Sob os ecos do chamado “milagre económico” de um Brasil amordaçado pela ditadura militar e assolado pelo Ato Institucional nº5, que tolheu a liberdade plena dos seus artistas, o Festival de Gramado nasceu no estado do Rio Grande do Sul, em 1973, com a promessa de se tornar uma espécie de zona franca… ou de bunker para a livre troca de ideias… para cineastas, produtores e atores cansados do açoite.
Passados 18 anos, o evento – encarado como a mais popular das maratonas competitivas do audiovisual de seu país, por conta do glamour e simbolismo do troféu, o Kikito, batizado em referência ao Deus Sol dos gaúchos – teve de mudar a sua configuração por conta de uma (outra) sequela política. Os militares, então, saíram de cena, mas Fernando Collor entrou no lugar deles, promovendo o degolar do órgão que arbitrava os rumos da produção cinematográfica verde e amarela, a Embrafilme, cuja extinção, em 1990, freou projetos e sonhos de quem esperava filmar. Para não ser cancelado, o Gramado reciclou as suas premissas, tornando-se uma competição latina, recebendo filmes de toda a Pangeia hispânica ao seu redor, além de alguns títulos ibéricos. Foi difícil, mas os seus organizadores e curadores seguraram o rojão e tudo se reacomodou, ficando duas competições de longas no mesmo Palácio dos Festivais: uma de hispânicos, outra de brasilidades diversas, com carinho especial para filmes do próprio Sul que, vide “Ilha das Flores” (1989), viveram um apogeu entre os 1980 e 1990.
Em 2020, a população brasileira arrumou para si novos grilhões para arrastar, só que a força que obrigou o Gramado a mudar de novo foi outra, que não os conflitos inerentes ao governo e, sim, à Covid-19. Por conta da pandemia do coronavírus, o festival terá que ser realizado online, na vitrine do streaming, no Canal Brasil Play. A emissora também vai exibir os filmes selecionados na sua grelha na TV a cabo. A programação vai de 18 a 24 de setembro – com uma seleção de fazer salivar qualquer cinéfilo, num trabalho de curadoria assinado pela cantora e atriz Soldad Villamil, o jornalista e diretor Pedro Bial e o crítico e professor de Comunicação Marcos Santuário.

São sete longas-metragens brasileiros zero KM para compor a luta, incluindo “Todos os Mortos”, de Caetano Gotardo e Marco Dutra, produção paulista que disputou o Urso de Ouro na Berlinale, em fevereiro. Vão para peleja com ele dois títulos egressos de Roterdão: “Aos Pedaços”, do veterano Ruy Guerra, que completa 90 anos em 2021; e “Um Animal Amarelo”, de Felipe Bragança, ligado à herança colonial d’África. De Brasília chega Cibele Amaral, realizadora da exuberante curta-metragem “Momento Trágico” (2003), a concorrer com “Por Que Você Não Chora?”. De Pernambuco, Camilo Cavalcante (de “A História da Eternidade”) competirá com “King Kong em Asunción”. E há ainda dois documentários: “O Samba é Primo do Jazz”, em que Angela Zoé investiga a música da cantora Alcione; e “Me Chama Que Eu Vou”, com o qual Joana Mariani mostra que o sangue do audiovisual ferve por Sidney Magal.
Para lutar pelos Kikitos da competição estrangeira, dedicada (como já é tradição) à América Latina hispânica, foram convocados sete longas de sete países. Vai ter Argentina (“O Silêncio do Caçador” – “El Silencio Del Cazador”, de Martín de Salvo); Bolívia (“Tu Me Manques”, de Rodrigo Bellott); Chile (“Los Fuertes”, de Omar Zúñiga Hidalgo); Colômbia (“La Frontera”, de David David); México (“Días de Invierno”, de Jaiziel Hernández); Paraguai (“Matar a Um Muerto”, de Hugo Giménez) e Uruguai (“El Gran Viaje a um País Pequeño”, de Mariana Viñoles).

Entre as curtas-metragens em competição, o Gramado assegurou medalhões para si, como Sinai Sganzerla (concorrendo com “Extratos”) e o animador Otto Guerra, que divide com Érica Maradona a direção de “Subsolo”. Este ano, a realizadora Laís Bodanzky vai receber o troféu honorário Eduardo Abelin por sua assinatura autoral gregária e avassaladora e pelo seu trabalho como gestora, à frente da SP Cine. O tradicional troféu honorário Oscarito, que o Gramado concede desde os anos 1990 este ano vai para Marco Nanini. O ator uruguaio César Troncoso será contemplado com o Kikito de Cristal e a atriz Denise Fraga recebe o troféu Cidade de Gramado.
Como vai ser uma edição não presencial, Gramado vai deitar e rolar no tapete vermelho que o Canal Brasil lhe estende (por todo o mérito) e prepara um maratonaço pro domingo, dia 26/09. Ali, a programação das horas que antecedem a cerimónia de premiação – que será transmitida ao vivo pelo canal – será toda dedicada à mais popular das competições do audiovisual brasileiro. Às 11h25, vai ao ar o filme “BR716”, de Domingos Oliveira, que levou o Kikito de melhor filme em 2016, seguido pelo episódio do programa “O País do Cinema” que discute a produção, às 13h (18h de Lisboa). Uma edição especial do “Cinejornal” sobre o festival será exibida às 13h40 (18h40). Às 14h (19h), o CB exibe o filme de culto “Bróder”, de Jeferson De, filme premiado em 2010; às 15h35 (20h35), vai ao ar uma aula de inclusão chamada “Colegas”, de Marcelo Galvão, que teve uma vitória comovedora em 2012; às 17h20 (22hh20), passa (o necessário) “Ferrugem”, de Aly Muritiba, egresso de Sundance e laureado em 2018; e às 19h (24h), é a vez de “Como Nossos Pais”, de Laís Bodanzky, que conquistou o Kikito em 2017. Após a premiação, à 0h (5h), o Canal Brasil exibe ainda “Tatuagem”, de Hilton Lacerda, devidamente “Kikitado” em 2013.

