguia conciliar tudo porque não era protagonista. Mas quando se passa a protagonista, isso muda. Para a Astrid, tive de sair cinco meses. Percebi que eles tinham de escolher. O mais difícil foi não me deixarem despedir-me.
Mas eu não sei dizer não ao trabalho. Se dependesse de mim, ainda lá estaria. Hoje, com tudo o que faço, foi uma bênção.
Como chegou à representação?
O meu pai era artista. Eu queria ser veterinária ou pediatra. Mas uns amigos inscreveram-me na escola de teatro Cours Florent, aos 20 anos. Fiz um estágio… e descobri que era ali que pertencia.
Estava a estudar História. Pensava ser professora ou investigadora. Mas subi a um palco e percebi que era o meu lugar.
Gostaria de ver a Astrid no cinema?
Adorava e faz sentido. Mas teria de parar a série. E não sei se estou pronta para isso.
Qual é o lugar do cinema na sua vida?
O cinema é enorme na minha vida. Eu é que não tenho um grande lugar no cinema. Mas não me posso queixar. Trabalho, e isso já é uma sorte enorme.
Não é difícil escapar a uma personagem tão marcante como Astrid?
Acho que não. Sou tão diferente dela que isso até me protege. Posso fazer outras coisas à vontade.
O que é que a Astrid lhe ensinou?
Paciência, benevolência e que a diferença é uma força.
E que o mundo seria melhor se deixássemos de ver as diferenças como diferenças — e passássemos a ver apenas pessoas.
Porque hoje o mundo está completamente de pernas para o ar — as pessoas lutam umas contra as outras por causa das diferenças.

