“Trump consegue ir à casa de banho sozinho”, brinca Johnny Depp

Irreverente como sempre, Depp passou por San Sebastián

(Fotos: Divulgação)

Parceiro de cineastas como John Waters, Jim Jarmusch e Emir Kusturica nos seus primeiros anos no cinema, depois de uma breve presença em “Platoon” de Oliver Stone, em 1986, Johnny Depp fez jus às suas raízes mais indies e rebeldes na sua passagem por San Sebastián, durante o fim de semana. “Jack Sparrow” ficou no passado, ao lado do mar de problemas que enfrenta hoje (desde a acusação de violência por parte da sua ex, a atriz Amber Heard e até uma crise financeira), para celebrar a inquietude no papel de produtor de um documentário. Foi ele quem produziu o feérico “Crock of Gold: A Few Rounds With Shane MacGowan“, assinado por Julien Temple. E ao falar do punk da Irlanda, o iracundo Shane, Depp incorporou espírito do vocalista dos Pogues, soltando farpas contra o atual residente da Casa Branca, Donald Trump.

Acredito que ele consiga ir à casa de banho sozinho, mas não penso muito nisso. Solto gargalhadas quando o ouço a falar. As palavras dele soam a comédia. Comédia que assusta“, disse o ator da franquia “Piratas das Caraíbas“, hoje com 57 anos. “Não vejo filmes de ficção. Vejo documentários. Nos documentários, não há ninguém a atuar“.

Em fevereiro, foi visto como ator na Berlinale, a viver o fotógrafo W. Eugene Smith em “Minamata“. Na ocasião, Depp falou de política na capital alemã: “A responsabilidade que me move não é apenas como artista, mas como ser humano, de ver que o cinema pode ser usado para dar voz a causas que são abafadas por práticas monolíticas de poder. Existe um símbolo no I-Ching que fala em ‘o poder dos pequenos’. Frente ao monolitismo político que nos cerca, nós somos pequenos, todos nós… e, sendo pequenos, não vencemos os nossos adversários no grito, ou fazendo a nossa própria casa vir abaixo. Vencemos em pequenos gestos, pouco a pouco”, disse Depp à imprensa.

Naquela conversa, falou ao C7nema sobre sua vivência do outro lado das câmaras, como realizador, em 1997, com “O Bravo“, no qual dirigiu o seu amigo Marlon Brando (1924-2004). “Se voltar a realizar novamente, certamente não vou atuar, pois no processo e ser cineasta, atuar como protagonista ao mesmo tempo divide a minha cabeça em dois: uma parte de mim pensava em como deveria atuar; a outra pensava em como realizar”, contou o ator indicado ao Oscar por três vezes: em 2004, pelo papel de Jack Sparrow; em 2005, por “Em Busca da Terra do Nunca”; e em 2008, pelo musical “Sweeney Todd”, do seu habitual parceiro, Tim Burton.

Antes de “O Bravo“, havia filmado Shane num clipe, “That Woman’s Got Me Drinking“, de 1994. O vídeo é revisitado por Temple em “Crock of Gold“. O “Shane é um letrista brilhante, do porte dos grandes poetas, com uma ferocidade singular. Eu era jovem quando descobri a sua música e tenho a honra de poder conviver com ele e com seu jeito furioso. Ser insultado por ele é parte da sua maneira de expressar consideração. Naquele clipe, ele fez-me o convite numa sexta para filmar numa segunda. Não sabia nem como fazê-lo, mas juntei uma equipa e fiz tudo num dia, vivendo o papel de um bêbado“, disse Depp ao C7nema, ciente de que “Crock of Gold” foi aplaudido com ardor pelos críticos em San Sebastián, na luta pela Concha de Ouro de 2020. “Shane leva-te aos calcanhares do demónio”, concluiu.

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