Ruídos da esperança na é(ste)tica dos Dardenne

(Fotos: Divulgação)

Mesmo depois de 47 anos de carreira, os irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne não descubriram o que leva as plateias dos seus filmes às lágrimas e receberam com surpresa a pergunta de um jornalista alemão, em Cannes, a dizer que a mais recente longa-metragem da dupla, “Jeunes Mères“, foi capaz de comover até o mais insensível crítico de passagem pelo festival.

Talvez isso acontece pelo facto de todos nós um dia temos sido bebés“, disse Jean-Pierre, bem-humorado ao se referir à presença de recém-nascidos na trama de “Jeunes Mères“, que disputa a Palma de Ouro, troféu que eles ganharam no passado duas vezes, em 1999 (“Rosetta“) e em 2005 (“L’Enfant“). “O que nos interessa é a condição humana, sem deixar os personagens exóticos“.

Construído como narrativa coral (com vários núcleos de personagem), “Jeunes Mères” assume como ponto de partida um centro de acolhimento para meninas que tiveram filhos na adolescência por descuidos com os métodos contraceptivos ou viveram alguma violência sexual.

Cada menina em cena é uma vítima da ausência de afeto e do desajuste social e a nossa ambição é retratar como elas se libertam dessa condição“, disse Luc. “O cinema é feito de emoções e tentamos retratar as gentilezas“.

As jeunes mères são Jessica (Bebette Verbeek), Perla (a força da natureza Lucie Laruelle), Julie (Elsa Houben), Ariane (Janaina Halloy Fokan) e Naïma (Samia Hilmi). Cada uma tem um conflito, que passa pelo impossibilidade legal e financeira do aborto (nunca abordado por veios moralistas ou religiosos) e por indelicadezas dos seus responsáveis e companheiros. Ariane, por exemplo, lida com a mãe alcoólatra e o padrasto abusivo enquanto tenta dar o seu bebé para a adoção. Já Jessica tenta entender as razões de Morgane (India Hair) tê-la abandonado após seu nascimento. Perla, por sua vez, tem como maior angústia a irresponsabilidade do pai de sua criança, no meio ao contexto racista que a cerca. Nenhuma delas tem uma rotina leve. Tornaram-se mães por acidente. Umas amam essa condição. Outras, não. No abrigo, elas encontram apoio e, mais do que isso, encontram-se, na aliança da sororidade.

São essas mulheres que nos comovem“, disse Jean-Pierre, que explicou ao C7nema como funciona a natureza sonora da estética que construiu com o seu irmão dos anos 1970 até hoje. “Escolhemos locais barulhentos como locação. Filmamos numa rua bem barulhenta por opção, por querer os ruídos. Eles contam tanto quanto o espaço. Sem música, deixamos que o silêncio pontue as falas. Os gestos comunicam muito“.

O Festival de Cannes termina na noite deste sábado.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/fusx

Últimas