Arranca o Festival Internacional de Cinema e Literatura de Olhão

O evento decorre até dia 21

(Fotos: Divulgação)

Com o “fantasma” do Covid-19 a pairar ainda sobre o país, arranca hoje a segunda edição do FICLO – Festival Internacional de Cinema e Literatura de Olhão, evento que ganha notoriedade e prestígio dentro do universo dos certames ligados ao cinema em Portugal, especialmente pela “ligação única à literatura”, como nos explicou em entrevista uma das diretoras do festival, Candela Varas.

Inicialmente marcado para acontecer entre os dias 28 de março e 5 de abril, toda a pandemia alterou a dinâmica do festival, levando a organização a cancelar algumas secções, como a Gótico Tropical, que surgirá certamente numa outra edição no futuro do FICLO.

E como se prepara um festival no meio desta pandemia que virou pandemónio na alteração dos hábitos de todos nós. “É o caos”, explicou-nos Candela, que há duas semanas, numa conversa por telefone mostrava-se confiante sobre a decisão de avançar com o certame. Não havia, aliás, grande hipótese senão avançar, pois outras datas seriam complicadas ou inacessíveis, e um festival de cinema em Portugal, especialmente aqueles que começaram há pouco tempo, tem muita dificuldade em esticar orçamentos com adiamentos consecutivos. 

Essa não era a única preocupação da diretora, aliás, pois como nos confidenciou tinha ainda de trabalhar na candidatura do evento aos fundos do ICA para o futuro, algo extremamente complicado nesta fase, até porque – como outros responsáveis por festivais nos disseram – poderia ter havido uma certa flexibilização e mais informação do Instituto do Cinema durante este período particular. 

Ainda assim, fica prometido que todas as condições de segurança foram tomadas pela organização, que se mantém em permanente ligação e observação às orientações de saúde das entidades competentes.

Adoration” de Fabrice Du Welz a abrir

Adoration

Todo o programa do FICLO está organizado através de obras em que o diálogo entre o Cinema e a Literatura é acentuado e o filme de abertura deste festival não escapa a isso. 

É uma história cruel sobre um miúdo bastante simples, um idiota, no sentido ‘Dostoievskiano’. Ele é ingénuo e vive em harmonia com os elementos, sozinho, à parte do mundo. A sua mãe trabalha numa clínica particular onde se tratam pessoas com doenças mentais. Esse miúdo procura carinho, mesmo que viva com a mãe, que é alguém muito particular. Um dia, chega uma adolescente. Obviamente perturbada e perturbadora, ele vai apaixonar-se por ela. É amor total, um amor absoluto”, disse o cineasta sobre a obra, que tal como os seus filmes anteriores vem carregado por um trabalho estético muito forte, capaz de refletir o brilho do amor e uma jornada de descoberta marcada pela fuga dos “amantes”.

Mas embora marcante esteticamente como os seus trabalhos anteriores (“Calvaire“, por exemplo), aqui não é o cinema norte-americano a principal influência: ”Queria me reconectar com um certo realismo poético francês dos anos cinquenta. Aquele de Cocteau, Melville, Georges Franju, Carné ou Duvivier. É por essa razão que o filme começa com uma citação de Boileau-Narcejac. Uma citação de uma curta-metragem de Franju, “La première nuit”. Eu queria ancorar o filme num realismo poético com uma filiação real“.

Além desta obra de Du Welz, por Olhão vão passar na competição os filmes Campo, de Tiago Hespanha; Fortress”, de Ludovica Andò e Emiliano Aiello; I Do Not Care if we go down in History as Barbarians, de Radu Jude; There was a Little Ship, de Marion Hänsel; Endless Night, de Eloy Enciso; The Good Girls”; “Valley of Souls, de Nicolás Rincón Gille; e Out Stealing Horses”.

Foco em Albert Serra e um ciclo italiano

A pandemia e a incerteza afastaram Albert Serra de estar presente no FICLO – Festival de Cinema e Literatura de Olhão, mas a retrospetiva integral da sua obra mantém-se. Nome forte do cinema de autor, onde a literatura e o teatro têm uma importância fulcral na sua esfera autoral, Serra é mesmo um dos grandes focos desta segunda edição do festival, que ainda vai contar com um ciclo de cinema italiano que integra grandes clássicos do Rossellini, Visconti, Antonioni e Pasolini.

Toda a programação do FICLO poderá ser consultada aqui.

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